Longe dos tempos em que a vontade de comer moedas aos jogadores era saciada através de experiências de dificuldade elevada e que dificilmente poderiam ser concluídas sem que um número simpático de trocos tivessem de ser sacrificados, os últimos anos têm registado um crescimento da popularidade de obras que não dão tréguas a quem lhes dá uma oportunidade, que não seguram a mão do jogador por um desnecessariamente longo tutorial, que o lançam de forma imediata às feras.
Catapultado para o sucesso pelos jogos da From Software - Demon’s Souls, Dark Souls e Bloodborne -, seguiram-se outros como Salt & Sanctuary e o mais recente Nioh, que serviram para cimentarem este tipo de experiência como um género distinto com as suas próprias regras e mecânicas. Rain World é diferente destes títulos, o combate é inexistente e substituído por uma jogabilidade com foco na sobrevivência, mas os traços de personalidade que caracterizam estas obras está aqui bem presente. Infelizmente, o título da Videocult é um excelente exemplo de como fazer um jogo que é difícil apenas para poder afirmar que é difícil.
Apesar do potencial claro que havia colocado o título no radar de muitos jogadores, Rain World não consegue corresponder às expectativas e apresenta-se como uma desilusão que podia e devia ter sido bem mais interessante se a produtora tivesse mostrado mais alguma restrição na gestão da sua dificuldade. Aqueles que gostam de bater constantemente contra um parede até finalmente sentirem a saborosa sensação de realização e recompensa por um esforço bem sucedido poderão encontrar aqui vestígios de uma experiência à vossa medida. Os restantes? Mais vale nem sequer tentarem e ficarem-se por imaginar o que poderia ter sido.
Assumindo o controlo de Slugcat, uma criatura que tal como o nome indica é um misto de gato e lesma - felizmente, é mais gato do que lesma -, o jogador dá por si num mundo devastado por chuvas ácidas constantes. Como em qualquer obra de sobrevivência, Slugcat explorará o vasto mapa em busca da quantidade necessária de alimento para que, após encontrar um abrigo, possa hibernar e sobreviver às chuvas torrenciais. Sem rumo definido e com vários predadores letais pelo caminho, a pequena e indefesa criatura tentará chegar ao seu destino e à segurança.
A narrativa existe, mas como quase sempre acontece neste género é um aspeto secundário da experiência. Abstrata e tentando conferir um tom mais emocional à aventura, a vossa compreensão da mesma e o seu impacto estarão sempre muito dependentes da forma e consistência do vosso progresso durante as várias sessões de jogo que necessitarão para a terminar. Como é óbvio, a já referida dificuldade descontrolada do título tem efeitos nefastos também neste departamento, podendo perfeitamente deixar o jogador perdido até um estado de absoluto desinteresse relativamente ao que a obra lhe está a tentar contar.
Na verdade, a forma como o título deixa o jogador à deriva durante as primeiras horas e o castiga por fazer exatamente aquilo que lhe diz para fazer após o curto tutorial inicial que vos leva até ao primeiro abrigo é um dos seus principais problemas. “Explorem,” diz o jogo, preparando o jogador para a desilusão e para a frustração. Ao contrário do que se poderia pensar, Rain World não é difícil devido aos predadores que habitam os seus ambientes ou a secções de plataformas particularmente exigentes. Rain World é difícil devido à sua mecânica de hibernação que não serve qualquer propósito para além de acentuar para declives ridículos a sua curva de dificuldade.
Imaginem, por exemplo, que em Dark Souls existia um contador definido de tempo que vos obriga a que, antes deste chegar a zero e a provocar a vossa morte, tenham de regressar a uma Bonfire para salvar o vosso progresso. A vossa exploração levou-vos para longe da Bonfire anterior e não encontraram nenhuma nova durante esse período? Azar. Façam todo o percurso de volta até à mais recente Bonfire ou aceitem o doce alívio da morte.
É isto que acontece constantemente em Rain World, excepto que aqui não existe qualquer tipo de progressão para lá da progressão pelo cenário, ou seja, não existem pontos de experiência que fortalecem Slugcat obtidos durante a exploração e que apenas possam ser utilizados nos abrigos. O progresso em Rain World assenta na descoberta de abrigos e de pontos relevantes para a sua narrativa, mas se porventura não os encontrarem, como eu não o fiz nas primeiras duas horas que passei com o jogo, terão pela frente sessões de jogo fastidiosas e frustrantes sem nunca sentirem que estão a fazer qualquer tipo de progresso.
Quando o jogo não vos dá qualquer tipo de pistas sobre o caminho correto a seguir e vos pede para explorar o mundo em que se encontram, não faz grande sentido que esteja constantemente a castigar-vos por fazerem isso mesmo, mas não da forma que este queria que vocês o fizessem. A mecânica de hibernação podia resultar, mas para isso os abrigos teriam de ser mais fáceis de encontrar de forma a minimizar a frequente perda de progresso. A aleatoriedade de movimentos dos predadores já torna a exploração tensa o suficiente. Saber que se não encontrarmos um abrigo antes do tempo acabar vamos perder todo o progresso até ao abrigo anterior é desnecessário e apenas torna a experiência frustrante, uma vez que essas mortes não ensinam, nem oferecem informações adicionais ao jogador.
Dito isto, se foi pelo seu grafismo único e estilo visual que o título captou a vossa atenção, então podem ficar a saber que Rain World é efetivamente um regalo para os olhos. Isso verifica-se facilmente nas imagens que acompanham este texto, mas é notável a excepcional atenção ao detalhe colocada em cada um dos diferentes cenários que encontrarão ao longo da aventura. Descobrir novas áreas é uma recompensa por si só, sendo por isso uma pena que o jogo insista em fazer-vos percorrer os mesmos cenários vezes sem conta antes de chegarem a novos ambientes.
Igualmente impressionante é a qualidade das animações de Slugcat e dos predadores que ameaçam a sua vida. A forma como estes se movimentam pelo solo, reagem a quedas e ao ambiente que os rodeia demonstra mais uma vez o carinho e dedicação que foi colocado ao serviço do seu departamento técnico. Ver dois predadores cruzarem caminho e começarem a atacar-se um ao outro é brutal e um lembrete simpático do destino do protagonista caso se deixe apanhar. Por sua vez, a banda sonora é minimalista e composta quase na totalidade pelos efeitos sonoros que acompanham a vossa exploração, aparecendo com maior destaque nos momentos narrativos para aplicar o tom emocional.
Em suma, Rain World é uma obra que falha em corresponder às expectativas, entregando uma experiência difícil, mas que tem muito pouco de divertida ou recompensadora. A mecânica de hibernação é frustrante e demasiado penalizadora para que a morte possa ser encarada como um simples processo de aprendizagem e a sensação de que estão a fazer qualquer tipo de progresso na aventura está muitas vezes ausente durante períodos incompreensivelmente longos de tempo. É inegável que estamos perante um título imaculado no departamento técnico, mas as escolhas de design em que assentam a sua jogabilidade simplesmente não se traduzem numa experiência agradável de se jogar.