Julgo não ser nenhuma hipérbole considerar que os nomes Metal Gear e Hideo Kojima eram indissociáveis. Os fãs da série acreditavam que tal união seria duradoura, algo que se sabe agora não ser verdade. Kojima saiu da Konami e dedica-se neste momento a Death Stranding. A editora resolveu continuar a usar um dos títulos mais consagrados da indústria e publicar Metal Gear Survive sem o envolvimento do carismático criador.
O resultado é um jogo de sobrevivência, um jogo em que o jogador tem que fazer cálculos para não sucumbir perante o progressivamente mais exigente cenário que o rodeia. Não é o desastre categórico que muitos esperavam, mas também fica longe de ombrear com as entradas mais consagradas da saga. Survive é um jogo com falhas, mas é também uma obra com vários momentos de tensão palpável e com um sistema de crafting que de light tem pouco.
Mas comecemos esta dissecação pelo arco narrativo, a componente do jogo que está lá para pouco mais do que uma mera justificação das nossas ações durante as dezenas de horas que se seguirão. Com os acontecimentos colocados entre Ground Zeroes e The Phantom Pain, Survive coloca-nos na pele de um soldado que, durante um ataque à Mother Base, salva a vida a Big Boss.
Pouco tempo depois, contudo, parte da Mother Base é sugada por um Wormhole. A lógica sai de cena e a personagem criada por nós é aparentemente morta. Como ainda é demasiado cedo para os créditos finais rolarem pelo ecrã, a Wardenclyffe Section dá-nos uma segunda oportunidade de viver com uma condição: passar pelo Wormhole, encontrar Charon Corps e regressar com a informação recolhida.
Sem grande surpresa, esta missão não demora muito a demonstrar variadas complicações. Importa mencionar que a vida no mundo alternativo, Dite, não é nada fácil. As condições são paupérrimas e uma espécie de “zombies” conhecida como Wanderer não nos deixará em paz. E é aqui que começa a entrar em cena a parte Survive deste Metal Gear.
Quem está habituado aos arcos narrativos da série, sabe certamente que há alguns momentos “excêntricos”. Contudo, o problema de Survive é que sente-se perfeitamente que o argumento existe apenas como uma desculpa para conduzir o jogador por aquele mundo, não tendo força nem persistência para se manter relevante com o acumular das horas. Depois de estar investido nas mecânicas de sobrevivência, não me lembro de querer saber mais sobre aquelas personagens ou sobre aqueles acontecimentos. E isso é um claro sintoma que a narrativa tornou-se descartável há algum tempo.
O arranque é lento, bastante lento. Enveredando por uma miríade de tutoriais e missões com o mesmo sabor, Survive demora algum tempo até demonstrar aquilo de que realmente é capaz. Na sua essência, o jogador estará sempre atento à forma de, bem, sobreviver. E no cerne desta mecânica está a fome, a sede e, obviamente, a saúde. Por si só, é uma atenção desgastante, especialmente se tivermos em conta que a fome e a sede do nosso soldado não se esgotam a passo de caracol.
São lições que se aprendem de forma rápida. Graças a uma gestão de itens que não abundam, não foram poucas as vezes em que a minha personagem ficou doente e passou uma boa parte da missão a fazer pausas na exploração para vomitar. Survive faz questão de fazer o jogador aprender na primeira pessoa, com algo tão básico como a ingestão de água suja e de carne crua.
Isto para nos mostrar que é preciso explorar as redondezas para encontrar materiais e assim poder construir uma base onde a vida começa a ser menos penosa. É a parte mais lógica do jogo: uma fogueira para cozinhar a carne que vamos caçando ou a possibilidade de ferver a água imprópria para consumo.
E isto é posteriormente aplicável a “luxos” como o crafting de dispositivos ou melhorias para o nosso arsenal. Este sistema de crafting é sem grande surpresa uma parte crucial da obra, tal como são as excursões à procura de recursos ou a resgatar outras personagens a mando de ordens superiores. E tudo está integrado com os já mencionado medidores de fome e de sede.
