Tal como quase tudo na vida, existem dois lados para cada história, diferentes perspectivas que nos permitem encarar e analisar diferentes cenários e situações de formas distintas. O que para uns poderá ser um ato egoísta e impossível de ser justificado ou perdoado, para outros poderá ser um olhar para o seu próprio reflexo no espelho e perceber que, numa mesma situação, provavelmente tomariam a mesma decisão. Sem a informação toda é impossível chegar a uma conclusão fundamentada, mas mesmo aí, diferentes experiências de vida, opiniões e personalidades retirarão algo diferente do mesmo grupo de factos.
Fallen Legion tenta pegar neste conceito e contar-nos a história de um império prestes a colapsar e de uma rebelião que ameaça ser a estocada final na sua instabilidade, mas os resultados não são os melhores. Na PlayStation 4, Sins of the Empire segue a história de um reino a enfrentar a ira e a revolta de seu povo pela perspetiva de Cecille, a princesa e líder do exército que após a morte do seu pai é forçada a abandonar o seu posto e assumir o papel de Imperatriz. Na PlayStation Vita, Flames of Rebellion acompanha Legatus, o líder dos rebeldes que após ter lutado lado a lado com Cecille no exército, tenta agora travar a sua ascensão ao trono.
Como é óbvio, os dois lados encaram o outro como os vilões da sua história, mas não é preciso muito para se perceber que existem méritos em cada um deles. Por um lado, Cecille é forçada a assumir um papel que nunca quis e a obedecer às ordens de um misterioso livro falante, enquanto do outro lado temos Legatus, um jovem que viu a sua nação anexada e dizimada pelo império ao qual agora pertence e que vê no livro conhecido como Grimoire a destruição do reino e de todos aqueles que nele coabitam. Nenhum deles está na posse de toda a informação e, por isso mesmo, nenhum deles está totalmente correto.
Com ambos a fazerem o seu caminho até a capital, a história de Fallen Legion cria um universo bastante rico e interessante, recheado de batalhas de poder político e influências, a sua própria mitologia e inúmeras facções com opiniões distintas em relação a diferentes temáticas. Infelizmente, relega muita dessa informação para paredes de texto disponíveis nos menus, o que significa que dificilmente conseguirão perceber todas as nuances das decisões que terão de fazer no jogo até ser demasiado tarde.
Entre batalhas, o título coloca-nos diferentes questões e pede-nos que tomemos uma decisão consoante o problema apresentado. Um guarda de um dos reinos do império foi apanhado a maltratar um cidadão? Executem-no, recrutem-no ou enviem-no para a prisão. Uma das princesas de outro reino está a tentar subir os impostos? Apoiem, ignorem ou rejeitem a proposta. Tomem as decisões que acharem necessárias sabendo que estas terão influência na moral do império - no caso de Cecille -, nas relações com as diferentes facções e na economia.
Após estarem minimamente familiarizados com as propostas e objetivos de cada um dos vários elementos que compõem o império, este sistema de decisões torna-se cativante, mas até lá tomarão muitas decisões com base apenas em morais e pouco mais. Estas escolhas não estão, contudo, apenas ligadas à narrativa, uma vez que cada uma das opções traz benefícios imediatos às batalhas seguintes, ou seja, podem tomar decisões tendo como base o seu impacto no império ou o seu impacto nas batalhas. É um sistema interessante que tem resultados práticos, em qualquer um dos casos, facilmente visíveis, sendo por isso uma pena que o foco da narrativa propriamente dita se fique pelas personagens e não se concentre mais no mundo que as rodeia.
Sins of the Empire destaca-se sobretudo pelas interações não raramente recheadas de sarcasmo e ironia entre Cecille e Grimoire, enquanto que Flames of Rebellion prima por algumas reviravoltas que introduz ao longo da aventura, ainda assim, nenhuma delas é suficientemente interessante para captar verdadeiramente a nossa atenção. Fallen Legion conta uma história que está longe de ser inovadora neste género e meio de entretenimento e apesar do seu robusto sistema de decisões, nota-se que o arco narrativo propriamente dito não tem a mesma qualidade ou capacidade para nos surpreender. Não é má, simplesmente existe.
No que diz respeito ao combate, Fallen Legion é um RPG de ação com combate em tempo real bastante simplista que tem aí o seu principal problema. Atribuindo uma botão de ataque a cada um dos três membros da party, o jogador terá de premir diferentes botões de rosto para que cada uma das personagens realize os seus ataques. Existe um período de cooldown para evitar que exagerem no martelar de botões e para pensarem antes de agir, mas isso não impede que a maioria das batalhas se transforme num pressionar desenfreado dos botões de ataque.
Na verdade, o único elemento que introduz uma pitada de estratégia ao combate é o bloquear de ataque inimigos, uma vez que, para além de reduzir os danos feitos aos Exemplars - guerreiros criados a partir da imaginação de Cecille e Legatus e do poder de Grimoire -, um bloqueio feito no momento certo permite criar um efeito ricochete que vira, literalmente, o feitiço contra o feiticeiro. No fundo, as batalhas passam quase sempre por entregar o maior dano possível e tentar bloquear ataques com frequência de forma a que a barra de mana de Cecille ou Legatus fique totalmente preenchida para poderem restaurar a saúde ou ressuscitar os Exemplars e até para desferir ataques mágicos poderosos.
À medida que vão progredindo na campanha existirão bosses para serem derrotados e novos Exemplars vão sendo desbloqueados, permitindo que possam personalizar a vossa party consoante o estilo que pretendam adoptar. Isto é, podem optar por Exemplars que atacam de perto os inimigos ou que tenham ataques de longo alcance. Caso achem necessário, podem igualmente alternar o posicionamento no campo de batalha dos membros da party, expondo-os mais, ou menos, aos ataques inimigos. Tal como praticamente todos os elementos do jogo, o combate de Fallen Legion é competente, mas não é bom o suficiente para evitar a monotonia e a queda num ciclo de repetição.
Visualmente, Fallen Legion é um jogo bastante bonito, fazendo uso de uma perspetiva 2.5D que dá um maior realce à animação das personagens no ecrã. Sendo mais uma das muitas obras com um estilo visual desenhado à mão que têm chegado recentemente ao mercado, o título da Yummy Yummy Tummy Games destaca-se pela diversidade dos seus cenários e pela vivacidade das cores que os pintam e lhes dão vida. É, essencialmente, um grafismo que se adapta à forma como nos apresenta a sua narrativa, ou seja, bem ao estilo de uma visual novel. A banda sonora serve mais como acompanhamento à ação do que outra coisa, já que raramente assume um papel de destaque na experiência. Importa ainda mencionar que a framerate soluça alguma vezes na PlayStation Vita e que os ecrãs de carregamento são bem mais longos do que na PlayStation 4, mas nada de muito preocupante.
Fallen Legion tinha todos os condimentos para ser uma obra de melhor qualidade, mas a execução deixa a desejar em vários departamentos. O combate, embora competente e satisfatório, torna-se cansativo após longas sessões de jogo, enquanto a história envolve um sistema de decisões bastante interessante, mas o seu arco narrativo nunca consegue corresponder, preferindo adotar uma abordagem simplista aos eventos que retrata. Fallen Legion é um bom jogo que podia ser melhor se as suas ideias tivessem sido melhor executados e aproveitadas.