Se no capítulo de estreia, o seu conceito original - o aliar de elementos RPG de progressão da personagem através de habilidades distintas que desbloqueavam diferente abordagens às várias situações que nos iam sendo apresentadas - foi capaz de contrabalançar a incapacidade da narrativa para nos fascinar de imediato, o segundo episódio colocou em evidência as falências da obra em elementos chaves do género de jogos de aventura em que se insere.
Ripples, título da terceira entrada da obra, confirma os maus indicadores deixados pelo seu antecessor e comprova que a Big Bad Wolf não tem o mesmo talento de outros estúdios para construir aventuras narrativas episódicas com personagens memoráveis e momentos marcantes. Os seus elementos RPG continuam a diferenciá-lo dos restantes jogos do género, mas o seu encanto já não é capaz de compensar uma narrativa pobre, confusa e mal amanhada, bem como personagens que consigam abandonar o estatuto de arquétipos.
As personagens de The Council podem ter resistências e vulnerabilidades para serem exploradas consoante o desenvolvimento das habilidades do nosso protagonista, mas isso não as impede de continuarem a ter a profundidade de uma folha de papel. Jogar com as diferentes características das personagens durante os diálogos continua a ser uma experiência curiosa, mas perde-se muito quando estamos perante personalidades que parecem existir pura e simplesmente para serem manipuladas pelo jogador.
Isto faz igualmente com que momentos que deveriam ter impacto emocional, como a morte ou não de personagens e até os próprios confrontos com as personagens históricas que compõem o elenco da obra, fiquem absolutamente vazios de qualquer tensão ou dramatismo. Na verdade, existem alguns que chegam quase a roçar o cómico quando deveriam estar num espectro de emoções totalmente oposto. Diga-se que a vocalização de qualidade duvidosa também não ajuda à entrega destes momentos.
Dito isto, comparativamente ao capítulo anterior, Ripples oferece bastante mais em termos de interação com as personagens e, mais importante que isso, de progressão narrativa. No entanto, se as personagens carecem de profundidade, a narrativa carece de um fio lógico que a impeça de se tornar na verdadeira confusão em que se encontra atualmente. Reviravoltas mal explicadas, linhas narrativas aparentemente abandonadas, enfim, não há muito de positivo por onde se pegar na história de The Council e neste momento estou de tal forma perdido que não faço a mínima ideia qual é o rumo que se vai seguir nos episódios que faltam.
Como se tudo isto não fosse suficiente, o novo episódio volta a apresentar demasiado tempo morto, obrigando o jogador a percorrer novamente, e não raras vezes desnecessariamente, áreas da mansão já exploradas. O terceiro capítulo de Ripples é essencialmente um voltar às áreas principais da mansão para recolher itens com os quais já interagimos no passado para depois regressar ao ponto de partida para resolver um puzzle que está longe de ter uma solução óbvia.
Não há interações relevantes. Não há progressão narrativa, há apenas o caminhar por locais por onde já passamos inúmeras vezes para regressar depois à base, ou seja, uma clara tentativa forçada de adicionar alguns minutos à duração do episódio sem grande justificação para tal. Adicione-se isto a problemas técnicos como ecrãs de carregamento em situações que não o justificam, como por exemplo o início de um diálogo, ou os segundos que o jogo demora a perceber que demos por terminada uma interação e até a ausência de movimentos dos lábios em algumas situações e percebemos que estamos perante uma experiência pouco aprimorada.
Com apenas dois capítulos para concluir a sua obra, a Big Bad Wolf terá muito que trabalhar para conseguir justificar o investimento dos jogadores depois de dois episódios que deixaram bastante a desejar. O potencial para uma narrativa de qualidade e um sistema de escolha e consequência significativo continua presente, mas o tempo começa a escassear para a produtora conseguir provar que tem o talento necessário para o materializar em algo capaz de abandonar a mediocridade em que se encontra.