Num dia que fica marcado pela tomada de posse do polémico e controverso Donald Trump, o quadragésimo quinto Presidente dos Estados Unidos da América, ditou o destino que o VideoGamer Portugal tivesse no seu calendário a publicação da sua análise a uma obra que tem na diversidade do seu elenco de personagens e, por consequência, no seu elenco de atores uma das suas mais identificáveis características, sendo a discriminação um dos temas transversais a toda a aventura.

Tal como o nome indica, Read Only Memories tem lugar no ainda longínquo ano de 2064. O cenário é São Francisco, Califórnia, ou se preferirem, Neo-SF, como é conhecida a versão futurística de um dos principais centros tecnológicos dos Estados Unidos. Num mundo tecnologicamente avançado onde inteligências artificiais e máquinas robóticas são um lugar comum e no qual a manipulação e combinação do DNA de humanos com o de outros animais é uma realidade, o jogador assume o controlo de um jornalista com falta de inspiração e sem grande paixão pelo mundo dominado pela tecnologia em que se encontra.

Imagens Read Only Memories Analise

Sem grandes surpresas, esta versão perfeitamente realista do futuro é um dos melhores elementos do jogo. Na verdade, a forma subtil como a obra nos oferece informações esparsas sobre os eventos que tiveram lugar nos 50 anos que separam o nosso presente dos futuros relatados nesta campanha é uma das principais razões pelo qual o mundo de jogo é tão cativante. As poucas referências ao passado oferecem mais perguntas do que respostas, mas fazem com que este futuro aparente ser real, nunca caindo no erro de explicar em demasia, optando por dar-nos algumas migalhas que permitirão ao nosso cérebro preencher os espaços em branco.

Em 2064, as problemáticas do racismo, misoginia e orientação sexual são questões de um passado e mentes antiquadas que a história se tratou de esquecer. Ao longo da aventura, o jogador vai interagir com um diversificado, em todos os sentidos possíveis, elenco de personagens que brilham graças à qualidade de uma escrita capaz de lhes conferir personalidades interessantes. Em momento algum o título coloca ênfase na cor da pele ou orientação sexual daqueles com quem conversam e é isso que uma sociedade que se quer avançada, cívica e tolerante deve ser; uma sociedade em que não é preciso celebrar diferentes raças e preferências sexuais porque todas elas são encaradas como normais. Isto não quer dizer que estas questões não mereçam ser mencionadas ou que devam ser ignoradas, significa sim que é na forma como são retratadas que está o segredo do sucesso.

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Mas como nenhuma geração está isenta das suas batalhas no que diz respeito ao direitos humanos e igualdade entre todos os elementos da sociedade, Read Only Memories coloca-nos na periferia de uma discussão acesa entre aqueles que questionam os avanços médicos, tornados possíveis pela já mencionada manipulação de DNA e introdução de implantes tecnológicos para melhorar a condição humana, e os que deles usufruíram.

Os Híbridos, os humanos de cor pouco habitual e com elementos da sua aparência claramente remanescentes das espécies animais que foram introduzidas no seu material genético, estão no centro desta batalha contra a discriminação, uma batalha que, como certamente perceberão, tem pontos válidos em ambos os lados da barricada, mesmo que os métodos aplicados por aqueles considerados “normais” não sejam propriamente aceitáveis. O jogo faz um bom trabalho em nos mostrar os dois lados desta discussão e levanta questões éticas e morais que merecem certamente ser discutidas.

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No que diz respeito ao arco narrativo propriamente dito, 2064: Read Only Memories vê o protagonista fazer parceria com Turing, um robot muito especial que se apresenta como a primeira máquina com consciência, que entrou em contacto com o jornalista para procurar auxílio no sentido de encontrar Hayden, o seu criador e amigo do protagonista. Lentamente desvendando uma conspiração com implicações perigosas para o futuro da sociedade e a capacidade da Humanidade para se manter independente da tecnologia, a investigação levará o duo a percorrer várias localizações de Neo-SF em busca de pistas e respostas para as perguntas que vão sendo levantadas.

