A caracterização ambiental de Draugen é tamanha, que é fácil sentir este frio a cortar a pele. Graavik, Noruega, é uma pequena vila sem ninguém; é uma pequena vila no fiordes onde a água é cristalina e contrasta com o denso mistério que se começa a adensar desde os primeiros minutos.
Vestimos a pele de Edward (conhecido sobretudo como Teddy), um académico que chega a Graavik acompanhado de Alice, uma jovem de 17 anos que não perde uma oportunidade para demonstrar o seu lado sarcástico numa toada que vai dando cor à relação entre os dois. A dupla está presente na Noruega para investigar o desaparecimento de Betty, a irmã de Teddy.
Draugen não se preocupa muito com a jogabilidade, querendo apenas que os processos não atrapalhem a resolução do mistério. Além de nos podermos deslocar pelo cenário, temos um diário onde estão registados os desenhos que o protagonista vai fazendo e um mapa com apontamentos, assim como a possibilidade de pressionar uma tecla para chamar e localizar Alice. Em determinados momentos do diálogo, o jogador pode também escolher de entre várias opções que aparecem no ecrã com algum contexto, guiando assim o desenrolar da conversa.
Não há propriamente instruções gráficas que nos dizem qual é o caminho a seguir, porém, graças a um mapa relativamente pequeno e à mecânica de chamar Alice faz com que nunca estejamos verdadeiramente perdidos. Inicialmente o local pode parecer estranho, porque o é, mas depois da primeira hora de jogo temos uma noção bastante concreta da primeira e principal área de jogo.
Não há habilidades para serem descobertas nem um verdadeiro teste à vossa habilidade: Draugen insere-se no subgénero que nos deu Dear Esther, Gone Home e o excelente What Remains of Edith Finch. O problema é dar tanto ênfase à narrativa e acabar, inequivocamente, por desperdiçar a oportunidade para esclarecer os jogadores nos momentos que antecedem os créditos finais.
O jogo alimenta este arco narrativo com pistas e pequenas dicas sobre a presença próxima de Betty, mas abre outra linha narrativa quando os protagonistas investigam a morte de uma criança numa escarpa, duas famílias que azedaram e apodreceram antes da sua chegada e irmãos de costas voltadas, enfim, Draugen faz questão de tentar mostrar o que aconteceu antes sem nunca dar uma explicação sólida para o que está a acontecer no presente.
Ao longo da primeira metade do jogo é mencionada uma mina várias vezes - o que causou tanta dor teria certamente que estar associado a essa mina. Bem, é verdade que temos oportunidade de visitar esse local, mas a produtora Red Thread Games reduz isso a uma cena em que encontramos mais um objeto antes de tudo colapsar. Sente-se claramente que há muito mais a insuflação de um grande acontecimento do que acontecimento propriamente dito.
Esse objecto está ligado a Betty. Ou melhor, a um manequim que Teddy tem no casarão que serve de quartel-general a esta aventura. Ao longo do jogo vamos recolhendo peças que pensamos - angelicalmente - fazer parte de um puzzle. Um chapéu, luvas, um lenço, reconstruções de uma aparência, de uma ideia, que julgamos estar a ajudar o académico a chegar mais próximo da sua irmã desaparecida.
Um jogo que depende tanto do argumento tem que inequivocamente entregar um conto poderoso. A Red Thread Games consegue esquivar-se a mal ainda maiores ao não enveredar pelo lado mais simples e pejado de clichés do sobrenatural - sim, à porta da mina pode-se ler um simples e escusado “Este lugar está amaldiçoado”. Felizmente, o final não é tão preguiçoso e tão simples.
Infelizmente, também não é bem um final. É verdade que explica o que é que aconteceu a Betty e quando é que aconteceu, mas deixa inúmeras pontas soltas - e sabe bem que o está a fazer. Num dos últimos diálogos entre os dois, Alice diz a Teddy que talvez estes acontecimentos possam ser o seu próximo livro e que talvez seja ele a não deixar tanto por explicar. Se isto não for evidente que a produtora quis um final em aberto, a frase “Edward e Alice vão regressar” depois dos créditos aniquilam qualquer dúvida.
Durante esta estadia, porém, fica a relação entre os dois protagonistas. Não só pela dinâmica que se cria sobretudo graças à disparidade entre as duas personalidades, mas pela maneira como é possível ver a sua evolução para o bem e para o mal. No fundo, o peso da obsessão que Teddy tem em encontrar a sua irmã é derradeiramente nefasto para o seu presente.
Alice passa da adolescente na expectativa de mais uma aventura para alguém magoado e relegado para um plano menor. Antes, contudo, a troca de diálogos entre os dois transpira naturalidade, retratando perfeitamente o gozo, sarcasmo e humor de alguém com 17 anos que, nunca faltando ao respeito, não tem quaisquer problemas em gozar com a forma física de Teddy ou com algumas das decisões que toma. Tudo isto sem quebrar a caracterização de personagens inseridas nos anos vinte - Draugen decorre em 1923.
Num determinado momento já relativamente perto do final, Teddy e Alice estão a investigar o que aconteceu à tal criança na falésia. Numa divisão da casa encontram vários desenhos com um detalhe e uma minúcia que parecem verdadeiramente algo pintado por uma criança. Draugen faz estes micro apontamentos com uma destreza impressionante, tal como a criação da atmosfera que engloba Graavik.
Desde as casas desertas até à igreja - onde passamos demasiado tempo à procura de papéis - passando por vários apontamentos, como a bandeira a meia-haste ou os efeitos de luz, tudo parece ter sido colocado no devido lugar graças a um motivo. O resultado é um local com uma identidade própria, o que não deixa de ser algo irónico se tivermos em consideração a ausência de vida além dos dois forasteiros.
Este cuidado técnico estende-se também à modelagem das personagens, cujas texturas não se caiem por terra nos planos mais apertados. O único ponto menos conseguido no design é que ocasionalmente sente-se um backtracking escusado - como no final, quando regressamos a casa apenas para fazer a mala. Compreendo que seja o “adeus” de Teddy ao local, mas narrativamente ou até emocionalmente não acrescenta nada ao que já tínhamos sentido e visto.
Outro dos pontos onde Draugen não desilude é na sonoplastia. Não só a banda sonora é oportuna a empolgar as cenas mais sensíveis, como a vocalização das personagens é bastante conseguida. O tom jocoso está presente, tal como a agressividade e a desilusão em fases mais avançadas. Quando o argumento lhe diz para ser cruel, Alice consegue captar a atenção toda do jogador - mais do que com o que diz, mas sobretudo como o diz.
Na sua essência, Draugen podia ter feito bastante mais para deixar o jogador de rastos no final, ou pelo menos com a sensação de que sabia o que verdadeiramente aconteceu às pessoas de Graavik. Claramente orquestrado de forma a receber uma sequela ou pelo menos DLC, a obra fica na memória pelo excelente ambiente e pela dinâmica entre as duas personagens, uma dinâmica que tem muito mais camadas do que inicialmente é aparente.