Depois de uma pausa durante alguns meses, a rubrica semanal onde a equipa VideoGamer Portugal escreve sobre aquilo que tem andado a ver está de regresso, com três membros a tecer considerações sobre um filme, uma série e um documentário.
Pedro Martins teve oportunidade de ver El Camino: Um Filme Breaking Bad, película que chegou ao catálogo da Netflix na passada sexta-feira e que mostra durante quase duas horas como foi a vida de Jesse Pinkman depois do final da série criada por Vince Gilligan.
Também no catálogo da Netflix andou Filipe Urriça. O redator optou por ver os primeiros episódios de Desencantamento, a série animada que saiu da mente de Matt Groening, nome que normalmente é associado a Simpsons e também a Futurama.
Finalmente, além de trabalhar as imagens que ilustram este artigo e também os textos que são publicados no VideoGamer Portugal, Marco Gomes dedicou parte da sua semana a visualizar David Lynch: The Art Life. Como o próprio nome indica, estamos perante um documentário que olha para a vida do realizador que assinou obras como Inland Empire, Mulholland Dr. e Twin Peaks.
Pedro Martins, El Camino: Um Filme Breaking Bad (Netflix)
Suspeito que muitos fãs de Breaking Bad tenham reservado parte do seu fim de semana para verem El Camino: Um Filme Breaking Bad. Foi precisamente isso que fiz. Ao longo de quase duas horas, Vince Gilligan escreve e a realiza o que pode ser descrito com uma tour de Jesse Pinkman (Aaron Paul) com o seu passado enquanto tenta encontrar um futuro.
Há inúmeros segmentos que fazem o tempo recuar, não só mostrando partes narrativas que complementam os acontecimentos da série, como enchem os fãs de nostalgia, passando em revista personagens e até cenários que há muito deixaram saudades. El Camino começa nos momentos que a série termina, ou seja, estamos perante uma versão de Pinkman que esteve preso e que foi abusado. O filme mostra também uma personagem a renascer enquanto sofre com essa temporada em cativeiro.
A principal valência da obra, além de uma realização segura de Gilligan (não faltando os planos que brincam com a perspetiva dos cenários), é fazer com que os fãs sintam que o co-protagonista de Breaking Bad encontrou paz, ou pelos menos a paz possível. Há alguns momentos emocionais (como as cenas com os pais de Jesse) e outros que não fazem muito pela obra (especialmente algumas cenas que se demoram em demasia), porém, é uma obra com uma cadência que nunca é demasiado frouxa.
Quanto menos souberem sobre quem marca presença - ou não - melhor, mas importa sublinhar que as performances de Jonathan Banks (Mike), Matt Jones (Badger) e de Charles Baker (Skinny Pete) são uma continuação do que já tinham feito na série. O grande destaque é o próprio Aaron Paul, que vai equilibrando a raiva e a saudade com um alcance irrepreensível - chegando mesmo a ter uma cena cómica quando a polícia é chamada.
Pode não ser o melhor filme de 2019, mas certamente não é esse o propósito de Gilligan e da própria Netflix. Os fãs de Breaking Bad devem ver a obra e eu julgo que ficarão de uma forma geral satisfeitos com os novos desenvolvimentos e com o desfecho, que pode perfeitamente ser usado para mais material novo. É curioso perceber que, mesmo após estes anos, a nossa ideia de personagens como Todd (Jesse Plemons) não mudou, tal como não mudaram as incontáveis memórias e saudades que esta série deixou.
Filipe Urriça, Desencantamento (Netflix)
Já visualizei dois episódios da segunda parte da primeira temporada de Disenchantment e estes não auguram nada de bom para restantes. Espero estar bem enganado.
Essencialmente, este par inicial de episódios serviu para colocar o trio de protagonistas - Bean, Luci e Elfo - novamente junto. A partir daqui, já antevejo o que irá acontecer. É muito provável que se vinguem da Rainha Dagmar ou que venham a estar em busca de uma solução para as vítimas de Dreamland.
Os desenhos estão bem conseguidos, Matt Groening continua a entregar uma arte cómica que começou nos Simpsons e aperfeiçoou em Futurama. Mas a essência do seu trabalho - o humor de situação, a comédia satírica e a paródia à cultura popular - está enfraquecido. Há momentos que dão para rir ligeiramente, mas nada que nos faça pensar na causa do riso após o fim do episódio.
É também provável que seja cada vez mais difícil fazer rir um público que o acompanha há várias décadas, mas dada o conceito de humor de Groening, é mais fácil acreditar que está a ficar menos capaz de surpreender com o seu trabalho.
Se fosse possível, pessoalmente, os Simpsons já tinham terminado e Futurama teria continuado. Disenchantment está a ser uma desilusão, espero sinceramente que os oito episódios que faltam me façam mudar de opinião.
Marco Gomes, David Lynch: The Art Life (DVD)
Servindo para compor o ramalhete da obra cá projetada e editada, embora, refira-se com infelicidade neste último caso, restrita atualmente aos filmes mais emblemáticos, dedicou a Midas Filmes uma pequena caixa (dois DVD) a David Lynch, criador multifacetado e um dos poucos realizadores de culto vivos do cinema norte-americano.
O primeiro dos discos contém o documentário de oitenta e cinco minutos David Lynch: The Art Life – A Vida Arte (2016), objeto deste texto, ficando a compilação de suas curtas-metragens para análise posterior, se tudo correr a preceito, na semana vindoura.
Já o tendo apanhado nas últimas em televisão, serviu a oportunidade para ver no formato completo o ensejo do trio Jon Nguyen, Olivia Neergaard-Holm e Rick Barnes, por sinal, objeto-paradoxo face à expetativa. Etiquetando de clássica a abordagem técnica e compositiva, de calças na mão apanhará a generalidade dos espectadores furtando-se ao óbvio temporal, o período de notoriedade através de películas como Veludo Azul (1986), Estrada Perdida (1997), Mulholland Dr. (1999) ou a temporada original da série televisiva Twin Peaks (1990-91).
A Vida Arte é dele o antes e o agora com um denominador comum, as artes plásticas, conduzindo-o à primeira longa-metragem, No Céu Tudo É Perfeito (1977), desconchavada intitulação lusa para Eraserhead, e o sossego -menor evidentemente ao fazer cinema- que a entrada na casa dos setenta lhe vai o corpo pedindo.
Um episódio relatado demonstra para Lynch a ligação de continuidade entre dois veículos expressivos de requisitos, aparentemente, tão díspares. No cubículo atribuído a cada aluno para desenvolver o trabalho artístico, em frente a uma tela de negro pintada imaginou o autor um quadro em movimento e com som, instinto primevo que o levaria à fita como um suporte mais para a imaginação.