Ainda que haja muito glamour e requinte em certas refeições, o caos na cozinha está amplamente retratado em inúmeros programas televisivos, documentários e até livros. Tal como no título original, Overcooked! 2 faz o jogador sentir isso na pele, misturando o caos com uma dose incrivelmente generosa de diversão.
Começando pelo que provavelmente vão esquecer pouco depois, a obra da Ghost Town Games tem um arco narrativo. Fazendo os mínimos para dar uma desculpa aos jogadores para irem para a cozinha, é um argumento ligeiro, que aposta no caricato e em algumas tiradas humorísticas que vão resultando, ainda que tudo seja bastante ligeiro.
Em Overcooked! 2 somos levados até ao Onion Kingdom. Aqui, há pão zombie - conhecido como “Unbread” que se começou a levantar das suas campas. O rei conta com a nossa ajuda para combater esta ameaça, que sem grande surpresa está esfomeada. Como é podemos ajudar? Cozinhando, obviamente.
E é precisamente no acto de cozinhar que a obra brilha. Podem atacar os desafios a solo, mas é quando experimentados na companhia de outros jogadores - seja localmente ou no multijogador online - que estas mecânicas atingem o seu potencial, pois é com a participação de outros chefs que a tentativa de encontrar ordem neste caos mais diverte.
Isto resulta por dois motivos: primeiro, os desafios são cronometrados, ou seja, há sempre a pressão de estar atento aos ingredientes necessários para a receita seguinte, confeccioná-los e, obviamente, tentar sempre entregar o maior número possível refeições antes do contador chegar ao fim.
Contudo, resulta também porque a curva de aprendizagem faz com que o jogo não se torne cansativo, seja pela receitas propriamente ditas, seja pelas variáveis que vão sendo colocadas na equação - como lavar a louça ou estar atentos a eventuais fogos que possam deflagrar na cozinha. Overcooked! 2 faz um trabalho notável a evoluir de acordo com o ritmo a que o jogador vai assimilando as novidades.
É curioso, mas com o passar do tempo dedicado à obra, alguns desses processos começam a ser automatizados pelo cérebro do jogador, o que poderia ser mau se tudo fosse pensado para fazer quem joga transformar-se num robot, daí a importância da cadência com que as novidades e a exigência propriamente dita. Chega-se a um patamar em que se domina os básicos, mas nunca se sente que temos o jogo todo dominado, o que leva a um caos divertido.
A maioria do meu tempo nas cozinhas de Overcooked! 2 foi passada com o meu irmão ao meu lado. Horas depois de ter começado a obra, por diversas vezes, entre cortar, cozinhar, limpar e preparar os pratos, atirar os ingredientes de um lado para o outro, os cérebros simultaneamente decidiram que era demasiado, levando a um novelo de falências de que nunca mais recuperaram.
Em certos níveis, já com receitas que exigem múltiplos níveis de preparação, a coordenação falha e por diversas vezes o melhor a fazer é mesmo reagrupar, parar de rir, e recomeçar o nível. Não há uma lista de ingredientes e de receitas enorme, mas é suficiente aquando da sua conjugação para não tornar Overcooked! 2 demasiado repetitivo precocemente.
Jogado de forma solitária - podem trocar entre chefs com um botão -, ainda que existam momentos em que somos incapazes de dar conta do recado, nota-se claramente a ausência de alguém com quem rir dos nossos erros - sinceramente, ocasionalmente senti-me tão assoberbado que a solução foi pousar o comando enquanto me limitava a rir, o que consequentemente levava o meu colega de ocasião a rir. Isto com Overcooked! 2 partilhado por duas pessoas, metade do limite que é permitido. Com quatro pessoas, acreditem que há muitos, mas mesmo muitos, esgares - sejam nossos, sejam na nossa direção.
Importa ainda mencionar que nem tudo é sorrisos e a celebração do caos, pois Overcooked! 2 conta com vários parâmetros de avaliação da nossa prestação em cada cozinha. Esse trio medidores atribuem estrelas e a progressão no modo principal está intrinsecamente ligado à quantidade de estrelas em vosso poder. Na prática, o avançar para níveis mais avançados precisa que cheguem a um determinado número de estrelas, pelo que haverá quase de certeza a necessidade de voltarem atrás e tentarem melhorar a vossa prestação.
Mesmo perdendo muito do fulgor a solo, é curiosa a forma como mistura processos de um jogo de ritmo com a destreza para oferecer um produto coeso e, acima de tudo, divertido. Talvez ainda mais curioso é que se quiserem ser mesmo bons, terão que aplicar alguma estratégia também, particularmente na forma como vão adiantado serviço nas receitas mais complicadas.
E se as quase quatro dezenas de níveis não forem suficientes, há ainda vários modos secundários, como o Versus e o Arcade. De destacar o primeiro mencionado, pois serve perfeitamente para resolver qualquer disputa de quem foi o responsável pela terrível prestação cooperativamente. Aqui a pressão chega-nos de uma índole relativamente diferente, oferecendo competição no seu estado mais puro.
O lado técnico de Overcooked! 2 é sólido, alimentando sobretudo o nonsense dos níveis, ou seja, a aposta da produtora parece ser não recorrer a um grafismo demasiado complexo em detrimento de um design de níveis que é funcional e que sobretudo não soluça, o que seria francamente terrível num jogo que está sempre a correr em modo frenético.
Tal como a sonoplastia, é um grafismo charmoso e colorido, que não complica em demasia, optando por dar caráter à obra não descartando o lado funcional onde a jogabilidade brilha. Mesmo no multijogador online, é um lado técnico bastante competente que acaba por esconder no funcional uma aposta inteligente da produtora - especialmente quando entram na equação partes que têm tanto de insanas como de diversificadoras.
Overcooked! 2 oferece diversão, mas coloca também à nossa frente os processos para um jogo bastante desafiante. Perde um pouco o fulgor quando experimentando a solo, mas o multijogador, seja localmente, seja agora com a componente online, proporcionará certamente inúmeras sessões de jogo que têm tanto de coordenação como de disparate puro. Mesmo quando se sentem assoberbados na preparação das receitas mais elaboradas e a sucumbir perante a pressão do relógio, não é uma frustração injusta.