Com 198X, a Hi-Bit Studios deixa que os jogadores acertem contas com as memórias que têm das suas juventudes. Retirará mais partido da obra quem cresceu com os salões arcada como miragens, pontos de fuga para mundos jogáveis que permaneciam inacessíveis de outra forma. Tem falhas diversas na execução, mas a chispa para a nostalgia está lá.

Como o título deixa perceber, estamos na década de oitenta, em Suburbia, com o arco narrativo a esforçar-se para contar a transição de Kid (personagem vocalizada por Maya Tuttle) entre a sua adolescência e as primeiras responsabilidades de jovem adulto. O argumento tem a intenção de mostrar essas dificuldades e de como os videojogos, para o protagonista como para muitos jogadores, também podem ser escapes atenuadores e libertadores.

O jogo edifica um protagonista com problemas de sociabilização e afogado pelo sentimento de não encaixar em nenhum dos ramos da sociedade. 198X tenta também mostrar o quão os videojogos, as vidas que vivemos temporariamente, podem ser inspiração para a resolução de problemas reais; o quão podem ser a compreensão para como começar a desatar um nó.

Contudo, há vários problemas na forma como a escrita chega até ao jogador. 198X intercala os momentos de desenvolvimento narrativo com trechos em que jogamos os títulos que Kid está a experimentar. Infelizmente, isto acaba por fragmentar, mais do que a mensagem, a forma como estas vidas vão adquirindo profundidade.

Na sua essência, acaba por ser um conto normativo, que não foge muito a tudo o que já vimos, jogámos ou lemos. Para fazer algo de novo ou, pelo menos, para fazer com mais profundidade, 198X precisava que Kid tivesse mais de protagonista e, sobretudo, que o núcleo da sua vida fosse exposto de forma incisiva e sem contemplações. De salientar que os momentos narrativos aparecem na obra sem qualquer controlo do jogador, ou seja, são caracterizados como cenas de vídeo.

Isto pode parecer um detalhe, contudo, uma vez que a jogabilidade está apenas presente nos títulos arcada, o fosso entre as duas faces de 198X acaba por ser ainda maior. A dissonância entre o que jogamos e o que vemos arrefece o entusiasmo com que vivemos aquela existência, sobrando as memórias sobre a nossa própria adolescência como um resquício do argumento.

Na outra parte de 198X - e descrever os seus processos como “partes” diz muito da hegemonia em falta entre ambas - estão cinco minijogos que servem como um quinteto de janelas para obras que ajudaram os videojogos a ter uma voz há anos, alguns ecoando ainda na atualidade. A escolha das “inspirações” é nobre e diversificada, mas também aqui há um sentimento de uma obra aquém.

Logo no início somos brindados com “Beating Heart”, uma versão de Streets of Rage, que qualquer fã reconhecerá nos primeiros segundos. Posteriormente, R-Type parece ter sido a inspiração de “Out of the Void”, um shoot ’em up em side-scrolling. “The Runaway” é um jogo de condução claramente inspirado em Out Run.

Finalmente, na recta final de 198X somos brindados com “Shadowplay”, um jogo de plataformas e ação também em side-scrolling, sendo que a inspiração desta vez foi obtida em obras como Ninja Gaiden. Finalmente e como os Role Playing Games não poderiam ser deixados de fora, temos direito a experimentar “Kill Screen”, amostra que nos fará percorrer corredores enquanto participamos em encontros aleatórios com monstros antes de encontrarmos e abatermos os três Bosses necessários para terminar a experiência.

O problema com esta compilação não é a jogabilidade, pois tal como já disse os géneros são dispersos e há uma base sólida em cada uma das propostas, ainda que nunca chegue a ser verdadeiramente profunda, nem mesmo em “Kill Screen”, bastando escolher o ataque certo para cada um dos tipos de inimigos. E a dificuldade também está minimamente bem equilibrada, ou seja, não esperem encontrar obras tão desafiantes e castigadoras como os originais.

Não, o problema está, novamente, relacionado com o tempo de antena que cada um tem. Quando estava finalmente confortável com os controlos, o tempo de Kid com determinado título chegou invariavelmente ao fim, transportando-me - e a 198X - de volta a mais uma cena não jogável. É um desperdício enorme de potencial, especialmente se tivermos em consideração que a Hi-Bit Studios teve o trabalho de começar a construir estes jogos.

É verdade que a base chega-nos de clássicos, pelo que não houve necessariamente um processo criativo muito exigente, mas ainda assim tanto o grafismo como a sonoplastia conseguem apresentar algo jogável e desfrutável em 2019 sem desfigurar a matéria-prima. As sprites e os sintetizadores fazem lembrar um produto que quase pode ser descrito como um remake de tempos idos.

Essa atenção ao grafismo está também presente nas cenas de vídeo. Escolhendo o pixel art para contar a sua trama, 198X revela um cuidado interessante com a contextualização de Suburbia, ou melhor, dos lugares que Kid visita e por onde se desloca. Planos diurnos que transportam a imaginação para os subúrbios; plano noturnos com a City (sim, é esse o nome da cidade principal) ao fundo, arranha-céus iluminados ao longe, como se tivessem sido atacados por pirilampos.

É um estilo gráfico que ajuda a tornar memoráveis alguns dos títulos, tal como em muitos casos já tinha feito nas propostas originais. Em “The Runaway”, correr contra o relógio sempre com um cenário detalhado ao fundo eleva o jogo, mais do que a jogabilidade. Outro dos exemplos é “Out of the Void”, sobretudo no design aplicado aos Bosses. Mais do que viver apenas para o deslumbrante, é um departamento técnico pejado de apontamentos.

Ficam então alguns momentos passados aos controlos destes títulos, particularmente pelas memórias que despoletam - não apenas dos salões de arcada, mas de uma adolescência banhada a videojogos. O que está no mercado de 198X é descrito como a primeira de duas partes, com a conclusão a ser esperada algures no próximo ano. Poderá ser uma continuação que aprendeu com a estreia, ficando a vontade de mais tempo com os jogos incluídos e de uma maior integração entre os jogos e os seus efeitos (sejam bons ou maus) que têm na existência de Kid.