Com o crescimento das redes sociais e do YouTube como ferramentas de partilha e marketing, as histórias de Cinderela na indústria dos videojogos são cada vez mais raras. Poucas são as obras de qualidade que chegam ao mercado sem que uma parte importante da comunidade de jogadores ou da imprensa não esteja já ciente da sua existência. Mesmo assim, por vezes acontece e jogos que estavam bem longe das luzes da ribalta surgem para roubar todas as atenções, surpreendendo quem os experiencia de uma forma que raramente acontece nos dias hoje, tal é a abundância de imagens e vídeos disponibilizados antes do lançamento.
Emily is Away é um desses casos raros, um jogo que apanhou todos desprevenidos e que saltou para a ribalta através de YouTubers e Streamers. Um pequeno título gratuito com duração inferior a uma hora que capturou o imaginário dos jogadores e envolveu-os numa autêntica cápsula de nostalgia de tempos passados em frente ao computador em salas de chat a falar com amigos e com aquela pessoa especial com a qual era bem mais difícil falar cara-a-cara.
A sequela, de nome Emily is Away Too, é um esforço para expandir a experiência da obra original, respondendo aos pedidos dos jogadores que queriam algo mais substancial em termos de duração e uma maior diversidade de conclusões para a aventura. Infelizmente, esta maior ambição coloca em evidência as suas fraquezas. Sim, a experiência está mais longa e sim, existem finais diferentes, mas isso não significa necessariamente que a sequela seja melhor que o antecessor, pois tal não é o caso.
Dito isto, tal como o primeiro jogo, Emily is Away Too é uma obra que será tanto melhor quanto menos souberem sobre a mesma. Por isso mesmo, se estão interessados no título, então aconselho-vos a pararem de ler esta análise e a voltarem após o terminarem. Apesar dos seus defeitos, recomendo que joguem a sequela, uma vez que esta faz mais do que suficiente para justificar o seu baixo preço de admissão. Não existirão spoilers significativos neste texto, mas terei de falar sobre momentos específicos para exemplificar os seus problemas.
Mais uma vez, Kyle Seeley criou uma experiência em que a nostalgia é a principal mecânica. Mais do que as escolhas de diálogo, são os momentos em que o jogo nos transporta para o nosso próprio passado que fazem dele algo diferente e especial de tudo o resto no mercado. O título sabe como recriar as diferentes experiências de diferentes jogadores e enquadrá-las numa única história, numa única aventura que consiste apenas em conversas online com amigos e interesses amorosos, algo que todos nós fizemos a dada altura da vida, mesmo que com interfaces distintos.
Um dos principais méritos de Emily is Away Too é a forma como utiliza essas mecânicas para nos manter ligados a uma experiência que, no final de contas, é extremamente simples. Os efeitos sonoros clássicos do Windows, o processo de instalação falsa que marca o seu início, a possibilidade de definir nome, alcunha, ícone de chat - Nickelback, The Fray, Juno, That 70’s Show, The Elder Scrolls IV: Oblivion, Sims 2, Scrubs, The Wire e Taking Back Sunday são algumas das opções -, mudar a cor de fundo e a cor da letra, bem como definir através de diferentes escolhas o vosso texto de perfil, são elementos que pouco ou nada influenciam a narrativa, mas que são absolutamente indispensáveis para capitalizar na nostalgia de quem o joga.
Dividido em diferentes capítulos que retratam vários momentos da vida de um estudante do último ano do secundário e que tem lugar entre 2006 e 2007, Emily is Away Too diferencia-se do seu irmão mais velho ao introduzir duas personagens com as quais podem conversar, muitas vezes em simultâneo. Emily e Evelyn, duas amigas do protagonista com gostos e personalidades distintos, assim como os seus próprios problemas relativamente a temas do coração, o futuro, os estudos, amizades, etc. Será uma narrativa algo familiar para aqueles que jogaram o título original, mas a verdade é que volta a ser executada com mestria através de diálogos e interações credíveis entre as personagens.
As conversas sobre absolutamente nada, o drama juvenil tradicional, o sarcasmo e a ironia sempre indispensáveis, está tudo aqui e resulta de forma notável, elevando a experiência a um patamar superior de qualidade. Entre as novidades está também a introdução de hiperligações para o YouToob e Facenook - versões fictícias de YouTube e Facebook com estética inspirada na sua aparência original - com o jogo a fazer uso de muita música licenciada através deste método e a revelar mais informações sobre as duas raparigas através das suas páginas na rede social. São mais pormenores a adensar a nostalgia, mas podiam ter sido utilizadas de forma mais frequente e diversificada.
Falemos então agora do que não resulta. Os finais alternativos oferecem mais possibilidades e personalizam um pouco a experiência, mas são algo abruptos e, mais desapontante do que isso, estão muito longe de ter o impacto conseguido pelo primeiro título. Também não ajuda que os diferentes percursos sejam demasiado semelhantes e quebrem um pouco a magia da vossa primeira aventura pela obra. Querem um conselho? Não o joguem mais que uma vez, não vale a pena e isso apenas servirá para deixar um sabor amargo na vossa boca.
No terceiro capítulo existe um segmento que envolve duas conversas em simultâneo com limites de tempo que tem como objetivo forçar-vos a optar pela conversa que mais vos interessa, uma vez que é praticamente impossível manter as duas em movimento sem negligenciar uma delas ou até mesmo ambas. Percebe-se o porquê de existir, isto é, existe para vos forçar a decidir e a seguir um rumo em direção aos diferentes finais, mas o que é certo é que acaba por estragar momentaneamente o melhor que o título tem para oferecer, transformando demasiado a experiência num jogo propriamente dito.
Emily is Away Too é uma sequela que expande o conceito do seu antecessor e que volta a entregar uma experiência rica em valor nostálgico que nos faz regressar a um outro período da nossa vida com sucesso. A magia que tornou Emily is Away tão especial continua bem presente, mesmo que por vezes demasiado familiar, mas é inegável que as conclusões estão longe de ter o mesmo impacto que os últimos minutos do título original. Ainda assim, Emily is Away Too é uma obra de recomendação fácil a um preço acessível que pode ser concluída numa única sessão de jogo.