Este artigo contém spoilers. Continuem a ler apenas se já tiverem concluído a história principal de The Last of Us.

A semana que passou ficou marcada pela revelação de algumas informações sobre os planos iniciais da Naughty Dog para a narrativa de The Last of Us. O título foi incrivelmente bem recebido pela crítica, tendo inclusivamente conseguido obter a pontuação máxima na análise do VideoGamer Portugal e a distinção de "futuro clássico", mas aquilo que o elevou a este estatuto foi sem dúvida o seu arco narrativo e a forma como os jogadores se relacionaram, identificaram e unificaram com as suas personagens.

No entanto, os detalhes e imagens revelados recentemente permitiram-nos perceber que a história que chegou à nossa PlayStation 3 no passado mês de junho é muito diferente daquela que tinha sido originalmente delineada por Neil Druckmann, Diretor Criativo, e Bruce Straley, Diretor de Jogo, aquela que eu mesmo disse ser uma das melhores histórias alguma vez contadas em videojogos na minha extensa análise ao seu arco narrativo.


Segundo as informações avançadas por Druckmann à Game Informer, a visão inicial para a narrativa tinha Tess, companheira de armas de Joel, como a principal vilã do título. Por motivos ainda por revelar, o protagonista acabaria por trair a dada altura a sua companheira que embarcaria assim numa demanda por vingança, perseguindo o duo de protagonistas por toda a América. Ao que parece, a versão original de Tess tinha um passado bastante mais negro que se acabaria por fazer notar na fase final da narrativa.

Embora esta opção de ter Tess como principal inimiga possa até parecer interessante, tal como o próprio Diretor Criativo afirmou, assumir esse rumo na história não era verdadeira para com as personagens: Porque razão haveria Joel de trair Tess?; Qual seria a justificação para Tess percorrer toda a América pós-apocalíptica em busca de vingança?; E mais importante ainda, qual seria a motivação de Joel para transportar Ellie? Aliás, uma das razões apontadas para a mudança no papel de Tess na narrativa foi mesmo fazer dela um veículo emocional capaz de apelar ao coração de Joel, oferecendo-lhe a motivação para levar Ellie até aos Pirilampos. Tess é sem dúvida uma das personagens femininas mais fortes dos videojogos e fazer dela a principal vilã não me parece que fosse dar o mesmo impacto a este elemento do título. Por isso, para mim esta alteração foi muito bem-vinda. O último desejo antes da sua morte é um momento que tem tanto intenso como de verdadeiro, transmitindo em poucas palavras toda a afinidade e vivências partilhadas entre Tess e Joel.


Ellie tinha também um comportamento diferente do que se veio verificar na versão final do título. Inicialmente, a protagonista recusava-se a matar qualquer pessoa que não estivesse infetada. Isto levaria a que dois dos momentos de maior impacto no jogo e que contribuem para a construção da relação entre ela e Joel nunca pudessem acontecer no arco narrativo inicial. Falo como é óbvio do primeiro momento em que Ellie salva o protagonista no hotel e o momento em que esta mata David. Estes momentos seriam então substituídos por um final que nos mostrava a Ellie a matar Tess depois de esta torturar Joel, levando a jovem rapariga a matar pela primeira vez um não infetado. Felizmente, esta ideia também acabou por ser abandonada, fazendo com que Ellie assuma um papel mais preponderante durante os momentos de combate que não aconteceria se esta se recusasse a matar não infetados e que faria com que a protagonista ficasse completamente esquecida durante estes momentos.

Druckmann revelou também que o final originalmente planeado transmitia uma sensação de maior esperança e que levava Ellie e Joel até San Francisco - relembre-se que uma das primeiras imagens de arte do título era da cidade norte-americana que nunca chegou a fazer parte do produto final - onde um grupo de pessoas tenta reconstruir a sociedade. A ideia seria contrabalançar o momento negro com Tess com uma espécie de final "felizes para sempre", algo que não só não parece ser uma opção realista no mundo devastado de The Last of Us como deixaria todas as ações de Joel passar em claro.


Apesar de o final que nos foi entregue ter sido considerado dúbio e anticlimático, devido à mentira de Ellie e ao facto de aparentemente esta aceitar a mesma, a minha opinião é que este final assenta que nem uma luva em toda a experiência que é o título da Naughty Dog. O final tem várias interpretações diferentes que dependem da forma como o jogador viveu a narrativa e em momento algum ficamos com a sensação de que os nossos protagonistas estão finalmente livres de qualquer tipo de perigo ou complicações, algo que nunca acontecerá neste mundo pós-apocalíptico.

De uma forma geral, fico bastante satisfeito por todas as alterações feitas ao arco narrativo de The Last of Us, pois talvez se estas não tivessem acontecido poderíamos não ter visto o título ser tão aclamado como acabou por acontecer. Não quero com isto dizer que a história não continuasse a ser bastante boa, mas certamente não atingiria o patamar de qualidade que tivemos oportunidade de desfrutar. Ainda assim, Neil Druckmann e Bruce Straley já confirmaram que vão ter o seu próprio painel na PAX no dia 30 de agosto, onde explicarão tudo sobre o enredo inicialmente planeado para o jogo e como explicaram o conceito do projeto à Sony. Resta-nos esperar até lá para podermos ficar com uma ideia mais correta sobre o que poderia ter sido The Last of Us se a narrativa inicial tivesse sido seguida.