Reza Shirazi acabou por estar no epicentro, de câmara em riste, mostrando ao mundo o que passava. Não adivinhava o sangue, o fogo, os estilhaços, o rasto que estes dias deixariam, como uma passadeira estendida onde outros caminhariam. Reza é o protagonista de 1979 Revolution: Black Friday, uma experiência baseada em histórias, eventos e pessoas reais.

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Em vez de criar um mundo fantasioso, o videojogo da iNK Stories olha para o retrovisor do nosso, como um pai dá a mão à humanidade e lhe diz "vês, este é o nosso passado, a nossa história, o nosso legado". Como está implícito no seu título, estamos perante uma obra que versa sobre a revolução islâmica de 1979, vergando o jogador ao conhecimento, pedindo-lhe três horas do seu tempo até ver os créditos finais, incentivando-o a recorrer ao Google livremente após.

Sem ser paternalista e sem atirar o jogador desamparado para uma lição de história que já estava a decorrer, 1979 Revolution acompanha os acontecimentos em crescendo, a construção de um grito com milhares e milhares de vozes, um grito impossível de ser ignorado contra Reza Pahlavi, líder colocado no poder por várias potências ocidentais e regularmente acusado de práticas muito pouco saudáveis, que acabaria por cair, fugir e ser substituído por Ruhollah Khomeini.

A espinha dorsal do título assenta nos flashbacks que Reza tem na prisão de Evin enquanto é torturado por Hajj Agha. O jogo arranca com a captura de Reza em Janeiro de 1980, passa pela primeira sessão de interrogatório em Abril do mesmo ano, e só então é que se abre à mostra do seu miolo, dia 7 de Setembro, 1978, em Teerão. O protagonista chegou de estudar na Alemanha e, enquanto confraterniza com o seu amigo Babak, fala de raparigas - Hannah tem um fraquinho por rapazes iranianos - dos passos lendários de disco, e se aceitamos ou não uma cassete que acabou de chegar de França. Não é uma cassete qualquer, contudo. É o mais recente discurso de Khomeini, enquanto de braço estendido Babak lhe diz que "um novo Irão está a chegar".

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Um pouco renitente, um pouco sem saber no que estava a mergulhar, Reza, fotojornalista, começa a capturar momentos com a sua câmara, apontando e disparando momentos que o jogo faz questão de mostrar lado-a-lado com as fotografias reais, dando e nunca fazendo esquecer um sentimento de veracidade a tudo isto, a uma inegável e inquestionável sensação que estamos na senda do que já aconteceu, se não exatamente assim, de forma parecida.

As fotografias são acompanhadas de pequenos textos informativos, de didática eficaz. Alguns textos são sobre pedras basilares da revolução, como a Estátua do Rei em que nos é explicado que a revolução aboliu a monarquia que vigorava no Irão há 2500 anos, o banimento do chador e do hijab, ou alguns protestantes terem vestido imagens gráficas de alguns revolucionários assassinados, tornando-se "cartazes andantes".

Porém, estes pequenos textos dispõem também algumas curiosidades, como por exemplo o pão Barbari, ou avançando com alguns dados estatísticos: no início de Setembro, 1978, meio milhão de protestantes marcharam nas ruas de Teerão. A obra mostra também que, apesar de o povo iraniano estar investido contra o Xá, havia várias secções: o movimento religioso era composto por várias correntes ideológicas que apoiavam pontos de vista diferentes no radicalismo, conservadorismo, militarismo. E, também segundo 1979 Revolution: Black Friday, muitos dos apoiantes de Khomeini tinham um sentimento anti-América dirigido ao Governo dos EUA.

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No crescendo de ações nas ruas, a personalidade de Reza Shirazi é quase sempre dividida em dois sentimentos antagónicos: recorrer à violência, tantas vezes incitada por Ali, soldado e seu primo, ou uma abordagem mais pacífica, liderando as suas ações com a câmara, atitude quase sempre apoiada por Babak. Tal como nos jogos da Telltale, somos constantemente presenteados com o acto de escolher uma opção entre várias, mecânica que coloca o jogador diversas vezes entre a espada e a parede.

