Os jogadores e Resident Evil nem sempre se deram bem. Tido como um dos bastiões do género de terror, foi elevado aos céus com Resident Evil 4 e trazido de volta a terreno mais comum com os jogos numerados seguintes. A Capcom sabe disto, até porque a comunidade é bastante vocal sobre a série; a Capcom sabe disto, até porque Resident Evil 7 parece querer começar uma nova relação com os jogadores.

Tal como tantos outros, assim que foi mencionado na conferência da Sony que haveria uma demonstração jogável disponível pouco depois, fui visitando a PlayStation Store alimentado pela curiosidade de perceber, afinal, o que é que a produtora nipónica estava a preparar para o início de 2017. Sabe-se agora que "Beginning Hour" não estará presente na versão final do jogo, que terá um protagonista diferente. Contudo, o que é que estes vinte ou trinta minutos nos podem dizer sobre o sétimo capítulo?


Não demorou muito a sentir que fazia parte de um recreio sinistro construído pela produtora para ser explorado exaustivamente, até que não houvesse milímetro desta casa abandonada por explorar, agora na primeira pessoa. Na pele de um operador de câmara que acompanha um pivot de televisão que está desencantado em ter que gravar aquele filme, estamos sempre onde a Capcom quer, seja a jogar a própria demo, seja a elaborar teorias pela Internet fora.

Ainda que o cenário seja curto, está pejado de pormenores. Há itens para apanhar, um fusível que quando inserido no sítio certo permite baixar as escadas e aceder à parte onde um telefone toca - e onde é possível ouvir mais que uma mensagem; há um machado que parece estar ali apenas para indiciar uma das mecânicas que estará no jogo completo, há o dedo de um manequim que - ainda - está a mobilizar a curiosidade e a astucia da Internet.


Tudo isto teve o efeito desejado: colocar a comunidade a falar da demonstração e, consequentemente, impregnando no cérebro a notícia que haverá um novo Resident Evil no início de 2017. Ao explorar a casa abandonada, puxando alavancas secretas na chaminé, procurando o vídeo para colocar a cassete e ver o seu conteúdo, ao perceber que há uma fotografia misteriosa, ao fazer isto tudo são várias as referências que saltam imediatamente à memória, o que não é necessariamente mau se a Capcom souber aproveitar essas influências e edificar algo sobre elas, ou seja, que seja a evolução de tudo isso e não apenas um clone dos jogos de terror do momento.

Há aqui o grão de P.T. e de Outlast, o que desde logo demarca a amostra do sétimo capítulo dos recentes jogos da série, contudo, há também uma piscadela de olho a The Blair Witch Project, mais concretamente ao seu final. Quando descemos ao patamar inferior é possível ver o outro membro daquela equipa de filmagens virado para a parede imóvel, o que, além de me fazer as palmas das mãos suar enquanto me aproximava, fez-me pensar na tensão, na eletricidade que apenas aqueles segundos continham e o quão longe estava da savana de Resident Evil 5.


É muito, muito provável que durante esta meia hora haja pelo menos uma situação em que vão saltar da cadeira, ou em que pelo menos vão fazer estremecer o DualShock 4. Isso é um choque, um baque rápido como se remove um penso; é assinalável e contundente, mas serve para sorrir pouco depois. Aquele momento à Blair Witch causa muito mais transtorno, é muito mais difícil de digerir. Sente-se o sangue a ferver e o desejo que o jogo completo pegue nesta linha de acontecimentos. Talvez menos ovos podres e mais momentos como este seja, afinal, o que a série precise.

Não se pode - nem se deve - fazer qualquer juízo já. Resident Evil 7 está em desenvolvimento desde 2014, segundo a própria Capcom, ou seja, há aqui muito tempo para a produtora estar atenta ao que de melhor se fez no género durante os últimos anos e às respetivas reações dos jogadores. Haverá herbs no jogo final, tal como, aparentemente, haverá um inventário. Ou seja, não devemos estar a apostar no atirar de tudo pela janela fora, mas sim no evoluir da série - como uma cobra continua a ser uma cobra mesmo depois de mudar de pele.


É facílimo perceber que tem tudo para ser um jogo polarizador. Do que joguei, passando várias vezes pela demo, admirando um trabalho técnico que consegue, sobretudo, criar uma atmosfera tensa - nem que para isso tenha que ir buscar os manequins de Condemned -, de um sistema de iluminação que mostra várias nuances da casa, fiquei sobretudo interessado em saber onde é que Resident Evil 7 se vai encaixar, pois poderá ser uma nova direção pejada de referências ao legado ou algo completamente novo.

Há a referência à Umbrella numa das fotografias, o que nos deixa perceber que não estamos perante a chegada a uma ilha. A Capcom não terá uma tarefa fácil pela frente, mas também não é uma tarefa impossível. Resident Evil 7 pode bem pegar no que resultou e piscar o olho a todas as referências mencionadas. É uma nova direção que me deixa com uma pergunta acima de todas outras: Será que o maior inimigo do novo jogo é ter Resident Evil no título?