Descrever o trajeto de Hitman até ao seu lançamento é falar de uma narrativa repleta de curvas e contracurvas que deixaram muitos jogadores cautelosos relativamente à qualidade do produto final. De formato episódico para um modelo mais tradicional e novamente para o formato episódico, a aparente indecisão da Square Enix resultou numa confusa campanha de promoção do título que teve um impacto claramente negativo na perceção da obra por parte do público mais atento.
Felizmente, se o primeiro capítulo é indicador daquilo que ainda está para vir, então Hitman poderá muito bem vir a transformar-se na melhor entrada da já longa série da produtora, bem como uma das mais interessantes obras de ação furtiva alguma vez lançadas no mercado. Contudo, é difícil tirar conclusões concretas sobre a qualidade da experiência enquanto uma unidade coesa quando ainda só uma das sete localizações que serão disponibilizadas até ao final do verão se encontra disponível.
Então, significa isto que as próximas linhas vão versar-se sobre o conteúdo lançado até ao momento, ou seja, o prólogo e o capítulo The Showstopper, o assassinato em Paris. Como é óbvio, o prólogo serve como introdução da narrativa, levando-nos até ao momento da entrada do Agent 47 na Agência ICA, e também como tutorial para as mecânicas que servem de base à jogabilidade do título, servindo como uma fase de treino e preparação para as mais exigentes missões que levarão o protagonista a vários pontos do globo.
Composto simplesmente por duas missões de assassinato, o prólogo faz um excelente trabalho em introduzir lentamente novas mecânicas que serão fulcrais quando utilizadas em conjunto nos capítulos futuros. Se a primeira missão nos coloca num cenário de dimensões reduzidas e densamente habitado por civis, a segunda aumenta substancialmente as dimensões da área jogável e substitui os civis por guardas em patrulha cuidadosamente colocados para forçar o jogador a pensar antes de agir.
Tal como é apanágio desta série, cada missão é um nível com várias abordagens possíveis, cabendo ao jogador dedicar o tempo necessário à exploração de cada área para descobrir todas as possibilidades à sua disposição e atingir os objetivos. Aliás, o melhor elogio que posso fazer a Hitman é o facto de que repetir missões não se apresenta como uma obrigação, mas sim um novo desafio às nossas habilidades e uma fonte adicional de diversão. Sim, porque não existe nada mais satisfatório do que um assassinato bastante elaborado e realizado sem qualquer percalço.
Este incentivo à repetição da mesma missão vezes sem conta é facilitado pela existência de cada nível possuir vários desafios que nos obrigam a realizar ações diferentes para obter os mesmos desfechos e dessa forma dominar por completo um nível, desafios esses que podem passar por realizar determinados assassinatos, obter determinados disfarces, não ser detetado, entre outros. O momento em que me rendi a Hitman foi precisamente quando percebi que tinha descoberto tudo o que havia para descobrir no "Teste Final" do prólogo e que independentemente dos requisitos que o título colocasse pela minha frente, eu seria capaz de concluir a missão sem quaisquer problemas.
Numa fase inicial, a transição das missões do prólogo para a missão de Paris é um pouco esmagadora, não só pelo número quase ilimitado de métodos através dos quais podem conseguir eliminar os vossos alvos, mas também pelas dimensões gigantescas do nível em questão. Conseguir dominar por completo esta missão é uma tarefa apenas ao alcance dos jogadores mais dedicados, podendo perfeitamente levar dezenas de horas até terem realizado todos os desafios disponíveis, alguns dos quais podem ser perdidos pelo mais pequeno erro após meia hora de progresso.
Se existe algo pelo qual a IO Interactive merece ser enaltecida é pela sua excelência no design dos níveis, especialmente tendo em conta as dimensões da área jogável e o número de abordagens diferentes possíveis. O comportamento da inteligência artificial é credível e consistente, evitando assim as situações habituais em que o jogador se sente injustiçado, enquanto as várias áreas dos níveis oferecem sempre um vasto leque de opções ao jogador.