Neste aspeto, Metal Gear Survive acaba por ser desgastante. Não só porque serão vários os momentos de desespero à procura de algo para evitar que o nosso soldado desfaleça, como há vários encontros com Wanderers e um cenário hostil - certas zonas obrigam mesmo ao uso de máscaras, ou seja, é mais um medidor a ter em atenção, neste caso o de oxigénio.
E esses mesmos Wanderers não se ensaiam para invadir o que é nosso, o que nos leva a criar barreiras com vários dos materiais que temos para travar as hordas invasoras, secções que fazem lembrar um pouco os títulos Tower Defense. Tudo isto eleva Survive a uma proposta exigente, sim, mas que foge muito - muito mesmo - do cânone Metal Gear. Ou seja, é muito mais Survive do que Metal Gear.
Há que preparar as invasões recorrendo ao aspecto de sobrevivência, ou seja, assegurando, antes da ativação do Transporter, que temos o que é preciso para colocar sacos de areia, arame farpado, vedações, tudo o que conseguirmos para que os minutos seguintes não seja desoladores. Isto, além de verificarmos se temos um arsenal condigno, com Survive a permitir criar cocktails molotov, setas para um arco que é muito mais útil do que pode parecer na teoria, e balas, por exemplo. Agora, façam isto tudo enquanto mantêm os olhos nos itens para sanar a sede, a fome e os ferimentos que podem ser provocados nos momentos mais quentes das batalhas.
São batalhas que resultam porque oferecem tensão, mas também porque quando é alcançada a vitória, essa é algo que saiu da nossa capacidade de organização e da nossa habilidade de luta. Ou seja, acaba em última instância de análise por serem confrontos recompensadores em vários patamares. Quando corre mal, é mais trabalho deitado pelo cano abaixo, o que atiça a frustração a duplicar. São as cartas do jogo e, acreditem, são também lições de gestão que se aprendem rapidamente.
Por muito arcaicos que alguns sistemas sejam, por muito enfadonhas que as primeiras horas sejam, quando Survive deixa o jogador em paz a fazer a sua gestão de recursos, quando nos deixa sozinhos a pensar todas as melhorias possíveis - podem crer que a minha base tem uma horta - e quando nos deixa respirar por entre o olhar atento aos medidores omnipresentes, a sua essência, ainda que possa não ser Metal Gear, não é um conceito desastroso.
Durante as minhas incontáveis sessões de jogo com a obra, tive também oportunidade de experimentar a sua componente multijogador online. Importa mencionar que estamos perante uma proposta cooperativa e que os itens e equipamento são partilhados entre os dois componentes do jogo. Além de não ter notado quaisquer problemas de latência, é interessante perceber que graças à divisão das tarefas por vários jogadores, esta participação em missões de sobrevivência baseadas em hordas é também uma forma mais fácil de arranjar recursos.
Curiosamente, depois de ter passado a primeira grande reta de Survive a solo num mundo desolador, encontrar e interagir com outros jogadores de carne e osso foi satisfatoriamente refrescante. Por esclarecer fica se o jogo terá público suficiente para manter este componente ativo durante os próximos tempos, mas para já não tive grandes problemas em encontrar outros jogadores.
Tecnicamente, Metal Gear Survive é competente sem deslumbrar. Os cenários podiam ser mais variados, mas nunca tive grandes problemas notórios com a framerate do jogo, mesmo quando o ecrã estava preenchido com criaturas sedentas da minha existência. O mesmo pode ser escrito sobre o departamento sonoro: é competente sem encantar os tímpanos dos jogadores.
Agora sabemos como é Metal Gear sem Kojima na Konami. Duvido que isto represente o futuro da série se a editora quiser continuar a apostar na sua existência. Para mim, Survive é uma obra quase paralela, um título para se perceber o que funciona e o que falha. Talvez algumas destas mecânicas apareçam num novo jogo da série principal, se tal acontecer. Até lá, ficamos com um jogo que tem falhas inquestionáveis, mas que também tem algumas ideias e situações que valem a pena. Só não o comprem à espera de excelência.