Filipe Urriça por - May 26, 2022

35MM (Switch) – Análise

Destacar-se nos videojogos é difícil, então se a história se passar num mundo pós-apocalíptico é algo muito complicado porque já quase tudo foi contado. The Walking Dead, Fallout e The Last of Us são todas séries que apresentam uma humanidade à beira da extinção devido a doenças pandémicas, radiação nociva, ou mortos-vivos. Incrivelmente, ainda há jogos que oferecem uma perspetiva fresca e original como este 35MM.

Este jogo russo é lento, até mesmo quando a personagem faz uma atividade tão simples como andar. Para quem se arriscar a investir neste jogo, há aqui uma narrativa desconcertante, desenvolvimento de personagens e revelações surpreendentes. O jogador não sabe nada, só tem noção que está numa floresta de um país do Leste da Europa (percebe-se que há aqui uma pronúncia carregada típica daquela região do Velho Continente), que controla uma personagem e que há outra que acompanha – a opção mais lógica parece ser precisamente essa, seguir quem parece ter mais conhecimento sobre o mundo devastado em que o jogador se encontra.

Portanto, dado o secretismo em torno do jogo, decidi ir ver quais são os controlos, caso viesse a surgir alguma situação invulgar, porque todo este jogo tem uma aura de tensão que roça, por vezes, o terror. É este medo do desconhecido que me deixou reticente em avançar, apesar de nunca ter baixado o analógico esquerdo para abrandar o passo ou parar, eventualmente, a minha personagem. O meu companheiro liderava o caminho e este era o meu porto seguro rumo ao desconhecido. As instruções, para além de me indicarem o que cada botão dos Joy-Con fazia, também davam um pequeno conselho. Aparentemente, temos de encontrar água e alimento para sobreviver à agressividade deste mundo. Mas quem nos protege realmente neste mundo desolador é o nosso companheiro.

Os dois amigos de viagem não falam muito, o silêncio por vezes fala mais alto do que um banal diálogo. Porém, além de estarmos mecanicamente obrigados a seguir este NPC, a narrativa desenvolve-se na relação de companheirismo que existe com a personagem que controlamos e a que seguimos. É no final que nos são dadas todas as justificações que procurávamos, para tirarmos todas as dúvidas que permaneciam até terem passado as cinco horas da campanha. É um jogo curto e eficaz naquilo que se propõe a fazer, não estando com muitos rodeios para mascarar a mensagem com uma fina camada de ambiguidade para fazer os jogadores questionar o que fizeram até àquele momento.

Porém, para terem uma imagem completa de todo o arco narrativo precisam de conseguir obter todos os quatro finais do jogo. Felizmente, como esta obra indie não se prolonga em demasia, temos tempo mais que suficiente para atingir esse objetivo, apesar de se poder tornar repetitivo à terceira ou quarta sessão. E como o jogo tem um tom bastante pesado, desolador e pessimista sobre a vida e a humanidade pode ser difícil ter de se digerir quatro vezes esta história.

Uma parte peculiar e que não foi bem conseguida de 35MM foram as legendas. Este título, lançado originalmente em 2016 no Steam, tem legendas em inglês e é, como seria de esperar, vocalizado em russo. Contudo, durante as conversas que lemos, sentimos que há elementos que se perderam no processo de tradução. O problema está na expressão das emoções que vemos na cara das personagens e na forma como vocalizam o que sentem. Dado que o jogo tem um enorme foco na narrativa, devia ter havido mais cuidado na localização deste título. Imaginem um poema que necessita da mestria das mãos de Alexandre O’Neill, mas que foi escrito por alguém que regurgita livros como José Rodrigues dos Santos, de tão má que está, por vezes, a legendagem.

A narrativa é, em grande parte, transmitida através dos visuais. Para um jogo que necessita de uma boa atmosfera fiquei satisfeito com o que foi feito em 35MM. Não é o jogo com a elegância das obras da The Chinese Room todavia, para as emoções que quer fazer chegar aos jogadores, o grafismo está de acordo com o que o jogo quer entregar; ou seja, há concordância e coerência neste departamento. Existem momentos de terror tão bem desenhados que a tensão escala até um ponto em que tive de me afastar momentaneamente do jogo.

35MM não dura mais do que cinco horas, por volta das oito ou nove se tentarem encontrar os finais todos. É um jogo com um orçamento obviamente limitado que o torna algo especial – uma maior longevidade poderia comprometer o que este jogo quer transmitir. Não é uma obra recomendada ao comum jogador, mas a todos os outros que tenham a paciência e uma vontade em jogar uma experiência diferente do habitual. Não é, de todo, um walking simulator, mas um jogo pincelado com alguns momentos de ação e, ocasionalmente, terror. Quando nos afastamos para ver o que nos passou pelas mãos, estamos prontos para digerir esta experiência. Só faltava mais proficiência técnica e algum cuidado na tradução para este jogo ser obrigatório na ludoteca de qualquer jogador. É um diamante em bruto que precisava de ser lapidado.

veredito

Uma experiência narrativa muito peculiar que exige alguma paciência. É pena que a tradução do jogo esteja tão má.
7 Boa atmosfera. Narrativa invulgar. Má tradução. Sistema de QTE.

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35MM

para Nintendo Switch, PC

Uma história pós-apocalíptica acerca de dois viajantes que partiram numa longa jornada.

Lançado originalmente:

2 de março, 2022