Through The Woods podia ter sido um videojogo de terror bastante mais interessante do que aquilo que é. Publicado originalmente no PC e recentemente encontrando o seu caminho para a PlayStation 4 e para a Xbox One, é uma aventura com o coração no sítio certo, mas com uma execução que deixa bastante a desejar, quebrando várias vezes a bolha para onde quer transportar o jogador.

Sendo uma aventura relativamente curta, podendo ser terminada em cerca de três horas, o charme de Through The Woods está na sua história. Apostando as suas cartas na mitologia nórdica, somos imediatamente transportados para um bosque na Noruega, onde mãe e filho vão passar uma temporada numa cabana - à procura de se afastarem do quotidiano enquanto tentam restabelecer o laço familiar, enquanto tentam reparar os caminhos que se separaram.


Não demora muito até que esse tempo que se esperava pacífico dê lugar a uma angústia ainda maior do que os levou até esta recatada floresta. Espen, o filho, desaparece, deixando para trás apenas pequenas migalhas (Reflectors) que servem para mostrar que Karen, a mãe, está a seguir o caminho certo. Desesperada à procura do filho, é uma mãe que não baixa os braços enquanto atravessa esta floresta.

Pelo caminho, há alguns colecionáveis que ajudam a inserir a obra no folclore nórdico e algumas criaturas que estão presentes para tentar atrasar esta progressão. Contudo, é aqui que começam a surgir os problemas da obra. Through The Woods não é propriamente um jogo que apresenta uma dificuldade exagerada, mas sim uma proposta com alguns trechos simplesmente frustrantes.


Há algumas cenas macabras e algumas amostras daquilo que os criadores queriam apresentar, mas as criaturas que se escondem na floresta, além de raramente me terem provocado sustos propriamente ditos, denotam uma Inteligência Artificial que torna o seu estudo e compreensão uma tarefa assente em tentativa e erro.

Além de podermos obviamente caminhar, podemos também correr e fazer com que Karen se mova com cuidado. Além disso, a protagonista tem em sua posse uma lanterna. Seria expectável que a combinação destas mecânicas resultasse em processos de ação furtiva, em momentos de tensão, em situações que fizessem o jogador sentir que a sua vida digital estava em perigo. Infelizmente, na prática não é sempre isto que acontece.


Em raros momentos, sermos perseguidos por um troll ou por Huldras provoca o acelerar do batimento cardíaco, contudo, quando estamos no meio do escuro, atónitos e confusos à procura de um caminho, e uma criatura aparece sem aviso e nos mata, não só a tensão é inexistente, como a frustração de sermos enviados para o último checkpoint - que por diversas vezes está colocado vários minutos atrás - vai aumentando o descontentamento geral com a forma como a progressão é feita. E quando isto acontece diversas vezes, essa frustração é nutrida como uma erva daninha.

O conceito de progressão de Through The Woods também resulta melhor no papel do que na teoria. Não é um jogo em mundo aberto, mas não tem propriamente um caminho definido. Ou seja, pelo breu e munidos da lanterna, são os jogadores que têm que fazer a exploração à sua maneira, orientando-se o melhor que conseguirem. Isto é interessante porque permite travar conhecimento com caminhos e áreas secundárias, mas não resulta sempre.


Para resultar sem grandes percalços, o design dos cenários tinha que ser mais cuidado, ou seja, as dicas visuais teriam que ser mais aprimoradas. É muito fácil saírem do caminho principal e ficarem perdidos sem saberem como voltar a esse trilho quando a exploração terminar. Sim, é verdade que se instala uma sensação desconfortável e uma ânsia patrocinada pela aflição de estar em território que não conhecem, mas sabem não ser o certo. Porém, há momentos que podem ser descritos apenas como frustrantes.

Não ajuda que a lanterna tenha um diâmetro de iluminação incrivelmente reduzido. Na prática, isto não só dificulta a obtenção de prazer dessa mesma exploração, como sabota os sustos. Por diversas vezes, como não vi as criaturas aproximarem-se, quando morri o sentimento foi de marasmo, pois nem sequer me apercebi do que estava a acontecer. São pormenores que ajudam ou dificultam o entusiasmo com que se está numa obra que vive de e para a tensão.


Assim, a angústia daquela mãe e os momentos que marcam acabam por ser diluídos, acabam por perder impacto face a estas temporadas em que andamos aos círculos à procura de uma saída, aliás, em certos momentos, mais desesperados com a saída do que propriamente com as criaturas plantadas para nos fazer temer a travessia. Tal como já foi mencionado, mesmo não sendo uma aventura com uma longevidade assinalável, tem tempo suficiente para vários suspiros.

Tecnicamente, Through The Woods é uma mistura interessante. Graficamente, temos uma modelagem atroz das personagens humanas, característica que não deixará ninguém de queixo caído quando falamos das criaturas, mas que é substancialmente melhor. E os cenários, ainda que sejam sobretudos pautados pelo breu, têm de facto alguns detalhes de boa qualidade, como as texturas das pedras ou das árvores. O ambiente está lá, ainda que ofuscado por uma lanterna que precisava de pilhas novas.


Na sonoplastia, o cenário é o mesmo - há pontos positivos e pontos desastrosos. Começando desta vez pelo melhor, é a música propriamente dita que sobressai. Os escassos momentos de tensão devem-se também muito ao design sonoro, à forma como nos indica que há algum perigo perto, mesmo que não o cheguemos a ver. Por outro lado, a vocalização em inglês, tanto da mãe, mas especialmente do filho, é má. É simplesmente má. 

E Through The Woods é essencialmente isto. Uma travessia por uma floresta norueguesa que tinha tudo para ser muito mais interessante. Como obra de terror tem várias falhas facilmente reconhecíveis, incluindo alguns erros técnicos - como ser enviado para o menu da Xbox One X quando fui morto. É pena, sinceramente, pois toda a envolvência do folclore nórdico e a história, se bem aproveitados, podiam ter dado uma experiência altamente aterrorizadora. 


Mesmo compreendendo que o orçamento não é o mesmo de videojogos que tomam conta do mercado, a essência do jogo perde-se quando há este tipo de falhas. Ocasionalmente, há um vislumbre do que poderia ter sido, há aquela centelha de esperança que o melhor ainda está para chegar. Mas esse “melhor” tarda e os momentos corriqueiros vão-se acumulando, o que torna muito complicado sentir aquilo que é expectável deste tipo de experiências - tensão até o susto, medo de avançar.

Ainda que tenha alguns momentos inspirados que nos permitem imaginar o que poderia ter sido, Through The Woods falha em oferecer uma experiência de terror e de tensão estável e competente. O tema é muito melhor que a execução.
5em 10
5em 10