Como já referi, as personagens que compõem o elenco secundário do título são uma das suas melhores componentes e será no âmbito da investigação que vão interagir com a maioria delas. É certo que nem todas têm o mesmo tempo e oportunidade para brilhar, mas o jogo faz um bom trabalho em nos investir na aventura e nas motivações de cada um dos auxiliares. Argumentaria inclusivamente que é na forma como se relacionam com estas personagens que se encontra o elemento mais interessante da jogabilidade, isto porque as vossas opções nos momentos de diálogo ditarão a forma como algumas delas olham para vocês no final da aventura.

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A escrita tem qualidade, as personagens são interessantes e conseguem deixar as suas marcas no jogador, e o humor, particularmente quando tentam interagir de forma desnecessária com objetos presentes no cenário, é também uma parte importante da experiência. Contudo, isso não é suficiente para entregar uma aventura memorável. Read Only Memories sofre problemas claros de ritmo. Os momentos finais de cada um dos seis capítulos são entusiasmantes, mas o início do seguinte faz o jogo regressar a um ritmo de caracol que me deixou muitas vezes a pedir para que algum evento relevante se apressasse a acontecer.

Percebe-se que um jogo que nos coloca no papel de investigador não possa manter um ritmo alucinante durante a totalidade da sua duração, mas pedia-se que os momentos de investigação propriamente ditos fossem mais interessantes do ponto de vista da jogabilidade, algo que nunca acontece. As personagens são interessantes, sim, mas isso não as impede de caírem com frequência em longos monólogos que necessitariam de maior interação para manterem a atenção do jogador. Para além disso, existem vários momentos que carecem do impacto necessário para elevar a experiência para patamares mais elevados, no que diz respeito à narrativa.

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Já no que diz respeito à jogabilidade, 2064: Read Only Memories pode ser descrito como uma aventura de apontar e clicar, no entanto, não pensem nela como o equivalente atual das aventuras do auge da LucasArts, pois tal não é o caso. Existem puzzles, mas todos eles são relativamente fáceis de resolver e não requerem quaisquer saltos de lógica questionáveis. Dito isto, é neste departamento que o título mais deixa a desejar. Para além dos controlos não se adaptarem nada bem ao comando - podem usar o touchpad ou, talvez mais recomendável, o d-pad -, os minijogos são desinteressantes e, no caso do confronto que antecede o final da obra, simplesmente frustrantes. De notar também que existe um puzzle perto da sua conclusão que é se torna praticamente impossível de resolver pois o teclado no qual têm de introduzir a palavra-passe se encontra inexplicavelmente cortado do ecrã.

Graficamente, Read Only Memories opta pelo atualmente muito popular estilo visual pixelado que serve como contraste à sociedade moderna que está no centro da aventura. Não é deslumbrante, mas utiliza uma diversidade de cores e animações faciais para criar ambientes interessantes e personagens facilmente identificáveis. A banda sonora tem qualidade, alterando-se consoante o local em que se encontram, a personagem com quem estão interagem e o teor dessa conversa. Ainda assim, o principal destaque tem de ser dado ao excelente trabalho de voz de um elenco recheado de nomes bem conhecidos da indústria - Jim Sterling e Dan Ryckert, por exemplo - e de vozes familiares de obras populares - Melissa Hutchinson, Dave Fennoy e Adam Harrington (Clementine e Lee Everett de The Walking Dead e Bigby Wolf de The Wolf Among Us, respetivamente). É muito graças a estes desempenhos que as personagens captam a atenção do jogador e o mantém interessado na aventura.

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Read Only Memories oferece uma experiência que vale sobretudo pelas suas personagens. A narrativa é interessante, mas move-se muitas vezes a um ritmo de caracol e recorre em demasia a longos monólogos sem qualquer interação por parte do jogador. A chegada à PlayStation 4 e a alteração ligeira do título representam uma segunda vida para a obra lançada em 2015 no PC que conta agora com um maior número de diálogo vocalizado, linhas de diálogo reescritas, novos puzzles e minijogos. Nem tudo resulta, obviamente, mas tal como a versão original, 2064 é uma obra que, embora não seja memorável, merece a atenção daqueles que pretendem uma experiência narrativa situada num mundo futurista cativante.