Atenção: Este texto contém spoilers significativos para Emily is Away e Emily is Away Too, pelo que recomenda-se que apenas o leiam após concluírem ambos os jogos.
Emily is Away é uma experiência muito especial. Um daqueles títulos que merece ser jogado pelo máximo de pessoas possível - e não existe qualquer razão para não o fazerem, uma vez que o jogo é gratuito. Uma obra que não me importaria de ter a oportunidade de experienciar pela primeira vez novamente se tal fosse possível. Não é segredo nenhum que a sua sequela era um dos meus jogos mais aguardados de 2017 e agora que chegou finalmente ao mercado, é impossível não considerar que estamos perante mais um caso da denominada sequelite.
Como escrevi na análise a Emily is Away Too, o segundo título de Kyle Seeley expande o conceito do jogo original, entregando uma experiência mais longa e com uma maior diversidade de conclusões. Contudo, mais ambição e conteúdo não é sinónimo de mais qualidade. Esta sequela tem o mérito de conseguir captar e recriar a magia do original, mas peca claramente no momento de se diferenciar do que já foi feito antes, não conseguindo ter o mesmo impacto e capacidade de surpreender o jogador do título lançado em 2015.
Tanto Emily is Away como Emily is Away Too servem-se da nostalgia dos jogadores para oferecer o que se pode considerar um simulador de tardes passadas em frente ao computador em conversas com amigos de escola, e não só, no AOL Instant Messenger, no MSN Messenger ou até mesmo no Skype ou Facebook se forem mais novos, e nesse departamento não ficam a dever nada um ao outro. Os problemas surgem quando a sequela tenta distanciar-se do antecessor através de momentos de decisão forçados e de conclusões que quebram com o que foi apresentado anteriormente.
Apesar de diferenças em alguns dos tópicos narrativos que a sequela aborda e de desta vez termos duas personagens com as quais podemos interagir, não existe como negar que o cerne da experiência mantém-se extremamente semelhante e familiar entre os dois títulos. Isso não é necessariamente um problema, muito pelo contrário. Afinal de contas, é nos elementos comuns às duas obras que o segundo capítulo da série mais brilha. Infelizmente, após concluída a experiência, fica a sensação de que acabamos de jogar Emily is Away novamente, mas desta vez com um final mais feliz.
Uma das principais razões pelas quais o título gratuito teve um impacto tão acentuado junto dos seus jogadores foi, mais do que toda a carga nostálgica que rodeia a aventura, a forma genial como jogou com as nossas emoções nos seus minutos finais. Depois de vários capítulos e conversas passadas a desenvolver a relação entre o protagonista e Emily, o jogo decide introduzir um pouco mais de realismo na experiência ao roubar-nos o controlo do protagonista que, no momento da verdade, ignora as nossas escolhas de diálogo e perde a coragem para dizer aquilo que lhe vai na mente e coração, fazendo a obra desembocar num final altamente deprimente.
Independentemente das vossas decisões e escolhas de diálogo, o final permanece constante, o que significa que todos os jogadores sofrerão de igual forma com o soco que a obra faz questão de usar para terminar a sua aventura. Ao roubar subitamente o controlo ao jogador, Emily is Away fá-lo perceber que nem sempre conseguem fugir à dura realidade através de experiências jogáveis em que as consequências e repercussões das sua ações são menores. O título fica com o jogador muito depois do seu final precisamente porque imita, para muitos daqueles que lhe derem uma oportunidade, momentos pelos quais passaram na vida real, voltando a colocar-lhes aquele frio na barriga e a deixá-los ficar a pensar no que poderia ter acontecido se tivessem tido coragem para verbalizar o que queriam ter dito.
Emily is Away Too não tem esse impacto, esse momento que eleva a experiência para algo mais especial e diferente de tudo o resto. Emily is Away Too deixa-nos viver a fantasia, deixa-nos atingir e obter aquilo que falhamos miseravelmente no título original, deixa-nos saborear a outra versão desta história, o outro desfecho, o final que todos desejaríamos ter obtido na realidade, mas que nem sempre conseguimos. Não existe problema nenhum em fazer isso, mas o resultado final traduz-se em conclusões demasiado abruptas que não aparentam ser verdadeiras, que aparentam ser demasiado perfeitas.
Tal como disse na análise, a qualidade e a magia proporcionada pela nostalgia continuam bem presentes aqui, mas é tudo demasiado familiar para compensar o final menos impactante. Seria interessante jogar uma obra do género que pegasse e fugisse com este mesmo conceito e criasse uma experiência que fosse para lá dos romances da era digital. Algo que alargasse significativamente o leque de personagens com as quais podem conversar e que oferecesse uma aventura mais robusta, com maior liberdade para o jogador e que dessa forma pudesse abordar outros temas de forma mais alargada e competente. Até que ponto tal obra alguma vez verá a luz dia não faço ideia, mas seria uma proposta interessante com base num conceito que já provou ser eficaz.
Dito tudo isto, Emily is Away e Emily is Away Too são duas obras sem igual que merecem a vossa atenção - e espero sinceramente que as tenham jogado antes de lerem este texto. A sequela não tem o mesmo impacto, nem consegue ser tão especial como o original, mas mantém a qualidade em níveis elevados e isso era o mais importante. Se haverá algo depois destes dois títulos ainda não se sabe, mas a acontecer, será preciso que ofereça algo mais do que apenas mais do mesmo.