Com as obras independentes cada vez mais instaladas neste meio de entretenimento e a competir de igual para igual com os projetos, de orçamentos inúmeras vezes superiores, provenientes das principais casas da indústria pelo tempo e atenção dos jogadores, vão tornando-se mais frequentes as situações em que títulos de menores dimensões geram tanto entusiasmo e ansiedade como os seus primos AAA muito antes de chegarem ao mercado e terem oportunidade de confirmar o seu potencial.

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Oxenfree é um exemplo disso mesmo e, muito possivelmente, uma vítima do próprio burburinho e antecipação que foi conseguindo obter junto da imprensa sempre que novas informações e detalhes eram revelados sobre si. Independentemente de ter ou não correspondido às altas expectativas a que estava associado, Oxenfree foi um dos títulos mais interessantes do início de 2016 e aproveitando a sua recente chegada à PlayStation 4, o VideoGamer Portugal revisita agora a obra da Night School Studio, com um par de lentes diferentes, para perceber como o novo conteúdo adicionado à obra influencia as nossas opiniões originais.

Lançado no PC e na Xbox One em janeiro e analisado por Pedro Martins, o título de aventura é agora observado à lupa por Pedro Marques dos Santos. Como certamente saberão, Oxenfree é, acima de tudo, uma narrativa interativa que coloca enorme ênfase nas suas personagens e nas relações entre as mesmas. Assumindo o controlo de Alex, uma jovem rapariga, a história segue um grupo de adolescentes que decidem passar uma noite de amigos numa antiga ilha militar abandonada, mas que acabam por ser arrastados para uma aventura recheada de mistério e pontilhada por estranhos fenómenos sobrenaturais.

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Como não poderia deixar de ser numa obra deste género, a narrativa é a componente de maior destaque da experiência e felizmente esta corresponde, de uma forma geral, às altas expectativas que gerou. A escrita é excelente, não caindo no erro de se esforçar demasiado para usar o calão muitas vezes associado aos adolescentes, as personagens são interessantes, bem construídas e, acima de tudo, têm personalidades com traços facilmente identificáveis e motivações credíveis para a forma como interagem com os seus companheiros de viagem.

Não significa isso que Oxenfree esteja isento de problemas neste departamento, muito pelo contrário. Tal como foi referido na análise à versão original, o mistério que o título vai construindo, ou seja, o elemento sobrenatural da narrativa é muito mal resolvido, dando origens a mais perguntas do que respostas e a um desfecho que tem tanto de inexplicável como de abrupto. Apesar disso, a conclusão propriamente da história deste grupo de amigos é satisfatória e serve como combustível a todo o tipo de teorias relativamente ao seu verdadeiro significado. 

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Mas mais importante que isso, o maior mérito da obra prende-se com a forma como consegue cativar o jogador, prendendo-o numa narrativa recheada de tensão e que vai alimentando consistentemente a sua curiosidade. A jogabilidade passa essencialmente por escolher a opção de diálogo que mais vos agrada e pela exploração das várias áreas da ilha. Seguindo o estilo celebrizado pela Telltale, as decisões passam sobretudo pelo diálogo e a forma como essas opções afetam a nossa relação com os restantes membros do grupo, tendo repercussões, de magnitude variada, no final do título. Já os puzzles são praticamente inexistentes, com exceção para o uso de um rádio portátil, mecânica que se torna gradualmente mais cansativa com o passar do tempo.

Ainda assim, o lançamento de Oxenfree na PlayStation 4 é mais do que apenas a vontade de fazer chegar o título a mais uma plataforma e, por consequência, a um público mais vasto. Na verdade, a nova edição do jogo traz consigo uma atualização significativa, entretanto disponibilizada nas restantes versões, que dá pelo nome de New Game +. Como o nome indica, este modo permite recomeçar a aventura, mas agora com novas áreas, novas opções de diálogo e, consequentemente, novos finais alternativos que tiram partido da temática sobre a qual a obra gira em redor.

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O New Game + não só oferece uma motivação bastante forte para jogarem novamente a campanha, como percebe perfeitamente como retirar o máximo proveito disso mesmo. Significa isto que, para além do novo conteúdo, este modo de jogo utiliza de forma bastante inteligente o facto de o jogador ter conhecimento prévio dos acontecimentos futuros da narrativa para o surpreender por diversas vezes e evitar que a vossa segunda aventura na ilha militar seja mais do que uma mera repetição da primeira.

No que diz respeito a funcionalidades únicas da versão PlayStation 4, estas ficam-se pela utilização do altifalante do DualShock 4 para emitir o som transmitido pelas estações de rádio e com a mudança de cor da barra de luz do comando consoante aquilo que vai ocorrendo no ecrã, embora, como facilmente se percebe, esta última passe completamente despercebida a não ser que estejam a jogar em escuridão total e reparem no reflexo da luz emitida. Dito isto, auscultadores e pouca luz são recomendados para uma maior imersão.

Tecnicamente, Oxenfree é uma obra bastante sólida, primando sobretudo pela beleza do seu grafismo e os cenários diversificados e extremamente apelativos que consegue produzir. Bastante longe do fotorrealismo, o título possui um estilo visual único que o diferencia dos restantes jogos no mercado, mas sem nunca se servir do mesmo para desviar atenções dos aspetos menos conseguidos da experiência. O departamento sonoplástico também não desilude, contando com uma excelente banda sonora que contribui para atmosfera arrepiante e tensa, bem como trabalhos de voz de alta qualidade que são indispensáveis para tornar as personagens reais.

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Em suma, Oxenfree na PlayStation 4 mantém as qualidades e problemas que lhe haviam sido apontados aquando da sua chegada ao PC e Xbox One em janeiro. Sim, a conclusão do mistério deixa bastante a desejar e sabe a pouco, mas a verdade é que durante as várias horas que lhe antecederam estive completamente imerso na experiência e isso era exatamente aquilo que se pretendia. Para além disso, a adição do New Game + e o novo conteúdo que traz consigo são motivo mais do que suficiente para regressar ao título, respondendo inclusivamente a algumas das questões com que ficaram na primeira visita à ilha.