Não é a primeira vez que um simulador me consome as horas do dia. Euro Truck Simulator 2 fez aplicar dezenas e dezenas de horas até o contador mostrar números na casa dos três dígitos. E aqui estou eu novamente, novamente a emprestar a minha existência a uma profissão digital. Desta vez a profissão é ser maquinista de comboios, desta vez o jogo é Train Sim World.
A obra chega-nos da britânica Dovetail Games e pertence obviamente ao género dos simuladores; pertence aos videojogos que querem a nossa total atenção prestada à curva de aprendizagem para sermos melhores naquilo que fazemos por cenários da sua proposta. A responsabilidade está lá, o risco de falharmos nem tanto à laia de consequências que não afetam o cheque ao final do mês.
E no entanto, Train Sim World teve a minha dedicação à ferrovia, levando-me a viver um sonho de criança - transformando-o por diversas vezes no desejo que fosse para sempre um sonho. São vários os tutoriais que nos explicam os processos, as diferentes locomotivas que temos que domar, as suas exigências específicas, como se fossem corpos metálicos diferentes e como se cada corpo metálico tivesse um coração específico.
Vamos lá então, que isto de ser maquinista digital tem muito para ser compreendido. Compreender e fechar os circuitos elétricos, sim, mas também as catenárias, o contacto com a composição. Vamos lá aprender a assinalar a marcha, dois toques para assinalar movimento ao sair da estação, dois ou dez toques porque isto de ser maquinista digital é, novamente, viver o sonho de criança. Continuamos pelos tutoriais e claro, aprendemos a parar nas estações.
Depois de acumular mais de uma dezena de horas com Train Sim World, torna-se claro que a obra não fica aquém no volume de conteúdo que oferece, mas sim na hora de me manter investido para que haja o desfrutar de todo esse conteúdo. Compreendam o básico: há três experiências diferentes que podem escolher e ir alterando. São elas a Northeast Corridor New York (e estamos em Nova Iorque), a Great Western Express (e agora somos maquinistas no Reino Unido, e a Rapid Transit (a mesma profissão, mas agora na Alemanha).
Cada uma destas diretrizes oferece vários cenários que são compostos por inúmeras tarefas dadas ao jogador para completar. Como se fossem missões, é a forma da Dovetail Games nos dar objetivos e condicionantes, pedindo-nos a adaptação a tudo isto. Outros maquinistas que faltaram ao serviço, comboios de mercadorias que têm que movimentar a sua carga, famosos destinos que vemos da nossa janela enquanto galgamos o cenário aos controlos de uma locomotiva detida pelas cores da Amtrak.
Vamos então saltando entre os comandos de várias composições sem sair do sofá, vamos então adaptando o nosso estilo e a nossa atenção ao que cada cenário exige de nós. Os sinais a que devemos obedecer, chegando aos cenários mais avançados e chegando também às agulhas para mudar antes da composição estar alinhada para chegar à linha correta. Train Sim World faz isto - a diferenciação e listagem de tarefas - bem, mas ainda não é uma recomendação fácil.
Toda a minha experiência com Train Sim World foi numa Xbox One X. Nunca desligando a percepção que tinha um simulador em mãos, a verdade é que a produtora falha diversas vezes em capturar esse interesse para manter o jogador investido no conteúdo que preparou. São vários os cenários sinónimos de uma soma de minutos a olhar pela janela, a mexer numa manivela enquanto olhamos para o medidor dos quilómetros e metros a diminuir, por muita vontade - e acreditem que eu a tinha - em ser maquinista digital, os olhos começam a revirar e o interesse a desvanecer.
Por todo o espectro de afazeres que esta profissão exige, controlar a velocidade, estar atento à amperagem, compreender as manhas da física associada a um corpo em movimento e assim controlar os metros que o mesmo demora a parar, é pouco. Mais: prestar atenção aos sinais, aferir tempo que demora a ajustar a marcha. Mais um pouco desta simulação: assinalar a marcha, reduzir a velocidade, um pouco e um pouco mais - olhar para os limites permitidos, novamente - sinais, sinais, um pouco mais de sinais e um pouco mais de calma enquanto há um horário a cumprir. Aqui está a travagem controlada, o manípulo que é o freio da travagem. E tudo é pouco, pouquinho para me dar uma razão lógica pelo qual o faço dez ou quinze horas depois.
