Magikarp Jump é um título bastante curioso na forma como aborda a maior fatia do mercado iOS e Android: os jogos free-to-play. É destacado um dos Pokémon mais fracos e inúteis de sempre, deixando Pikachu num lugar secundário. Contudo, muitos dos jogadores faziam questão de ter Magikarp na sua equipa de seis, para que o patinho se pudesse transformar em cisne, ou seja, que evoluísse para um poderoso Gyarados. Por isso, a equipa de produção imaginou o que seria possível fazer para dar sentido à vida de um Magikarp num cenário em que a evolução não fosse uma realidade e a resposta foi algo similar ao que já fizeram com “Survive! Mola mola!”, um jogo lançado para o mesmo mercado.

No fundo, ninguém quer um Magikarp, todos querem um Gyarados. Mas e se o mundo dos Pokémon ficasse restringido às reduzidas capacidades da criatura aquática? Teríamos de nos contentar com o que temos. E o que temos é, literalmente, um peixe fora d’água à mercê da ferocidade de outros predadores. A sua única habilidade, se de tal nos é permitido designar, é saltar. Todavia, é um salto da luta pelo regresso ao seu habitat natural: a água. Porém, não nos esqueçamos que estamos num universo de fantasia onde tudo é possível, onde um peixe pode lutar a sua vida inteira para voltar a um sítio que nunca voltará a ver.


Em Pokémon: Magikarp Jump somos um treinador que vai aprender a viver com a presença de um Magikarp, tratá-lo com treino rigoroso e alimentação adequada para evoluir o mais rapidamente possível e enfrentar outros treinadores na Liga reservada às várias espécies de Magikarp. Em todos os títulos free-to-play há duas formas de progressão: ou investimos com tempo ou com o nosso dinheiro para apressar o nosso avanço para o objetivo final. Curiosamente, sempre que iniciamos a aplicação, somos relembrados da nossa liberdade: não somos obrigados a investir neste título para chegar ao fim. Foi esta última parte que me fez indagar as intenções da produtora japonesa: um jogo free-to-play que tem um final. 

Isto vai contra todas as diretrizes dadas pelos investidores de uma determinada empresa de videojogos. Quanto mais prolongada for a estadia do jogador, por meio de vários incentivos, maior é o retorno do investimento. Porém, vamos lá colocar os pontos nos is. Magikarp Jump pede-nos para evoluir um Pokémon através de treino e alimentação, mas sempre que já não temos um nível suficiente para ultrapassar um novo obstáculo recomeçamos do zero. Não exatamente do zero, se já temos algum investimento feito com dinheiro real ou com aquele que é ganho no próprio jogo. Mas os dois ou três últimos níveis a atingir antes do máximo possível, são os que exigem uma maior recolha de pontos de experiência, uma quantidade substancial ao ponto de termos obrigatoriamente de esperar pela recuperação de pontos de treino para podermos voltar a exercitar o nosso peixe de competição.


São estes momentos sensíveis que vão por a paciência do jogador em teste, é neste momento que vai acontecer uma de três coisas: o jogador tem paciência e evolui ao ritmo imposto pelo jogo, investe com dinheiro real para suprimir o tempo necessário de evolução ou perde a paciência e apaga o jogo. Fiquei para perceber o que jogo realmente queria de mim. Há um certo apelo em colecionar todos os padrões da cor da pele dos Magikarp, ou seja, estar em posse de todos os Pokémon do Pattern Dex. É-nos também permitido acesso gradual a todos os tipos de treinos para Magikarp a troco de algum dinheiro ganho no jogo. Tudo isto para que tenhamos uma hipótese de evoluir mais rápido, de chegar ao tão desejado prémio que é o final do jogo.

Não obstante desta parte aliciante em conhecer uma particularidade do universo Pokémon, há que ter em conta a aleatoriedade dos eventos que ocorrem em Magikarp Jump. Algumas ações ativam ocasionalmente eventos que nos dão sempre acesso a um acréscimo de dinheiro, diamantes ou JP (Jump Power, os tais pontos de experiência para evoluir). Temos a opção de arriscar na promessa de mais rapidez no processo de obtenção de algum dos elementos do jogo mencionados. 


Mas mesmo assim, Magikarp Jump continua no meu telemóvel. Que novos eventos ainda serão possíveis ver? Que treinos mais absurdos é que farão Magikarp ganhar ainda mais impulso para o seu salto durante as batalhas? Será que terei paciência suficiente para continuar sem investir um único cêntimo? São curiosidades que quem gosta do mundo Pokémon gostaria de ver respondidas.

Este jogo pode muito bem ser uma forma de servir o género em que se insere, ao atrair quem nunca esteve interessado em jogos gratuitos com compras na aplicação. Afinal, há quem não tenha paciência de fazer evoluir um Magikarp sem as facilidades que trouxe o Exp. Share numa fase mais avançada das aventuras da Game Freak, para partilhar uma fração da experiência com os Pokémon que nunca entraram no combate.


Afinal foi com paciência e a assimilação dos meus erros que aprendi a ser um melhor jogador Pokémon. Talvez assim os jogadores mais resistentes ao investimento aprendam que é com esforço que se chega ao longe, sem tomar demasiados riscos. Magikarp Jump não é um peixe fora d’água, mas um jogo enraizado no universo em que se insere, que aplica da melhor forma as particularidade do modelo free-to-play.