A série Bridge Constructor não é propriamente nova, tendo agraciado diversas plataformas nos últimos anos. Contudo, quando foi anunciado que a série da Headup Games teria conteúdo oficial de Portal em Bridge Constructor Portal, muitos no mundo dos videojogos prestaram novamente atenção, eu incluído, tendo dedicado várias horas à versão PlayStation 4 da obra.
Tal como já tínhamos descoberto antes, a sua essência permanece inalterada, ou seja, usamos os materiais que temos à disposição para construir pontes, esperando que o esforço seja suficiente para que o nível seja concluído com sucesso. É uma mecânica que parece simples porque é simples. O jogo explica com um tutorial o que temos que fazer, com o resto a ser dedução e o prazer do falhanço.
Temos vários materiais para construir a nossa ponte: o básico são as peças triangulares para que a ponte não se mova em demasia, com os pontos de fixação a não serem menos importantes. O que torna estas mecânicas divertidas é a forma como a física consegue deturpar e atraiçoar o nosso discernimento inicial. Incontáveis vezes, o que me parecia ser uma construção sólida, acabou por desmoronar-se como um castelo de cartas.
Trata-se de um jogo claramente de tentativa e erro. Estes processos são divertidos inicialmente, mas não têm fôlego para aguentar os sessenta níveis que compõem Bridge Constructor Portal. Isto não quer dizer que o jogo não fique progressivamente complexo, porque fica. Na segunda metade, os níveis acabam por ser verdadeiros hinos à arquitetura - os resultados das minhas construções são complexos e um desafio à gravidade e à lógica como a conheço nas pontes reais.
O que é verdadeiramente novidade em Bridge Constructor Portal é a incorporação do conteúdo da obra da Valve. As pontes servem para que uma empilhadora chegue do ponto A ao ponto B, mas temos também que evitar - à laia da construção - várias peças de Portal, como turrets, lasers, plataformas para saltar, uma substância que faz as empilhadoras saírem disparadas e, como se não bastasse, os tradicionais portais com várias cores do jogo. Tudo isto, enquanto obviamente tentam enganar um final precoce que é a queda em poças de ácido. Simples, não?
Isto é interessante nas primeiras vezes que temos que lidar com as mecânicas, o que nos leva a ter que ajustar a forma como pensamos as construções, a forma como o objetivo de construir uma ponte tem que passar pelo uso destes itens - seja para nosso benefício ou como obstáculo. Importa salientar que os níveis podem ser concluídos com a passagem de uma empilhadora, mas para fazer o nível a 100% a vossa construção terá que suportar vários veículos, o que aumenta a dificuldade, claro, mas proporciona também alguns momentos hilariantes, em que o efeito em cadeia faz com que a construção comece a baloiçar até ao inevitável desastre.
Bridge Constructor Portal é também um jogo de precisão, pois é preciso unir os pontos para que a ponte fique terminada. Não posso dizer que o DualShock 4 não esteja à altura, ainda que em certos momentos a aproximação necessite de alguma paciência. Na prática, estes momentos mais parados não fazem mais danos porque o jogo nunca chega a ser rápido, obrigando-nos na sua essência a pausar e a refletir.
O maior problema é a passagem do tempo. Mesmo a fundição de conteúdo advindo das origens de Bridge Constructor com os novos processos de Portal, a obra acaba por não ter pulmão suficiente para manter tudo interessante durante as suas seis dezenas de níveis. Tal como já escrevi, a segunda parte é ridiculamente complexa, mas não é mais do que a junção de todas as mecânicas anteriores. E também como já mencionei, é uma questão de tentativa, erro, afinação, tentativa até finalmente os tripulantes das empilhadoras chegarem ao outro lado do cenário.
Além do conteúdo no terreno, a presença de GLaDOS é um ás em Bridge Constructor Portal, até porque conta com o regresso de Ellen McLain para lhe emprestar novamente a voz. O arco narrativo do jogo é praticamente inexistente, mas o humor de GLaDOS nas introduções, ainda que não tão em evidência como na série Portal, dá claramente um tom distinto à obra, fazendo-nos muitas vezes sorrir, nem que seja pelo tom sério com que são proferidas frases completamente non-sense.
Bridge Constructor Portal não se quer afirmar pelo seu arco narrativo, obviamente, mas jogamos alguém que foi recrutado recentemente pela Aperture Laboratories. A nossa tarefa é testar alguns dos novos brinquedos da empresa e, portanto, vamos de Test Chamber em Test Chamber construindo pontes. Como podem ver, é fácil perceber o motivo das introduções e interjeições de GLaDOS serem a melhor parte.
E no departamento técnico também não há grande variedade nem detalhe a notar. Há as cores dos portais, do ácido, há a contemplação da complexidade dos últimos níveis como se as construções fossem quase teias de aranha, mas pouco mais do que isso. A obra foi testada numa PlayStation 4 Pro e sente-se que não faz a mínima diferença. No departamento sonoro, sem grande surpresa, o ponto alto é ouvir Ellen McLain.
Bridge Constructor Portal não é um mau jogo, mas sim uma obra que não tem fôlego para se manter relevante na nossa curiosidade durante a sua estadia completa. As mecânicas estão lá para nos fazer experimentar, mas chega a um ponto em que a dificuldade aumenta porque a lista de afazeres aumenta, o que leva a um período de testes mais alargado. Uma dica: não comecem a jogar Bridge Constructor Portal a pensar que estão na presença de Portal 3, pois então a desilusão será irreparável.