por - Jan 12, 2016

Beyond: Two Souls Análise

Em Beyond: Two Souls há um escalar de acontecimentos que faz com que os jogadores fiquem para ver o que está atrás da porta narrativa seguinte: ocasionalmente revela desilusão, ocasionalmente surpresa, mas quase sempre o formar fácil de uma opinião. O jogo da Quantic Dream foi lançado originalmente na PlayStation 3 e recentemente teve novo sopro de vida ao ser publicado na PlayStation 4.

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Como provavelmente saberão, falar da produtora gaulesa é quase sempre falar de David Cage, seu fundador e adepto dos videojogos de auteur. Amplamente criticado e adorado, com uma aparente indiferença às críticas coloca a sua visão ao serviço de uma linha de videojogos facilmente identificada como pertença à sua casa. Longe de ter uma índole independente, este é um jogo que teve um largo orçamento e um milhão de unidades vendidas no seu ano de estreia.

Aproximadamente durante uma dezena de horas jogamos uma viagem emocional que nos conduz por vários pontos marcantes de um período de quinze anos da vida de Jodie Holmes, protagonista interpretada na versão original por Ellen Page. Há caraterísticas que não mudam com a transição de plataformas: Beyond é um discurso sobre a morte, o nascimento, a perda e o ajuste encapsulado numa alegoria à vida. Não há rodeios: Jodie tem um dom que lhe permite comunicar com Aiden, uma entidade sobrenatural. Como um cordão umbilical que nunca foi cortado, vamos controlando as duas personagens ao longo da aventura.

Uma das novidades mais salutares da versão PlayStation 4 é a possibilidade de podermos também jogar o arco narrativo segundo a sua ordem cronológica. Por design da produtora, a edição originalmente apresentava a trama saltitando entre os seus momentos marcantes, ou seja, estávamos expostos à importância que Cage e companhia decretaram. E esta ordem cronológica permite um acompanhar mais lógico, o que elimina algumas distrações e facilita a imersão e a compreensão da mensagem que a obra quer passar.

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Desde que Jodie era infante e confusa com o seu dom, acompanhamos o seu crescimento físico e sobretudo a sua maturação como personalidade. Os estudos de que foi matéria-prima, a adolescência, amores e desamores, a incursão na CIA e no campo de batalha, rebeliões variadas, momentos em que perde praticamente tudo, enfim, a norma fora da norma que será a vida de alguém intrinsecamente ligado a uma entidade que tanto ela como quem a rodeia tenta desesperadamente compreender.

Subtil como um pontapé na porta, esta cúpula acarreta personagens que estão lá para servirem de contrabalanço, com Nathan Dawkins, personagem interpretada por Willem Dafoe, a ser o mentor de serviço; Cole como desbloqueio de situações que fazem avançar a narrativa e que não podem ser resolvidas apenas pela protagonista; Ryan (também) como ingrediente amoroso que vai alternando entre fações, moldando a opinião que o público tem dele.

Ainda que não se esquive totalmente a clichés e a situações que prolongam a sua estadia, o argumento é minimamente apetecível, especialmente porque consegue explicar razoavelmente a componente fantástica, prolongando os momentos finais até que o jogador seja encurralado e tenha que fazer a escolha mais difícil do percurso. Existem vários desfechos possíveis, portanto é um dado adquirido que a produtora espera mais que uma passagem pela sua obra, ficando com cada um a força da curiosidade para o fazer ou não.

Antes de chegarmos a essa escolha, é imperativo mencionar que Beyond tem tempo para pintar um retrato da família de Jodie, algo intrínseco à explicação do seu dom, mas sobretudo a mostrar os seus trunfos a quem o joga, piscando-lhe o olho, sussurrando-lhe “vês, esta é a tua mãe. Esta és tu. Este é o Aiden. E agora o que queres fazer, o que queres sentir?” Pode-se gostar ou não da abordagem de Cage, mas Beyond foi beber muito à sétima arte, o que facilita francamente a impregnação na memória de vários destes momentos.

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Sem grande surpresa, Aiden é uma peça primordial no puzzle. Além de ajudar Jodie em incontáveis situações, acaba por ser também o seu confidente, o seu “amigo” com que vai travando monólogos. Um dos maiores feitos da trama é dar ao jogador o controlo de como Aiden se comporta em determinadas situações, como se ele também evoluísse ao longo destes quinze anos, um percurso que é francamente claro na relação entre os dois, emulsionando ou não os problemas inatos a fases mais conturbadas da sua vida, como numa festa para a qual Jodie é convidada e enxovalhada.