Quer estejam ou não familiarizados com os títulos desta série, as mecânicas de jogabilidade de Hitman mantêm-se praticamente inalteradas relativamente à entrada mais recente e são de fácil aprendizagem para qualquer jogador. Obter disfarces a partir de civis no cenário para ganhar acesso a áreas interditas, esconder o corpo de inimigos inconscientes em contentores ou armários, utilizar distrações para atrair inimigos e usar uma enormidade de táticas possíveis para assassinar os alvos serão as tarefas que realizarão durante o vosso tempo com o jogo, sendo que apesar da aparente repetição de processos, o título nunca se torna aborrecido.
No que diz respeito a novidades, Hitman coloca agora maior ênfase nas conversas das personagens não jogáveis que se encontram espalhadas pelos níveis. Para além de oferecerem mais detalhes sobre os nossos alvos, estas personagens revelam novas oportunidades para realizarem assassinatos mais espetaculares e trabalhados que vos permitirão passar completamente despercebidos pelo ambiente. Também os disfarces estão agora mais funcionais, uma vez que o jogo nos informa sobre os inimigos que são capazes de nos reconhecer mesmo quando disfarçados, algo que não sucedia em Absolution e causava vários momentos de frustração.
Regressados de Hitman: Absolution estão os Contratos, missões criadas pelos jogadores e que estão agora mais fáceis do que nunca de criar. Como explicado pelo tutorial, o jogador pode marcar um alvo aleatório num nível, eliminando-o através de um método específico, e depois desafiar outros jogador a tentarem realizar o mesmo assassinato com o maior sucesso possível. No entanto, a grande novidade são os Contratos de Agravamento, missões de cinco níveis com o mesmo assassinato, mas com cada vez mais objetivos e requisitos em que o fracasso se traduz em terem de repetir a missão toda de novo desde o primeiro nível, fornecendo momento de enorme tensão.
Se a jogabilidade é a nata da experiência e o elemento em que esta brilha mais alto, o departamento técnico de Hitman deixa bastante a desejar, tomando decisões que são difíceis de compreender. O grafismo é bastante sólido, os ambientes são ricos e interessantes e a banda sonora ajuda a transportar-nos para o local da missão, mas os constantes soluços da framerate que ocorrem com uma frequência que pode perfeitamente levar a dissabores nos momentos críticos da missão. Adicionalmente, durante as minhas cerca de 12 horas com o título, Hitman crashou por duas vezes na minha PlayStation 4 e sofri também situações em que a fase seguinte da oportunidade que estava a trabalhar não desbloqueou e fui forçado a ter de mudar por completo a estratégia a meio da missão, o que nunca é aconselhável.
Como se isso não fosse suficiente, a necessidade incompreensível de estar online para ter acesso aos desafios das missões principais, juntamente com a constante quebra de ligação aos servidores se passarem demasiado tempo no menu de pausa - que vos levará imediatamente para o menu principal, sendo perdido todo o vosso progresso -, tornam a experiência bastante mais penosa do que aquilo que deveria ser. Também os ecrãs de carregamento são bastante mais longos do que seria desejável numa obra em que o mais pequeno erro pode forçar-nos a ter de recomeçar novamente a missão.
Desta forma, o primeiro capítulo de Hitman é um aperitivo bastante agradável e que nos deixa otimistas relativamente aquilo que ainda está para vir. A jogabilidade de ação furtiva é divertida, satisfatória e diversificada, fornecendo dezenas de horas de conteúdo a partir de umas míseras três missões principais. Dito isto, os problemas técnicos que assolaram a minha experiência com o título impedem-me de o definir como algo absolutamente essencial, pelo menos por enquanto, mas quando tudo funciona na perfeição, o título da IO Interactive é uma obra fenomenal.