Os jogos difíceis não são para todos, muitos não conseguem ver o apelo da nossa personagem morrer vezes sem conta e ter de aprender com os seus próprios erros. Há um nome para isto: frustração. Não quer dizer que o público que adora este tipo de jogos - como Super Meat Boy, Shovel Knight ou Spelunky -, esteja livre de a sentir, mas em vez de desistirem, tentam aprender e ultrapassar todas as dificuldades que surgirem pela frente.

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O título da Nicalis, em desenvolvimento com a produtora original 8 bit fanatics, Aban Hawkins & 1001 Spikes é um esforço redobrado na obra lançada para o mercado digital da Xbox 360. É incrível pensar como é que estas duas equipas conseguiram alcançar algo que muitas produtoras recém-criadas de desenvolvimento independente sonham em lá chegar. Poderiam ter-me dito que 1001 Spikes foi publicado na NES que eu, caso não pesquisasse sobre tudo o que me chega para analisar, acreditaria.

Contudo, ao contrário de muitos jogos da era NES, 1001 Spikes não é um jogo que nos faz sentir traídos pelos seus controlos, ou seja, não será um dos aspetos que vai aumentar a sua dificuldade, logo só temos que aprender os mecanismos da sua jogabilidade e o jogo correrá sempre da melhor forma. Porém, não é algo que anula o facto de terem de perder inúmeras vezes ao longo dos seus níveis.

A história não é o grande motivo pelo qual não vão largar 1001 Spikes, mas serve sobretudo como contexto pelas vossas aventuras nos restos de civilizações antigas da América do Sul. O protagonista é Aban Hawkins, um jovem sem rumo na vida que quando recebe a notícia que o seu pai desapareceu e foi dado como morto numa das suas expedições a Ukampa, este resolve averiguar por ele próprio a veracidade deste acontecimento. "Tal pai, tal filho", como diz o ditado popular e neste caso, Aban vai seguir os passos do seu pai e explorar as ruínas e templos sul-americanos até que encontre o seu progenitor, ou pelo menos até encontrar o mítico tesouro destinado aos que conseguirem escapar de lá com vida.

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Depois de chegar às florestas tropicais, que nem um autêntico Indiana Jones, vão passar pelo tutorial para iniciarem e conhecerem o básico do jogo. Os controlos são simples, além do movimento horizontal: têm dois botões para saltar (um mais alto que o outro) e mais um para lançar facas. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para evitarem as armadilhas de variada natureza que vão encontrar pelo caminho.

Como o título indica, há espigões para vos empalar numa queda falhada ou se não andarem rapidamente quando vos é pedido. Todavia, se pensavam que o número pertencente ao título representava o número de espigões ensanguentados à vossa espera, enganam-se. Estes representam a quantidade de vidas que terão à vossa disposição até ao fim do jogo. O número de vezes que vos será permitido falhar.

Mil e um pode parecer um número grande, mas é tudo uma questão de perspetiva. Ao longo das minhas sessões, esse número pareceu-me cada vez menos generoso. Morrer é uma inevitabilidade e sempre que acontece regressam ao início do nível até conseguirem uma ligação com este, descobrindo a sua lógica e entrarem pela porta de saída.

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Atravessar cada nível é realmente difícil e não é para qualquer um. Se são jogadores impacientes, os erros que vão cometer vão-se notar cada vez mais cedo. A chave para ultrapassar estes desafios é ler cada nível à medida que avançam. Imaginem que tivessem de ler Braille, só depois de passarem os dedos pelas saliências é que saberiam as palavras e depois as frases. 1001 Spikes funciona, de certo modo, da mesma forma. A essência do jogo reside na leitura dos níveis e aprender a evitar todos os perigos que apresenta. E estes não são escassos. Desde abismos aos já mencionados espigões, diversas criaturas, blocos de pedra a caírem onde vocês se encontram, até mesmo fogo cuspido por esculturas de cabeça de dragão. O problema será encontrar porto seguro, pois existem armadilhas bem escondidas que vos apanharão de surpresa.

O mais frustrante, quando não se é cuidadoso ou não se tem ainda a noção do sadismo dos produtores do jogo, é quando se chega a centímetros da saída e um bloco que parecia seguro cede e nos faz ir de encontro a um chão repleto de espigões bem afiados. Mas é neste ponto, onde o pano caiu e está tudo a descoberto, que fazemos o nível sem erros e chegamos ao nosso destino com uma gratificação enorme. 1001 Spikes é exatamente o que descrevi agora, nível a nível. Cometer erros até descobrir tudo o que o local esconde, evitar ao máximo a repetição desses mesmos erros e chegar ao final com um sorriso na cara, um regozijo enorme de saber que saímos, literalmente, vitoriosos de mais um desafio.

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A escolha de manter a arte gráfica do original que foi lançado no Xbox 360 Indie Games faz todo o sentido. Além de estar pejado de detalhes belos por todos os cenários de diversos estados da natureza, desta forma não estamos a ser informados de onde se encontram os perigos e somos apanhados por surpresa, pode ser desencorajador avançar nestas circunstâncias, mas o jogo é assim desde que puseram pé no templo de Ukampa. A música consegue também capturar bem a nostalgia que o título traz consigo, mas acaba por ser um pouco irritante ouvir os mesmos sons sempre que perdemos mais uma vida.

A versão para análise foi a Nintendo 3DS, porém esta não é das melhores a adquirir, pois não tem os modos multijogador, nem alguns modos, que tem a versão PC, por exemplo. É pena que assim seja, mas é importante que os nossos leitores tenham esta consideração, na eventual hipótese de poderem escolher mais do que uma plataforma para adquirir este título.

Aban Hawkins & the 1001 Spikes é genial, uma obra que fará recordar-vos dos bons momentos das consolas retro, ou se são jogadores que tiveram contacto com essas peças de hardware poderão perceber facilmente o porquê de o entusiasmo ser tão vincado nos jogadores veteranos. Não é uma obra recomendada a todos, se não têm a paciência requerida e preferem a gratificação instantânea que alguns títulos mais modernos oferecem, então o melhor será guardar o vosso dinheiro para outro título. Todavia, se tiverem uma mente aberta, ou a ousadia, para experimentar algo fora do vosso espetro de escolhas, 1001 Spikes é o título acertado.