Tal como já mencionei, a história não se faz sem uma aposta no sobrenatural, aliás, é essa componente que alimenta de sobremaneira o mistério que começa a ser desnovelado na reta final. Contudo, uma boa falange das alfinetadas emocionais é conseguida pela engrenagem humana da obra, ou seja, quando o desenvolvimento é feito com aquilo que conhecemos das nossas próprias existências, com as quais, mesmo que não nos relacionemos na primeira pessoa, sentimos sôfrega compaixão.

Obviamente que a jogabilidade é um factor que facilmente carateriza esta proposta e que a ajuda na sua demarcação, assentando sobretudo em Quick Time Events, ou seja, em seguir no DualShock 4 as indicações que vão aparecendo no ecrã. Seja o pressionar de certos botões em momentos oportunos, seja deslizar os analógicos nas direções que nos são indicadas, seja o interagir com pontos de luz no cenário que desencadeia a ação necessária em determinado momento.

Mesmo com dois graus de dificuldade à escolha, não se pode afirmar que é um exercício complicado ou desafiante. Não é a primeira vez que o mercado recebe um jogo com estas mecânicas, pelo que quem não gosta da sua implementação é certo que não gostará da roda dentada de Beyond, mas também é certo que poucos chegarão aqui induzidos em erro.

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Depois de ter terminado a versão original e também esta versão, um dos problemas da jogabilidade foi e é a movimentação das personagens em momentos que exigem mais refinamento. De comportamento robótico, faz com que a frustração espreite sempre que o cenário nos trava a marcha, o que denota um esquema de controlo ocasionalmente errático e rombo. Pensado como uma experiência dinâmica e fluída, são pontos que quebram a imersão.

Outra das novidades da versão PlayStation 4 que merece ser mencionada é a possibilidade de ver que percentagem de jogadores tomou as mesmas decisões que nós no final de cada capítulo. Não altera em nada o idioma que falamos com a obra, contudo propõe-se a identificar se estivemos na maioria ou se simplesmente remamos contra a maré e decidimos fora da caixa.

Na versão PlayStation 3, Two Souls mostrou o que podia ser alcançado tecnicamente na plataforma. Agora a equipa pegou na excelência gráfica e atualizou-a com uma resolução a 1080p e com variadas melhorias a outros efeitos técnicos. O resultado é uma obra com um aspecto francamente sólido que chega a ser deslumbrante em certos momentos. Como na história vigora a inclusão de vários cenários, é possível ver texturas de qualidade, efeitos de luz e sombras naturas, uma modelagem de personagem que torna inequívoco reconhecer os rostos dos atores que lhe deram vida.

Pode-se sem grande esforço atacar e desdenhar das mecânicas que compõe a jogabilidade, mas é um pouco difícil não reconhecer méritos e valências ao grafismo, algo que é exacerbado pela cinematografia já mencionada. E a sonoplastia também se apresenta num plano superior, revelando os elevados valores de produção e ajudando ao bouquet de memórias com que se fica do jogo.

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Parte desta componente é assinada pelas prestações dos atores já mencionados. Dafoe está mais que à altura, mas é Ellen Page que toma as rédeas do jogo, afirmando-se como uma protagonista capaz de liderar a investida, revelando a paleta de emoções necessárias em cada cena, apresentando-se com o mesmo talento que lhe garantiu destaque em Hollywood. O jogo está totalmente em português, ou seja, podemos ouvir a vocalização de Joana Santos (Jodie), Rogério Samora (Nathan), Rui Unas (Cole), Ricardo Pereira (Ryan), e também na versão nacional temos prestações sólidas, apesar de não tão emotivas como as originais.

As novidades desta nova iteração de Beyond: Two Souls são interessantes, especialmente a possibilidade de podermos jogar agora a narrativa por uma ordem menos confusa. Esta é a melhor versão do jogo da Quantic Dream, pelo que deverá ser a escolhida por todos os jogadores que ainda não o jogaram e que tenham essa curiosidade. É uma obra que vai transfigurando as perspetivas e que tem um pulmão em Ellen Page.

veredito

Beyond: Two Souls aborda várias ramificações do tema sobrenatural, mas é quando cuida do que é humano que atinge o tom maior.
8 Narrativa por ordem cronológica. Grafismo e sonoplastia. Narrativa não evita alguns clichés. Movimentação robótica.

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Beyond: Two Souls

para PlayStation 3, PlayStation 4

The game covers 15 years of Jodie’s life and deals with living…

Lançado originalmente:

24 November 2015