A arte de contar poderosas histórias através de videojogos tem sido uma das componentes em que a indústria mais tem crescido nos últimos anos. Longe estão os tempos em que éramos atirados de cabeça para o mundo de jogo praticamente sem qualquer tipo de contexto, nos quais os objetivos eram apresentados de forma simples e a motivação para continuar a jogar passava apenas pela nossa vontade de concluir os níveis que os produtores colocavam à disposição.

Os tempos mudaram e agora todos esperam um pouco mais de esforço na construção de narrativas capazes de despoletar reações emocionais na pessoa que está a controlar a ação através de personagens com motivações reais e convincentes. Histórias que aproveitem as características únicas deste meio de entretenimento para nos colocar na pele de alguém com quem não nos identificamos necessariamente e ver o mundo através de uma perspetiva diferente.

A Bird Story é um esforço positivo para provar que os videojogos podem ser excelentes veículos de entrega de narrativas especiais, obrigando o jogador a estabelecer uma relação com os personagens devido ao simples facto de as estar a controlar. Produzido pela Freebird Games, estúdio responsável pelo aclamado To The Moon, este é mais um título que ignora as mecânicas mais complexas de jogabilidade para colocar a história que pretende contar em primeiro plano do início até ao fim da sua hora de duração.

A obra conta-nos a história de um jovem rapaz que, durante o seu caminho de regresso a casa depois de mais um dia de divagação mental na escola, encontrou uma ave ferida. O que começa como uma relação de desconfiança lentamente se vai desenvolvimento para uma forte amizade entre a criança e o seu amigo animal.

Avaliando a narrativa apenas pela sua premissa inicial e a sequência de eventos que lhe seguem, A Bird Story está longe de apresentar uma complexidade considerável, sendo inclusivamente possível perceber rapidamente como a aventura vai ser concluída. No entanto, este título prima sobretudo pela sua brilhante entrega da mesma. Não é tanto a conclusão que importa, mas sim o caminho até ela e é aqui que a produtora consegue uma experiência verdadeiramente especial.

Durante uma hora vão embarcar numa história de amizade e entreajuda sem qualquer tipo de diálogo ou comunicação verbal entre os dois protagonistas da aventura, uma escolha de design arrojada, mas que se prova vencedora. A linguagem corporal e as diversas interações entre ambos são mais do que suficientes para que a relação existente entre o rapaz e a ave cheguem sem dificuldades ao jogador que começa também a estabelecer uma empatia com a relação que vai vendo nascer perante os seus olhos.

Para lá da relação do jovem com o amigo a quem salvou a vida, a obra tem várias mensagens subtis que vai transmitindo ao longo da experiência. Estamos perante uma criança visivelmente solitária que praticamente nunca se encontra com os seus pais e para quem todas as outras pessoas não passam de meras silhuetas que ignoram por completo um miúdo que vive obcecado com os seus aviões de papel através dos quais pode viajar, no seu imaginário, para onde bem entender.

Aliás, toda a aventura é uma constante transição entre a realidade e o imaginário deste jovem rapaz, algo que deixará muitas vezes no ar a questão sobre o que é de facto verdadeiro e aquilo que é produto da habitual fértil imaginação de uma criança que passa demasiado tempo perdida no seus pensamentos. Se alguns são momentos óbvios de surrealismo, outros possuem muito maior subtileza.

Para além de tudo o que já foi mencionado anteriormente, A Bird Story oferece também vários momentos inesperados de humor, com crianças a agirem como crianças, capazes de arrancarem um sorriso ao mais carrancudo dos jogadores. Tudo isto serve para realçar na perfeição a inocência de uma criança que, ao reparar que não está ninguém por perto, aproveita para pular alegremente na cama dos seus pais.

Ainda assim, o jogo apresenta algumas características que o tornarão alvo fácil de críticas para muitos jogadores. Talvez a principal delas seja o facto de o título nos retirar muitas vezes o controlo do protagonista em situações que poderiam perfeitamente ter sido jogáveis. Aliando isso à ausência de ação e estamos perante um jogo que não oferece grandes momentos de interação à pessoa que o joga.

Visualmente, a obra da Freebird Games apresenta uma arte pixelizada com enorme atenção ao detalhe, levando-nos a explorar florestas repletas de flores, árvores e riachos, bem como cenários mais tradicionais, como a escola e o interior do seu apartamento. Observando a ação de uma perspetiva superior, teremos oportunidade de observar a qualidade do trabalho visual despendido no título e desfrutar dos cenários diversificados e repletos de vida e cor.

Uma vez que o jogo não apresenta qualquer tipo de diálogos, a sonoplastia tem um papel fundamental no acompanhamento da experiência e a sua eficácia é imprescindível para que a mensagem chegue ao jogador da maneira pretendida. Maioritariamente suave, a música é sempre apropriada à situação em questão, adequando-se com sucesso à solenidade dos momentos principais da aventura.

A Bird Story é uma experiência interativa que consegue atingir todos os objetivos a que se propõe, entregando uma narrativa simples, mas emocional, sem necessitar de diálogos ou mecânicas mais complexas de jogabilidade. É pena que o título opte demasiadas vezes por retirar controlo do jogador, negligenciando um pouco a principal arma que os videojogos têm em relação a outros meios de entretenimento: o reflexo da nossa ação nos acontecimentos que vemos no ecrã.