Depois de ter gostado bastante de A Normal Lost Phone, era com enorme expectativa que aguardava a chegada ao mercado de Alt-Frequencies, a nova obra da produtora Accidental Queens. Infelizmente, o argumento, por muito pertinente que seja em determinados momentos, é sabotado por processos de jogo que se tornam maçudos e desenxabidos.
Praticamente desde os primeiros momentos, fica claro que a produtora quer distanciar-se das obras que lhe deram alguma notoriedade e, não menos importante, colocar nos ecrãs dos dispositivos móveis e nos monitores algo com mecânicas diferentes do que é comum. Para tal, coloca quem joga com o papel de percorrer as diferentes estações de rádio, vasculhando o éter à procura de informações importantes para a grande solução.
Alt-Frequencies pode ser descrito como uma obra de puzzles, todavia, as mecânicas são bastante peculiares - e simples. Em frente a um rádio, vamos saltando de estação em estação enquanto escutamos aquilo que os apresentadores, convidados, etc, estão a conversar. Quando encontrarmos um pedaço de informação que se enquadre com aquilo que precisamos, podemos então gravar esse trecho, ficando com o pedaço de áudio na nossa posse.
Mas isto é apenas metade do processo. Continuando a saltar de estação em estação, podemos enviar esse pedaço áudio diretamente para o que estiver em antena, interagindo com a emissão. Como podem facilmente compreender, é um incessante vasculhar do trecho que o jogo quer que seja encontrado e, muitas vezes, um caso de tentativa e erro até fazermos o arco narrativo avançar.
O grande ganho da narrativa - que acaba por afetar a jogabilidade - é que Alt-Frequencies vive de e para um ciclo, literalmente um ciclo. Sempre que passam alguns minutos, o presente ciclo termina, e é feito um reset nos humanos que fazem parte deste elenco. E é aqui que tudo se torna interessante: alguns humanos não são afectados por este fenómeno e alguns dos imunes começam a vasculhar por pistas sobre uma conspiração governamental.
O melhor que Alt-Frequencies consegue fazer é apresentar-nos um leque diverso e rico de personagens que fazem parte de uma enorme teia de informação e, derradeiramente, de uma conspiração sobre o tal loop. Ouvir os diferentes apresentadores, alguns dos quais com a personalidade de uma besta, outros que juraram honrar a profissão de jornalista e outros alimentados por uma futilidade fininha, é um elenco que marca pela diversidade, o que sem grande surpresa adensa o argumento.
A forma como essa trama é apresentada, ou seja, a forma como praticamente desde o início nos é incutida a sensação de conspiração, mas que se vai revelando lentamente ao longo de cinco capítulos não ajuda. Tal como não ajuda a jogabilidade perder o factor novidade demasiado cedo, não evoluindo com o acumular dos capítulos e, sobretudo, mostrando-se ser pastosa e arruinadora de uma boa porção da vontade de conhecer a verdade completa escondida algures em Alt-Frequencies.
O melhor elogio que posso fazer ao elenco da obra é que durante a minha estadia com a produção da Accidental Queens foi recorrente esquecer-me que não estava a ouvir rádio em directo, tal é a aproximação do tom e da cadência aplicadas às transmissões reais. Claro que a obra estar em inglês e ter alguém chamado “Winston” a alimentar-me mirabolantes enredos de engano à sociedade como tudo ajudam-me a perceber que estava perante um videojogo, mas o cômputo geral das transmissões está muito bem conseguido.
Apesar de não ter uma longevidade que se prolongue por inúmeras sessões de jogo e, ainda que a produtora coloque na nossa mão algumas ferramentas para tentar tornar a jogabilidade algo mais do que um marasmo, o arco narrativo que retrata em parte o poder das informações falsas e da forma como se espalham como fogo num monte seco só tinha a ganhar se não fosse acompanhado por uma obra que não conquista o interesse de uma forma inequívoca.
Não deixa de ser quase um paradoxo que esta experiência tivesse a ganhar se dedicasse mais tempo a aprofundar o impacto e o valor que tem o comentário social numa altura em que são tantas as frentes envolvidas na propagação e no combate de informações falsas, mas que apesar da sua relativa curta longevidade se arraste em determinados momentos.
Descrever Alt-Frequencies como um jogo em que o tempo é manipulado numa repetição não é falso, contudo, não é contar a história toda. “Se estamos num loop temporal e algumas pessoas se lembram disso, precisamos de as encontrar,” diz Ennis B., uma das personalidades da estação Talk Radio. Alt-Frequencies é um jogo sobre essas pessoas e a conspiração de que fazem parte. O prazer de esmiuçar a verdade entre e para estas vozes, contudo, esbarra em processos sem emoção e, ironicamente, também eles repetitivos.