É fácil alegar que não há falta de videojogos sobre a guerra. Seja apoiando-se em factos históricos ou tentando adivinhar como será um eventual conflito no futuro, os jogadores têm incontáveis propostas inseridas nesta temática. 11-11: Memories Retold é uma obra sobre a guerra, mas bastante diferente do que chegou ao mercado antes do lançamento.

Desenvolvido em conjunto pela produtora francesa DigixArt e pela Aardman, casa de animação conhecida sobretudo pelo trabalho feito na séries e nos filmes Wallace & Gromit, estamos perante dois heróis que são levados a participar em terríveis eventos que mudam a sua personalidade e a sua postura perante aqueles que deixaram para trás, mas que nunca esqueceram.

Aliás, 11-11: Memories Retold vive muito das ligações entre o palco da guerra e as vidas que ficaram à espera. Estes heróis são Harry, um jovem fotógrafo que embarca até França depois de ter sido convidado por um Comandante para documentar com a sua máquina fotográfica os avanços que a facção está a fazer, e Kurt, um alemão que se vê forçado a alistar para procurar o seu filho.

Enquanto Harry tem na máquina fotográfica o elo de ligação ao amor da sua vida que deixou para trás, Kurt escreve à sua mulher para a atualizar sobre o paradeiro do filho. Ou seja, o jogo faz questão de ilustrar estes dois anos na guerra - mais concretamente, na Frente Ocidental durante a Primeira Guerra Mundial - como um meio para diferentes fins: os protagonistas não estão aqui para matar, mas sim para melhorar as suas próprias vidas.

A obra continua a sua peculiar abordagem à guerra nos processos que compõem a sua jogabilidade. Não esperem pegar numa metralhadora ou sentarem-se aos controlos de um tanque e espalhar morte por onde passam, pois o cerne de 11-11: Memories Retold é o seu arco narrativo. Podem correr e agachar-se, podem falar com inúmeras personagens, jogar cartas, procurar e interagir com objetos, vasculhar os cenários à procura de colecionáveis, perseguir gatos, escutar conversas e participar noutros minijogos, podem tirar imensas fotografias a pontos que acharem interessantes enquanto tiverem rolo disponível, mas não esperem estar perante um título que exige habilidade enquanto olham pela mira.

Não será uma abordagem que agradará a todos, especialmente aos fãs dos moldes mais tradicionais deste tipo de títulos. E mesmo sem complicar os seus processos em demasia, sente-se ocasionalmente o ritmo da aventura a ser demasiado lento, especialmente quando há a repetição dos processos com um espaçamento demasiadamente reduzido, o que pode levar a uma saturação temporária e escusada.

Todavia, a complexidade que não tem na jogabilidade, 11-11: Memories Retold apresenta no seu arco narrativo. Reparem que jogar com diferentes protagonistas é normalmente um indício que os seus caminhos se vão tocar. O que as produtoras fazem com mestria é, não só dotar o argumento com uma escrita sólida, confiante e certeira na hora de não poupar os jogadores, mas combinar esse mesmo argumento com um estilo gráfico que resulta na perfeição na hora de elevar o jogo a um pedaço de arte memorável e até didático.

Com o passar das horas, o jogador vai sentindo que nem tudo é o que parece, que o início dos dois protagonistas na guerra como alguém que estava convencido que iria ser algo rápido e quase satélite, é muito mais complexo do que isso. Os cenários mudam, as intenções de quem manda também, a procura e o desespero vão aumentando enquanto à sua volta a esperança diminui quase a cada passo que é dado.

A escrita, além de se alavancar de momentos históricos, revela a sua qualidade quando está a dar profundidade a estas personagens, com o jogador a ser chamado a intervir na hora de conduzir o arco narrativo graças a algumas escolhas que não só são complicadas, como influenciam a forma como estas almas se relacionam, vivem e sobrevivem perante os outros, mas também perante os seus actos. Não chega à brutalidade de obras como Overlord, mas é um argumento que faz, obrigatoriamente, parar para pensar e que fica com o jogador muito mais que outros títulos que abordam a guerra quase como se fosse uma pastilha elástica.

Tudo isto é apresentado num estilo gráfico que, como podem facilmente perceber pelas imagens que acompanham este texto, é bastante peculiar. Colocando a perseguição do fotorrealismo de lado, em 11-11: Memories Retold o estilo gráfico faz lembrar muito mais um quadro em movimento, como se Monet tivesse sido um guia. É uma aposta tão arriscada quanto acertada e o resultado final é um videojogo com um carisma único, com cenários, que ilustram sobretudo França, mas que se estendem ao Canadá e à Alemanha, que não serão confundidos com outro título que tenha o mesmo pano de fundo.

E ainda assim, ainda sem os pormenores que encontram noutros jogos, a atmosfera está cá toda, sendo um título que não se exclui de ser bastante cru em algumas representações, confundido quem joga com a beleza do estilo e a crueldade que esse estilo representa. É claro na hora de fazer a sua mensagem passar e emocionar quem joga sem nunca ter que levantar a sua voz com a inclusão de explosões que pareceriam saídas da mente de Michael Bay. 11-11: Memories Retold é muito mais erudito na sua representação de uma guerra que aconteceu.

No departamento sonoro, o destaque é a vocalização. As produtoras foram inteligentes e perceberam que para um título que depende tanto da narração dos protagonistas, o talento tinha que estar lá - e é exatamente isso que acontece. Harry conta com a vocalização de Elijah Wood e Kurt é vocalizado por Sebastian Koch. Ambos entregam performances muito acima do mero aceitável, não se notando que era apenas mais um projeto nas suas carreiras; estão os dois completamente aqui e isso faz as respetivas personagens elevarem-se e envolverem os jogadores no que têm a dizer durante o processo.

Ocasionalmente, 11-11: Memories Retold pode ser trapalhão na forma como executa a sua jogabilidade ligeira, mas isso não é uma falha primária porque, primeiro os momentos são ocasionais, e segundo porque estamos perante uma obra que desde o primeiro minuto coloca o seu foco no arco narrativo e no estilo gráfico. E aí, é um videojogo que não desilude e que prova que ainda há espaço para inovação, mesmo numa temática tão gasta e concorrida.