É verdade que esta mecânica está longe de ser novidade, o que não quer dizer que não seja eficaz. Ainda que algumas escolhas sejam subtis, há outras claríssimas: atirar ou não uma pedra? Decidir que apoiamos uma personagem ou outra? E nas secções que decorrem na prisão, contar a verdade ou permanecer de lábios cerrados? E se para tornar o panorama ainda mais tenso, à "conversa" em Evin fosse adicionado uma personagem que é importantíssima para o protagonista? Muda onde pressionamos com o rato? E que não se pense que há tempo infinito para se decidir, pois desde que as opções surgem no ecrã, 1979 Revolution é um jogo a perder.

O elenco é ainda composto por Bibi, Hossein, polícia e irmão de Reza, que vão criando tensões entre si, movimentando e mexendo este caldeirão, com o jogador a sentir que está a jogar algo que fugiu do controlo destas personagens, que está a testemunhar algo importante, definidor. Passamos pelo Cinema Rex, passamos pelas menções à SAVAK, vamos abrindo caminho por uma revolução em estado condensado e chegamos ao dia 8 de Setembro, 1978, e se já tinham percebido a primeira parte do título 1979 Revolution: Black Friday, ficamos agora a conhecer o que aconteceu na segunda parte.

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O tema é um manto que cobre o jogo, mas é preciso espreitar e não esquecer que há aqui um videojogo, há aqui mecânicas de interação. O processo de captura das fotografias de Reza "que deram esperança às pessoas" é composto por uma barra deslizante e dois semicírculos que se movimentam horizontalmente no ecrã, com o jogador a ter de temporizar o instante em que se formam e criam uma esfera verde para disparar a máquina. É um processo que não requer muita audácia, mas que fica aquém pela falta de liberdade que concede ao jogador, ou seja, só podemos captar fotografias nos pontos que o jogo acha interessantes, não sendo possível fotografar e recordar posteriormente momentos que nos suscitem curiosidade.

Também é possível observar com mais cuidado alguns objetos cujo interesse é, novamente, determinado pelo título - ainda que alguns momentos sejam genuinamente curiosos, como uma coleção de bobines a que podemos assistir, destacando uma visita já na reta final do jogo à casa Shirazi, onde participamos num jantar com os pais do protagonista e o seu irmão.

Outro ponto da jogabilidade que merece ser mencionado é a locomoção da personagem. Nota-se que não há um grande polimento. Se é suficiente para arruinar o cômputo geral da experiência? Não, não é. Mas ocasionalmente sentimos o movimento rombo, a mudança de direção no caminhar atabalhoada, o parar para reordenar os passos.

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1979 Revolution: Black Friday também não se apresenta em visuais de fazer cair o queixo. Disponível no Mac e no PC, mesmo com um computador capaz de lidar com o que a produtora pede, as texturas e as animações faciais não conseguem alcançar um patamar de excelência, e algumas situações em que estamos em frente a multidões, é facilmente percetível a duplicação do individuo para fazer número e dar volume à massa humana.

Alimentando este jogo de intenções, de indivíduos que se assumem líderes, de seguidores, dando rosto ao movimento, crescendo enquanto pessoas durante a revolução, vivendo e morrendo pela angústia patente no jogo, temos um elenco vocal com cartas dadas noutros meios: Reza é interpretado por Bobby Naderi (Argo), Babak por Omid Abtahi (Argo, Better Caul Saul), Ali por Nicholas Guilak (Investigação Criminal: Los Angeles), Bibi por Mozhan Marnò (The Blacklist, House of Cards), Hajj por Navid Negahban (Segurança Nacional). Ou seja, a produtora foi buscar nomes com experiência. É verdade que o nome não assina a prestação, contudo, a soma destes nomes resulta numa mescla de vozes capaz de levar aos ombros a urgência. A haver um destaque, seria o de Negahban, interpretando a personificação do mal enquanto pessoa.

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Os processos jogáveis de 1979 Revolution: Black Friday não são idílicos, mas também não são suficientemente trôpegos para o catalogar como um falhanço, sendo clara, sobretudo, a necessidade de polimento. Mas é inegável a experiência que o título proporciona, mostrando ao jogador o mundo. Mais do que existir em função de condenar, quer-se um portal para o descobrimento, para construir conhecimento sobre o que é mostrado, quanto mais não seja para saber se foi assim que aconteceu. Um jogador curioso deve ser um indivíduo mais informado.