Longe estão os tempos em que os videojogos eram apenas mais uma forma de entretenimento através do qual podiam fugir aos problemas do quotidiano, desligando o cérebro por alguns minutos ou horas enquanto a vossa memória muscular tratava de fazer a personagem presente no ecrã saltar e ultrapassar obstáculos apenas para descobrir aquilo que vos aguardava no final do nível. Estas experiências ainda existem, claro, mas o crescimento, evolução e maturação deste meio trouxeram consigo mentes criativas, mentes com histórias para contar, mentes que pretendem ter impacto naqueles que jogam as suas obras.

We Are Chicago é um perfeito indicador disso mesmo. Produzido pela Culture Shock Games,  mais do que divertir, entreter ou distrair, esta obra existe com o único propósito de introduzir aqueles que lhe derem uma oportunidade a uma realidade diferente daquela a que estamos habituados a consumir nos videojogos. Inspirado nos relatos daqueles que experienciam esta realidade na primeira pessoa, o título procura transportar-nos para um mundo dominado pelos gangues em constante conflito pelo seu território, relatando as dificuldades de crescer numa zona pobre de Chicago onde a perda de familiares para a violência entre estes grupos armados é encarada com dolorosa normalidade.


Assumindo o controlo de um jovem estudante e trabalhador à procura de chegar à universidade para se afastar da violência e ajudar a sua família, o jogador embarcará numa aventura na primeira pessoa que segue os moldes tradicionais do género. Colocando de forma clara a jogabilidade num plano secundário, a obra foca-se quase exclusivamente na narrativa que pretende contar e na mensagem que pretende partilhar, tentando, com diferentes graus de sucesso, retratar a vida difícil, de medo e incerteza constantes, pelos quais muitos jovens e famílias em zonas de risco têm de passar.

Infelizmente, como provavelmente já perceberam pela classificação que acompanha este texto, We Are Chicago é muito fraco enquanto videojogo. Percebe-se a intenção e é de louvar o facto de a produtora ter tornado este projeto numa realidade, contudo, boas intenções estão longe de serem suficientes para produzir um bom jogo e neste caso os defeitos sobrepõem-se de forma clara às qualidades. O potencial para algo especial estava lá, mas a inexperiência da equipa de produção, o tempo de desenvolvimento ou quiçá o orçamento traduziram-se numa experiência aborrecida, pouco marcante e incapaz de fazer aquilo a que se propunha.


Nem mesmo o elemento em que se esperaria que o título fosse capaz de brilhar, ou seja, na qualidade da narrativa e da escrita, consegue apresentar um nível minimamente aceitável. Prejudicado por um trabalho de voz que tem altos e baixos, o diálogo carece de naturalidade e não consegue evitar momentos com linhas algo estranhas. As personagens não são memoráveis e, salvo uma ou outra exceção, deixam muito a desejar no que diz respeito à sua profundidade. Em momento algum o jogo nos convence de que estamos perante pessoas complexas, com diferentes perspetivas e diferentes motivações. Na verdade, a obra faz um péssimo trabalho em construir personagens que vão para lá dos eventos retratados na sua campanha. Tanto o protagonista como as personagens secundárias não passam de avatares que apenas existem para movimentar a história.

É precisamente por isso que aquilo que a produtora pretende que seja um soco emocional no jogador nos momentos finais da obra se traduz em algo completamente inconsequente, pois o jogo nunca fez por merecer tal reação por parte de quem controla a ação. O facto de praticamente todas as conversas acabarem por desembocar invariavelmente na temática dos gangues e tiroteios também não ajuda a tornar o conteúdo destas interações cativante. Percebo que esse seja o tema central da obra, mas torna-se cansativo ouvir sempre uma variação da mesma conversa durante três horas. Mais uma vez, isto acaba por passar a ideia que estas personagens apenas existem para falarem sobre este assunto. Nunca vemos estas personagens terem conversas casuais que, mesmo que de relevância questionável, são fundamentais para que o jogador se identifique com as mesmas.


A jogabilidade minimalista é igualmente um problema. Assente maioritariamente em opções de diálogo durante conversas com outras personagens, os restantes momentos de interação com o jogo estão reservados a tarefas banais como pôr a mesa ou atender os clientes do restaurante onde trabalha o protagonista. Sem grandes surpresas, estes momentos são de uma monotonia gritante e têm como principal consequência o abrandar ainda mais de um ritmo que nunca chegou a minimamente acelerado. Mesmo nos momentos de diálogos, o título consegue borrar a pintura oferecendo um tempo máximo para a escolha que muitas vezes nem vos deixa ler o texto todo das várias opções disponíveis.


Tanto na jogabilidade, como na narrativa, We Are Chicago demonstra constantemente uma fraca execução de uma ideia bastante interessante, mas é no departamento técnico que as fragilidades são mais evidentes. Cenários pobres em detalhe e desenxabidos e uma modelagem das personagens rudimentar são apenas alguns exemplos da óbvia falta de polimento desta obra. Aliás, o melhor exemplo dessa falta de atenção ao detalhe é o facto de a hora no telemóvel do protagonista ser sempre a mesma. Para além disso, a framerate soluça por todos os lados e o jogo demora um período incompreensivelmente longo a iniciar. Sim, o meu PC está longe de ser poderoso ou o mais recente, mas acho que se consegue correr sem grandes dificuldade uma obra como Firewatch, não deveria ter quaisquer problemas com uma obra bastante pobre neste departamento.


Como já referi, We Are Chicago é uma obra recheada de boas intenções e tem uma mensagem positiva e que merece ser partilhada na sua génese, mas a execução das suas ideias são um desastre completo e fazem com que toda a boa vontade com que iniciam a experiência seja rapidamente substituída por um sentimento de frustração e aborrecimento. Ritmo lento, história e personagens pouco marcantes, jogabilidade inexistente e inúmeras falhas técnicas são demasiados problemas para uma obra que nunca consegue entregar de forma conveniente a sua mensagem.

We Are Chicago transporta-nos para uma realidade diferente, mas infelizmente bastante real. Contudo, falha em converter a sua mensagem louvável numa experiência agradável.
4em 10
4em 10