Forgotton Anne vai mudando conforme o tempo que o jogador lhe vai dedicando. Não se prolongando muito, ou seja, não querendo esticar a sua longevidade apenas para atingir um determinado número de horas, a produtora Throughline Games consegue dar aos jogadores o que é necessário para que estes continuem investidos na sua obra. Não revoluciona a jogabilidade, mas é uma obra que merece a vossa atenção.

Como poderão ler durante este texto, as grandes apostas e conquistas do jogo estão relacionadas com a qualidade da escrita e no seu aspecto gráfico. Forgotton Anne tem em Anne a sua jovem protagonista. Guiada pela figura de Bonku, é ela que terá que executar a sua vontade, as suas ordens por este mundo. E intrínseco ao arco narrativo e à jogabilidade está um objecto especial descrito como Arca.


A Arca é usada por Anne no seu pulso, permitindo à heroína recolher Anima de criaturas e, sobretudo, de alguns objetos que estão espalhados pelo cenário. Com a Arca carregada, é permitido a Anne manipular certas partes dos cenários, o que obviamente coloca na equação de Forgotton Anne os puzzles. O videojogo, todavia, consegue lidar com esta transição sem grandes solavancos para o jogador.

Há, contudo, outros elementos da jogabilidade que tentam evitar que a estagnação chegue precocemente. Assim, na prática, Forgotton Anne é também um jogo de plataformas. Só que não esperem uma exigência assinalável em qualquer desses pontos, até porque não demora muito até que a massa cinzenta perceba a lógica dos enigmas - que passam sobretudo pelo uso da Arca para manipular manivelas e interruptores, pela abertura de portas e pelo alinhar de plataformas. A complicação chega praticamente apenas quando os puzzles são cronometrados.


No departamento das plataformas, a linha de pensamento é a mesma, ou seja, não há grande dificuldade. Anne pode caminhar, correr, saltar e saltar mais longe se tiver as suas asas abertas. Na prática, é uma jogabilidade que facilmente se compreende, mas que nunca chega a oferecer algo que pode ser considerado uma verdadeiramente novidade. Não estraga a experiência por ser romba, mas também não é por isto que o jogo ficará na memória de quem o experimenta.

Essas memórias são feitas do que a narrativa vale. Inicialmente até se pode ficar com a sensação que estamos a embarcar em mais uma aventura básica de um grupo de rebeldes que se insurge contra Bonku. Contudo, com o passar das horas, a investigação e a liderança de Anne no terreno tomam conta da trama, levando-nos à descoberta de como tudo isto afeta aquelas personagens e, obviamente não menos importante, leva-nos à descoberta de quem é afinal Anne.


É assim que a obra vai crescendo, com as personagens a tornarem-se cada vez mais memoráveis, mostrando a sua profundidade na hora de desnivelar personalidades. O dramatismo assente na excelente escrita, a forma como as decisões podem influenciar o decorrer dos eventos, os puzzles e as plataformas a ocuparem o seu verdadeiro lugar de suporte enquanto o melhor do jogo chega finalmente à superfície.

Forgotton Anne resulta também pela sua homogenia, valência que está presente também entre a história e o grafismo. Não esperem algo fotorrealista, com o Unity Engine a ser aproveitado pela Throughline Games para levar os jogadores até ao mundo da animação. Não, não precisam de terem olhos treinados pelo anime para perceberem rapidamente o quão bons os gráficos e as animações são.


Este cuidado está vincado nas cenas de vídeo, porém, como a ação decorre num mundo de duas dimensões falsas, os talentos da produtora brilham na forma como essa profundidade é alcançada e, sobretudo, na envolvência que este estilo visual nipónico permite quando executado de uma forma tão genial. Na prática, Forgotten Anne não só parece saído de um filme, como faz o jogador sentir-se parte integrante daquele mundo.

O estudo ao serviço da apresentação está também bem visível na cadência com que os cenários vão mudando de tom e de conteúdo. Ou seja, nunca é um fardo estar a jogar e a explorar todos os recantos dos cenários presentes na obra. Forgotten Anne é exímio em fazer o jogador sentir-se bem, sentir-se investido.


Não é o jogo com melhores efeitos, mas o carisma e a diferenciação estão na forma como as personagens e os cenários se vão mutando. É uma homogenia tão prolongada que não pode ser sorte, mas sim o resultado de um labor de certa forma artesanal. A maneira como é conseguido o encaixe entre o lado técnico e a jogabilidade elevam o cômputo geral de Forgotten Anne.

O outro campo técnico, a sonoplastia, não está à altura do incrível que é conseguido com o grafismo, mas isso não quer dizer que seja mau, porque não é o caso. A vocalização é sólida, contando com alguns apontamentos interessantes. Entre a vocalização e o grafismo fica a banda sonora, com uma orquestração a complementar bastante bem o visual.


Forgotton Anne consegue o feito de não ser mais do mesmo, ou seja, ainda que não revolucione o género de puzzles e plataformas com os engenhos da sua jogabilidade, a arte gráfica, a qualidade da escrita e até a banda sonora fazem com que se eleve acima de muitos outros. E no final, as memórias estão aqui à espera de serem feitas pelos jogadores.

Forgotton Anne tem uma jogabilidade cordial, mas é um jogo levado aos ombros pelo seu incrível grafismo animado, por uma escrita colocada ao serviço de uma grande história e por uma orquestra que sublinha o resto.
8em 10
8em 10