Esta obra nascida no Kickstarter quer celebrar os jogadores, evocando a sensação de estarmos a passear por paisagens que remontam a clássicos como The Legend of Zelda, de sermos livres para escolher o nosso caminho e contar com combate que requer o domínio das suas mecânicas. Porém, o título da Heart Machine falha em comunicar com a sua audiência o que pretende, deixando as ações que devem ser tomadas e a narrativa de Hyper Light Drifter no limbo da ambiguidade.
Hyper Light Drifter é difícil, mas não de forma justa. Há um processo de aprendizagem que deve ser absorvido sempre que tombamos, mas ficamos desamparados e perdidos por não saber onde ir ou o que fazer. Avançar na aventura deste título é como apalpar as redondezas no escuro, não se sabe para onde se vai, mas com cada vez mais pequenos progressos, um sentido começa a formar-se na nossa mente. As nuvens da incerteza dissipam-se e o quadro geral do jogo revela-se. Não é claro e específico, mas ambíguo e livre à interpretação.
A dificuldade em perceber o que o jogo nos quer comunicar passa logo pelas sequências de vídeo, seguindo-se com uma linguagem abstrata baseada em símbolos - como os hieróglifos que adornam ruínas egípcias - e por sonos emitidos de quem fala com a personagem que não se percebem de todo. Aparentemente, somos um aventureiro munido de um sabre, uma pistola e a habilidade de se mover rapidamente em pequenos impulsos. Sabemos que o protagonista está doente, a tossir sangue em abundância em excertos que não podemos controlar.
Todavia, ao longo da sua jornada nunca lhe faltarão forças para combater e explorar os arredores da vila para a qual somos levados. Esta região tem indícios de ter sido habitada por uma civilização com acesso a tecnologia avançada, assim como a presença de robôs enormes inspirados na grande obra de Hayao Miyazaki "Nausicaä of the Valley of the Wind". Existe mistério por todo o jogo. Aliás, toda a obra acaba por ser um mistério por não nos ser entregue o mínimo de informação para darmos um sentido às nossas conclusões.
O combate pode ser rápido, calculado e preciso. O repertório de inimigos que aparecem pela nossa exploração é vasto, obrigando-nos a dominar os nossos três utensílios de progressão: o sabre, a pistola e o impulso de movimento momentâneo. Desferir combos requer destreza na movimentação pelo espaço disponível, ataques concisos e paciência para aguardar a abertura do inimigo. Assumir que o título se comporta como um hack'n'slash vai deitar-vos literalmente essa abordagem por terra, com sucessivos ecrãs de game over.
Aprendam bem o que vos é dado para avançar e serão recompensados com um combate que satisfaz a cada golpe. No entanto, aventurem-se onde não devem e serão castigados sem misericórdia por não terem o equipamento adequado, ou não melhorado, para ultrapassar um bossque coloca um sinal de sentido proibido no vosso caminho. E é aqui que a frustração pode começar a denunciar-se.
Hyper Light Drifter vai exigir muita paciência a quem o joga. Quando aparece uma dificuldade, das duas uma: ou não foram habilidosos o suficiente ou falta-vos algo. Como o jogo não passa a mensagem ao jogador de forma clara, será muito comum terem que regressar à origem e tomar uma nova rota. É um processo que vai provavelmente levar à desistência dos jogadores, ou colocar uma pausa durante um tempo indefinido até que uma solução seja partilhada por alguém mais astuto.
A música de Rich Veerland, mais conhecido pelo seu cognome Disasterpeace, continua a entregar Bandas Sonoras geniais em obras deste meio. Numa terra onde tudo é uma incógnita, as melodias produzidas por Veerland acrescentam misticidade ao título, espelha a ação quando lhe é pedido e situações diversas que vamos encontrando, sempre com requinte. Não só a música, mas também os efeitos sonoros estão no ponto. As batalhas são elevadas de tal forma pela sonoridade, que cada golpe, seja desferido pela lâmina do sabre azul ou pelas balas da pistola, é sentido intensamente.
Uma qualidade que ninguém pode retirar a Hyper Light Drifter é a sua direção artística, reproduzida com recurso ao pixel art. Não via algo de tão belo desde FEZ, obra produzida pela canadiana Polytron. Podemos estar perdidos durante a maior parte do jogo, contudo, descobrir as paisagens cuidadosamente desenhadas é uma experiência única. Há ruínas de uma civilização desconhecida, gigantes de metal destruídos e desgastados pelo tempo que nos colocam em perspetiva e nos reduzem à insignificância quando dominavam o mundo que já não lhes pertence. A palete de cores garridas funciona, sem nunca assaltar a visão de quem admira o jogo ou infligir cansaço com consequência.
A Heart Machine colocou a sua obra sobre os ombros da ambiguidade, um risco que pode levar ao descontentamento do público que não se satisfaz apenas com um sistema de combate exímio. A produtora que recorreu ao Kickstarter quis tanto inspirar-se em obras dos anos oitenta, que se esqueceu de lhe dar um toque de modernidade no seu design e de um conjunto mínimo de elementos para que não confundam o jogador. É indiscutivelmente belo e descobrir cada um dos seus pixéis é uma agradável surpresa.