Bom feriado. Este domingo de temperatura baixa e de uma mistura entre nevoeiro e chuva, é o momento ideal para dar uso ao televisor. Ontem já tínhamos escrito algumas sugestões para o que podem jogar e agora chegou o momento das recomendações sem teclado, rato ou comando.
O Pedro Martins acedeu à proposta da Netflix e dedicou mais de três horas a ver O Irlandês. É verdade que a extensa longevidade da nova obra de Scorsese pode intimidar, mas segundo ele vale bem a pena dedicar-lhe o vosso tempo para ficarem a conhecer vidas fora das regras e todas as ramificações que têm na sociedade em várias gerações.
Posteriormente, podem ler a participação de Marco Gomes, que escreve este domingo sobre Não Sei Se Canto Se Rezo. É uma obra dedicada à fadista Argentina Santos. FInalmente, o Filipe entra em cena para escrever sobre As Serviçais, obra com Octavia Spencer, Viola Davis e Emma Stone que arrebatou o redator.
Pedro Martins, O Irlandês (Netflix)
Todos os leitores que têm uma conta Netflix devem ver O Irlandês. Podem sentir-se desencorajados pelo tempo que demora - três horas, vinte e nove minutos - mas acreditem que é uma daquelas películas que vai ficar com vocês durante muito, muito mais tempo. A Netflix não tem propriamente um registo de grandes filmes, mas Martin Scorsese assina um dos melhores filmes que vi em 2019.
O Irlandês é Frank Sheeran (Robert De Niro) e é ele que conta a sua história de como entrou e subiu num mundo que estava longe de ser o seu. Quem matou está presente, mas o argumento dá-lhe enquadramento, mostra-nos a dinâmica de como a confiança foi conquistada e perdida, de como Frank se tornou uma rocha entre conflitos enquanto lutava para ser o mesmo no seio da sua família.
A longevidade da película permite vários planos no tempo, ou seja, Frank e quem o rodeia aparece em diversos momentos das suas vidas. Isto é incrivelmente eficaz, pois deixa o espectador compreender quem foi este homem, mas também o peso que as suas ações tem no plano mais avançado da sua vida.
Além de De Niro, o elenco conta também com Joe Pesci como Russell Bufalino e com Al Pacino na pele de Jimmy Hoffa - entre muitos outros nomes de peso, que vão de Ray Romano a Bobby Cannavale, passando por Jesse Plemons. É uma parada de estrelas, que muito provavelmente graças ao talento e renome de Scorsese dão tudo o que têm.
Ver De Niro e Al Pacino a contracenar, por exemplo, é um privilégio. Perceber como Scorsese conta um épico com mão segura, sem nunca o deixar chegar a terras de aborrecimento, mas demorando todo o tempo necessário para que os crimes, as intrigas, as reputações e os remorsos ganhem um volume inequívoco. Com tempo e calma, vejam O Irlandês.
Marco Gomes, Não Sei Se Canto Se Rezo (DVD)
Por ser difundido a horas pouco católicas, ouvia há dias um podcast de um programa da Antena 2 onde a radialista manifestava surpresa pelo facto de num álbum recentemente lançado, “No Monte das Oliveiras” de Cardo-Roxo, ter sido uma das faixas baseada na recolha feita para a, digamos assim, segunda temporada de “O Povo Que Canta”, transmitida originalmente em 2001 na RTP1 e disponibilizada em formato DVD em 2009.
A pegada autoral é em alguns casos desproporcional entre caminho percorrido e os passos que outros lhe reconhecem. Assim sucedendo com Ivan Dias, principal responsável por aquela em parceria com Manuel Rocha. Um desses exemplos de superação pelo pragmatismo nas valências, alijando o frouxo talento com capacidade de trabalho e espírito de iniciativa.
O DVD que estas linhas destacam contém não apenas o documentário presente no título mas também Um Legado Português (2013), testemunho periférico do referido no anterior parágrafo. Tendo por enfoque a classificação do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, veio precisamente um dos empurrões à bem-sucedida candidatura da visibilidade de Fados (2007) de Carlos Saura, filme do qual, para além de co-produtor e co-argumentista, foi Ivan Dias principal impulsionador.
Não Sei Se Canto Se Rezo (2013), por sua vez, é o registo achado em falta para com um dos nomes imortais do Fado no feminino, Argentina Santos, partida de nosso convívio no passado dezoito de Novembro aos noventa e cinco anos. Transversal à obra do criador, tem por mérito derradeiro ser levado à prática não obstante cumprir serviços mínimos de expetativa, incluindo na exagerada padronização do formato, até porque, se há destinos que fornecem matéria para a imaginação, o da visada seguramente é um deles.
Filipe Urriça, As Serviçais (Videoclube NOS)
Octavia Spencer, Viola Davis e Emma Stone protagonizam uma história que tem tanto de cómico, como de profundamente comovente. Tate Taylor realizou um filme onde o problema do racismo nos anos sessenta, nos Estados Unidos, é colocado em evidência.
Felizmente, não foi uma película feita à pressa e, apesar de contrastante, consegue colocar genuínas situações hilariantes e dramáticas num tema tão forte como o racismo. A narrativa coloca uma jovem que quer ser uma escritora e, após ter visto como é que algumas serviçais afro-americanas são tratadas pelas suas patroas, decide contar uma história de injustiça baseada nestes factos.
O argumento podia ter muito bem sido totalmente dramático, focando-se nos abusos que estas serviçais sofriam todos os dias. Mas o tom pontualmente humorístico, suaviza a narrativa, tornando-a mais acessível de assimilar sem perder detalhes do que quer contar.
No cômputo geral, As Serviçais é um muito bom filme, não admira que tenha sido nomeado para quatro Óscares e vencido um. É pena que Octavia Spencer e Viola Davis não mantenham um registo semelhante a este.