Inserindo-se no género de jogos de sobrevivência, Conan Exiles tem a particularidade de fazer esse mesmo género desde os momentos iniciais. Isto instiga no jogador essa mesma sobrevivência, mas também acaba por revelar uma curva de aprendizagem que poderá afastar alguns do contínuo investimento do seu tempo. Como terão oportunidade de ler, isto não faz de Exiles uma obra má, mas um videojogo desafiante - por vários motivos.
A obra da Funcom começa com a criação de uma personagem que servirá como a vossa representação ao longo das próximas dezenas de horas. Podemos escolher uma raça e uma religião, mas podemos também escolher também o nível da nudez que queremos ver na obra. Há opções masculinas e femininas, sendo possível ajustar vários parâmetros da personagem - incluindo, sim, a forma como queremos ver representados os órgãos genitais.
Depois destes momentos que podem ser partilhados com vários Role Playing Games ou obras de sobrevivência - talvez não a parte da nudez e da expressão sexual -, Conan Exiles parece ter orgulho em entregar o jogador à sua sorte. A nossa personagem foi, literalmente, deixada abandonada para morrer no meio do deserto. Aliás, é Conan, o Bárbaro, que altera esse destino que parecia ser inevitável, removendo a personagem da cruz.
É um arranque agressivo, mas que instala perfeitamente o tom da obra. Somos obrigados a adaptar-nos perante este choque, perante este abandono completo. Sendo uma obra de sobrevivência, tal como já foi referido, é o jogador que tem que descobrir o que fazer - e como o fazer - a seguir. Desconstruindo cada uma das tarefas que se avizinham, é necessário recolher as matérias-primas para criar a primeira peça de roupa, arranjar um local para descansar, caçar, recolher a carne, cozinhá-la, e alimentar o protagonista, mesmo que essa carne seja humana.
Neste terreno inóspito e agressivo, graças à ausência de tutoriais propriamente ditos, somos nós, os jogadores que vamos percebendo como é que as mecânicas funcionam e, sobretudo, aquilo que o jogo quer de nós. Depois dos passos iniciais, que importa mencionar, demoram algumas horas a serem dados, é quando Conan Exiles verdadeiramente se abre e revela a sua vastidão de processos.
Seja a forma como a nossa base - ou a sua derivação - pode ser melhorada, seja a forma como entram na equação os sistemas de combate mais profundos ou o expectável sistema de crafting, Conan Exiles vai buscar algo a outras obras de sobrevivência e algo a Role Playing Games mais tradicionais, como por exemplo a experiência para desbloquear atributos para a vossa personagem.
É um jogo que se propõe a muita experimentação e que incita ao combate e à interação com outras personagens, colocando no nosso caminho vários NPCs. Contudo, quando morrem, o seu lado mais brutal volta a vir ao de cima, removendo tudo aquilo que tínhamos recolhido, incluindo a nossa roupa. E tal como em Dark Souls, por exemplo, há que voltar ao mesmo local para fazer a recolha - e comer o nosso próprio corpo se tal for necessário.
Não será com grande surpresa que se adivinha que toda esta curva de aprendizagem possa afetar o interesse dos mais impacientes. Tal como não é grande surpresa mencionar que o comando da PlayStation 4 fica um pouco aquém da lista com todos os movimentos e interações. Mas talvez o principal problema de Conan Exiles seja a sua performance, mesmo jogado numa PlayStation 4 Pro ligada a uma televisão 4K.
A framerate tem quebras brutais e facilmente notáveis, os glitches estão presentes em abundância, chegando não só a quebrar a imersão, como a atrasar o progresso, e o grafismo propriamente dito deixa muito a desejar. Compreende-se que os cenários não estejam ao nível das obras da Naughty Dog, dada a sua escala, contudo, no estado em que o experimentei, parece uma obra que só tinha a beneficiar em ficar mais alguns meses em produção para limar arestas.
Este cenário de proporções consideráveis entra na equação nas valências multijogador da obra. Além do modo a solo - que claramente é a pior forma de experimentar Conan Exiles - há também um mundo cooperativo e PvP. Novamente, os alicerces estão no lugar, mas a experiência é tolhida por problemas de conexão, com a consola e a Internet a ser a mesma por onde já passaram dezenas e dezenas de títulos.
Os problemas afetam alguns momentos na deslocação e no combate, ou seja, os momentos em que é necessária alguma precisão. Contudo, os momentos de apreciação, como as construções feitas por outros jogadores, são uma amostra desses mesmos alicerces: se a Funcom conseguir solucionar os soluços técnicos, a comunidade parece estar disposta a investir as suas horas. A grande questão é se continuará com essa disposição depois da poeira assentar.
As bases estão aqui, com Conan Exiles a conseguir pintar um quadro geral abrangente, com uma mesclagem de mecânicas que lhe dão profundidade e que levam os jogadores mais pacientes por uma aventura com conta, peso e medida. Onde falha é sobretudo no departamento técnico, seja nas texturas sensaboronas, na modelagem banal das personagens ou nos efeitos que deixam a desejar. O leque considerável de erros presenciados não ajuda nada a que o jogador tenha confiança nas horas a depositar.
No seu atual estado, Conan Exiles é um interessante dilema. Sem medo de ser ousado e agreste e desafiante na forma como alimenta as suas mecânicas e a sua lista de afazeres aos jogadores, não deixa de ser irónico que um dos maiores desafios seja lidar com o seu departamento técnico. Não é um desastre que nos faz regredir uma geração, mas está muito longe de ser um ponto de referência.
Se o comprarem, cedo irão descobrir que o cerne da obra está na sua componente multijogador - esperando que os servidores funcionem a 100% no futuro próximo. A solo é uma aventura, sem qualquer surpresa, pautada pela solidão. Na presença de outros jogadores é uma experiência que sai reforçada pela partilha. É uma pena que a versão que chegou ao mercado não tenha sido um pouco mais trabalhada, pois certamente deixaria as dificuldades para os capítulos onde elas devem estar: a superação das adversidades deste ecossistema desolador.