A marcha confirmada para a frente e o deslizar para arrancar mais uma vez da estação. Os passageiros, graças às portas que abri, estão lá dentro. Esperei por eles e elas, uma, vinte, setenta vezes. Tudo acomodado? E cá vamos nós outra vez até à paragem seguinte. Um ciclo aplicado à realidade da profissão era um simulador, um círculo aplicado à realidade insuflado de um videojogo é, quando falha, a repetição.
Na sua espinha, o melhor que Train Sim World tem para oferecer são as várias locomotivas que coloca à disposição dos nossos dedos. Além do comportamento que afeta a jogabilidade, são sobretudo os detalhes gráficos que ficarão comigo. Tantos botões, tanta fidelidade ao suor destes trabalhadores da ferrovia. O sentimento de sermos um maquinista está aqui, ainda que infelizmente seja despedaçado quando olhamos pela janela e percebemos que o resto do grafismo é paupérrimo.
Antes de lá chegarmos - ao departamento técnico - fica a nota clara que Train Sim World só tinha a ganhar se adicionasse mais locais e, sobretudo, mais locais diversificados. Além dos locais, as situações oferecidas pelos cenários também só tinham a lucrar por uma diversidade mais junta à pele - tanto pelas vistas como pelos desafios propriamente ditos.
A questão não é que tudo seja igual, porque não é, mas sim uma questão do sopro fraco da diversidade para sustentar o investimento a longo prazo. É verdade que há um cenário que nos leva a passar com um comboio por uma estação de lavagem, como se fosse um pachorrento estalo de novidade, mas também é verdade que isto é raro, com o cômputo geral a ser o mesmo, mais do mesmo e um pouco mais desse mesmo.
Há várias câmaras de jogo que nos ajudam a perceber o quão mau o grafismo é, mas de vários ângulos. Além da fraca diversidade, as texturas são más, terríveis, e isso só acentua, precocemente, a sensação que já estivemos aqui, que já vimos isto, que estamos a jogar num círculo visto por um microscópio, uma lupa.
Em nada ajudam os erros técnicos variados. Texturas carregadas ao último segundo só servem para quebrar a imersão e incontáveis falhas na deteção dos cenários que nos circundam. E há o desastre que foi aquela vez que sai do meu próprio comboio para ajustar as agulhas, a composição não ficou imóvel graças ao declive (o que faz sentido perante o género em que a obra está inserida), e que acabou comigo teleportando para uma das carruagens, devido ao facto de Train Sim World ter falhado redondamente na hora de ferro e humano colidirem. Isto teria mais piada se não tivesse que recomeçar o cenário graças a não conseguir controlar o comboio novamente, ainda que tivesse “subido a bordo”.
Também é verdade que Train Sim World permite que estejamos no seu mundo como passageiro, apreciando a vista e realizando objetivos ainda mais banais do que quando estamos aos comandos das locomotivas. Assim, nesta pacatez, a obra falha redondamente em construir um mundo minimamente vivo à volta dos objetivos que quer executados.
A motivação inicial que tinha em investir a minha existência - a existência de alguém que cresceu a pedir ao pai que o leva-se a ver os comboios passar em Campanhã - é destroçada porque Train Sim World simplesmente não consegue ser atraente o suficiente para que as dezenas de horas valham a pena. Ou seja, este charme está lá, mas os amantes dos carris ficarão desiludidos quando perceberem que horas e horas depois é tudo um jogo de espelhos e fumo.
Toda a mistura de objetivos que vergam por não serem diversificados com capítulos técnicos que vão buscar texturas a uma geração pretérita arruinam a imersão. Eu importei uma cópia japonesa de Railfan para a PlayStation 3 e mesmo sem perceber japonês tive mais diversão por lá, por terras de uma imersão que subsistia graças ao realismo e à bolha de simulação criada em meu redor.
A verdade é esta: Train Sim World cria a ilusão de levar os jogadores até uma realidade em que somos maquinistas, mas que não lida bem com a manutenção dessa bolha de ilusão com o passar do tempo. Reparem. Enquanto essa bolha dura, os jogadores estão afincados a cumprir horários e a controlar medidores, contudo, o véu é levantado após algumas horas, e é então que o mau departamento técnico e o ciclo de tarefas mostra os seus dentes. E aí percebermos que estamos a jogar um simulador que não simula assim tanto. No meu caso, percebi também que estava a jogar uma obra com aspeto da Xbox 360 na minha Xbox One X ligada à minha TV 4K.