Tal como o seu aclamado título original lançado na SEGA Mega Drive e o menos popular ToeJam & Earl III: Mission to Earth, Back in the Groove é uma obra bastante peculiar e difícil de classificar em qualquer um dos géneros mais tradicionais. Talvez por isso mesmo a série tenha tido tantas dificuldades para regressar à ribalta e a primeira aventura deste duo tenha assegurado o estatuto de clássico de culto. Se esse estatuto é ou não merecido não me cabe a mim dizer, mas não é preciso muito tempo com a nova obra para perceber que não estamos perante um jogo capaz de apelar às massas.
Desenvolvido pela HumaNature Studios, produtora fundada pelo criador da série, Greg Johnson, o novo título é, acima de tudo, uma experiência que fará as delícias dos fãs do original, mas que deixa bastante a desejar no momento de captar o interesse daqueles que não forem movidos pelo seu valor nostálgico. Para além de ser algo obtuso relativamente às suas mecânicas centrais, falta-lhe algo mais para se manter interessante durante sessões de jogo mais alongadas.
Já foi descrito no passado como um jogo de ação, aventura e plataformas, mas talvez seja mais fácil inseri-lo no género roguelike. Afinal de contas, estamos perante um jogo onde recebem melhorias aleatórias no final de cada nível e presentes igualmente aleatórios ao longo dos mesmos. Percam a totalidade da vossa saúde e terão de começar o percurso de novo. Isto não significa, no entanto, que Back in the Groove seja uma obra de dificuldade acentuada ou castigadora, pois tal não é o caso, significa apenas que é desta aleatoriedade que surge muito do seu desafio.
Seguindo a fórmula do jogo lançado na Mega Drive, a experiência assenta na exploração de níveis que podem ser descritos como ilhas flutuantes em que terão de interagir com o cenário para obter dinheiro, comida e presentes. O dinheiro é especialmente útil para recrutar o auxílio de Good Earthlings que vos auxiliarão a manterem-se a salvo dos Bad Earthlings, a principal ameaça à vossa progressão. Por sua vez, a comida restaura a vossa saúde, enquanto os presentes podem, através da sua enorme variedade, servir diversos propósitos.
O objetivo principal passa não só por encontrar o elevador que vos levará até ao nível seguinte, mas também pelo recolher das peças necessárias para a reconstrução da nave que ToeJam & Earl destruíram ao ativar um buraco negro e da qual precisam para regressar a casa. Para estes propósitos poderão utilizar diferentes presentes para vos levarem automaticamente até à peça da nave presente no nível, revelar a localização do elevador, ativar uma chuva de tomates para eliminar alguns dos Earthlings do cenário, utilizar asas para voar pelo cenário, sapatilhas para correr e outras com molas para enormes saltos.
Infelizmente, a movimentação lenta das personagens pelos níveis e a frequente ausência de direção em relação ao que temos de fazer faz com que a exploração se torne facilmente fastidiosa e aborrecida, especialmente quando o número de Bad Earthlings começa a aumentar. Sim, é certo que tanto no tipo de inimigos que coloca à nossa frente - cortadores de relva irados, cupidos embriagados, fãs tresloucados, caçadores de extraterrestres, entre outros -, como nas aplicações dos presentes que acumulamos, o título faz um bom esforço para que os processos sejam dominados pelo bom humor, mas isso apenas resulta enquanto o fator novidade ainda se faz sentir, algo que não dura muito.
ToeJam & Earl: Back in the Groove é assim uma obra cuja jogabilidade carece da profundidade ou do entusiasmo para se manter fresca durante um período assinalável de tempo. A possibilidade de jogar em modo cooperativo local para 2 jogadores e online para até 4 jogadores permite que a conversa entre os interveniente atenue um pouco os problemas do jogo, mas não os elimina. Dito isto, aqueles que estiverem dispostos a investir algum tempo na experiência poderão desfrutar da sua fórmula no Mundo Tutorial - mais fácil e com menos níveis -, no Mundo Fixo - dificuldade recomendada e com níveis que permanecem inalterados ao longo da campanha - e em mundo com níveis gerados progressivamente.
Visualmente, Back in the Groove é uma proposta bastante interessante com visuais desenhados à mão apresentados numa perspetiva isométrica. O colorido do cenário e a diversidade de design dos Earthlings dão vida aos níveis e conferem-lhe uma identidade própria e recheada de personalidade. Por sua vez, a banda sonora faz um bom trabalho em acompanhar a experiência, enquadrando-se perfeitamente no tom da aventura.
O regresso de ToeJam & Earl é, desta forma, um jogo algo difícil de recomendar. Se são fãs do original e pretendem uma obra que se mantenha fiel a essa fórmula, então têm aqui um título que corresponderá certamente às vossas expectativas. Se nunca jogaram qualquer obra da série, então é provável que tenham dificuldade em encontrar em Back in the Groove as qualidade necessárias para vos cativar durante mais do que apenas um par de horas. Ainda assim, é um jogo a ter em conta se pretendem uma experiência cooperativa tranquila.