Se há algo que a Level-5 sabe criar é uma estrutura consistente para as suas séries. Veja-se o exemplo da sua série Inazuma Eleven, do primeiro ao mais recente título, a estrutura é essencialmente a mesma, com alterações ligeiras a cada nova entrega. Infelizmente, Yo-Kai Watch parece estar a seguir o mesmo caminho, o que o leva a perder o encanto do primeiro.

Springdale continua a ser uma cidade de acontecimentos estranhos e misteriosos, todos justificados pela presença dos Yo-Kai. Estas criaturas estranhas que dão título ao jogo são espíritos de diversas formas com poderes capazes de influenciar decisões e comportamentos dos humanos que os rodeiam.


A Level-5 teve a preocupação de incluir nesta jornada jogadores que não tenham experimentado o primeiro título. Todavia, foi pela via do menor esforço, colocando a personagem principal sob uma amnésia temporária. O que acaba por acontecer é que Nate, ou qualquer que seja o nome que escolherem, dará os mesmos passos que deu na primeira obra para introduzir os novos jogadores e os que regressam agora a série após um ano de intervalo.

Esta segunda entrega de Yo-Kai Watch continua a partilhar similaridades com Pokémon. Agora há finalmente funções online, nomeadamente para o multijogador, contudo, transporta as mesmas fragilidades das batalhas do modo a solo. Assim, quem continua a ganhar é a série da GameFreak. Mas há melhoramentos significativos em termos quantitativos para uma longevidade bem maior do que o título original. Há um mapa bem mais extenso para além de Springdale e o número de criaturas Yo-Kai aumentou uma centena - de 250 para 350.


A narrativa só arranca realmente depois da introdução entregar por completo as mecânicas mais básicas e estiver pronta a entregar-vos a história propriamente dita. O argumento coloca novamente Nate junto de Whisper e Jibanyan, o Pikachu de Yo-Kai, a pôr ordem nas criaturas Yo-Kai malfeitoras que acabam por colocar em perigo os humanos que não os conseguem ver sem o relógio especial utilizado por Nate e algumas personagens ligadas a este mito.

Desta forma, dois Yo-Kai misteriosos estão prestes a começar uma batalha entre duas fações Yo-Kai: os Bony Spirits e os Fleshy Souls. Isto fará com que os jogadores descubram as origens dos Yo-Kai numa viagem ao passado, onde poderão adquirir criaturas únicas e conhecer personagens com fortes ligações às personagens principais.


As batalhas estão praticamente ausentes de desafios. Controlam seis Yo-Kai que têm no vosso relógio, onde três estão a combater e os restantes estão no banco de suplentes. Rodem o relógio e conseguem colocar em jogo um, dois, ou uma equipa totalmente fresca de Yo-Kai para combaterem automaticamente enquanto têm o trabalho de purificar quem ficou desmotivado ou sem vontade de combater.

As batalhas pedem-nos para interagir através de minijogos que aparecem no ecrã inferior, quando podemos ativar os ataques denominados de Soultimate. Podemos fazer girar uma roda no ecrã, tocar em esferas amarelas para as tornar azuis e até desenhar linhas para estes conseguirem ficarem com a energia necessária para golpes devastadores ou técnicas que façam recuperar saúde, ou diversos estados de condição física, aos seus companheiros adjacentes.


A batalha nunca nos dá a sensação de sermos habilidosos por termos dominado uma técnica ou mecânica. Se nos virmos bloqueados temos de, inevitavelmente, trocar a nossa equipa de Yo-Kai por outros de classe superior ou, em último caso, praticarmos grinding no combate em todas as localizações onde se encontram criaturas Yo-Kai sinalizadas pelo nosso radar.

A repetição instala-se rapidamente em Yo-Kai Watch 2, as missões levam-nos de uma ponta à outra do episódio, sem que nos seja dado um minuto para pensar, seguimos as setas, as indicações e os sinais que nos são dados e chegamos, sem esforço, onde devemos nos dirigir. Felizmente, há missões que destacam a personalidade cómica do elenco de personagens que habita Springdale, funcionando como uma motivação extra para descobrir as surpresas que nos estão reservadas.


Uma das grande desilusões é de não ter havido um esforço por parte da Nintendo Ibérica por haver uma tradução de Yo-Kai Watch 2: Bony Spirits e de Yo-Kai Watch 2: Fleshy Souls, quando a série de animação homóloga é transmitida pelo canal Cartoon Network com vozes em português europeu. As crianças que vêem os desenhos animados ficarão bastante desiludidas por se ter erguido uma barreira linguística nos videojogos da Level-5, isto poderia levar a audiência ao domínio da Nintendo.

O que é que a Level-5 precisaria? De uma agitação criativa. Uma renovação nas suas séries para que não tentassem ficar reféns de uma estrutura tão rígida que construíram para cada uma das suas propriedades intelectuais. Yo-Kai Watch tem o potencial de se tornar num fenómeno tão grande como o de Pokémon, mas sem a originalidade suficiente para se distanciar dos seus semelhantes, ficará à sombra dos mesmos.  


Esta entrada é bastante bem-vinda se gostarem de uma passagem calma e pausada, sem terem de pensar em estratégias para ultrapassar mais um desafio das batalhas proporcionadas pelos monstros que habitam nesta série. Pensem em Yo-Kai Watch como uma nova temporada na série de animação entregue em formato de videojogo. Se aceitarem esta realidade poderão gostar ainda mais de Yo-Kai Watch.

Uma boa sequela, mas infelizmente não traz nada de substancial para se distinguir do primeiro título da série. Ou seja, um jogo claramente feito para os fãs da Level-5.
7em 10
7em 10