por - May 15, 2019

A Plague Tale: Innocence – Análise

A Plague Tale: Innocence leva-nos numa viagem por um mundo que, mais do que inóspito, transmite a sensação de ser desolador. A produtora Asobo Studio não tem contemplações e puxa tanto quanto consegue esta atmosfera. E resulta, resulta bastante bem, pois consegue nutrir uma aventura de sobrevivência e, sobretudo, de persistência.

São dezassete capítulos que arrancam em França, 1348. Controlamos Amicia, uma jovem adolescente que desde os minutos iniciais da obra começa a lidar com a perda de quem lhe trazia alegria. Não tinha uma vida má, contudo, os acontecimentos colocam-na no papel de responsável por Hugo, o seu pequeno irmão que está doente. O arco narrativo descobre nesta relação familiar o filão emocional, não dando grandes tréguas a quem joga.

Os dois irmãos não estão sempre juntos durante a totalidade do jogo, mas durante a maioria do tempo contamos com a sua presença ao nosso lado, de mãos dadas. Hugo ajuda a sua irmã em determinados momentos, sendo ajudado nos trechos seguintes. A vida dos irmãos de Rune decorre, importa não esquecer, numa altura em que França atravessava a Guerra dos Cem Anos e em que a Europa era assolada pela Peste Negra.

Enquanto a Asobo usa o argumento para se dedicar ao lado mais humano das personagens, ou seja, enquanto lidamos com emoções que estão associadas e amplificadas pelas vidas reais de cada um, A Plague Tale consegue efectivamente captivar a atenção e a curiosidade, algo que sofre ligeiramente quando o foco passa a ser o sobrenatural. Ainda assim, nunca deixei de querer saber qual era verdadeiramente a doença que afetava Hugo e, não menos importante, porque é que a Inquisição perseguiu a dupla de protagonistas praticamente desde os momentos iniciais.

Esta perseguição não dá tréguas aos jogadores e está intrinsecamente ligada às mecânicas da jogabilidade. A Plague Tale: Innocence é um jogo que vive sobretudo da ação furtiva, ainda que misture ocasionalmente alguns puzzles ligeiros que tiram partido do cenário e que ajudam na forma como Amicia lida com outra das grandes ameaças do jogo: incontáveis ratos que devoram tudo aquilo em que tocam – sim, incluindo os protagonistas.

Amicia tem na sua posse uma fisga com a qual pode obviamente atingir os inimigos, contudo, a grande reviravolta é que o jogo não se presta ao género convencional na terceira pessoa. Na prática, isto significa, por exemplo, que os combates contra os bosses nos façam fazer mira aos seus pontos fracos, mas também nos faz procurar pontos nos cenários para alterar as regras do jogo a nosso favor.

Os ratos, por exemplo, não suportam a luz. Assim terão muitas vezes que alterar os focos de iluminação para os enganar ou, em algumas das cenas violentas, chamar a atenção dos soldados para onde os ratos conseguem chegar. Visualmente acabamos por ver humanos a serem comidos vivos em segundos – e o jogo nem sequer parece muito preocupado com este assalto aos sentidos.

A maior falha na jogabilidade é marcada pelo facto do aspecto furtivo nem sempre ser executado da melhor forma. Desde cedo que A Plague Tale: Innocence nos permite melhorar o equipamento, a fisga, e até aceder a novos tipos de munições para a arma – por exemplo, munições que perfuram metal, que se incendeiam, ou itens que chamam os ratos, guiando-os para onde quiserem. Isto faz com que estejam sempre à procura de materiais pelo cenário para poderem melhorar tudo isto, mas também à procura de ferramentas e ainda de bancas onde possam executar estas melhorias.

Por outro lado, faz com que o jogo esteja dependente da pontaria, o que não seria necessariamente mau se sempre que são apanhados – antes de encontrarem uma melhoria necessária – não fosse o final da linha, ou seja, vemos inúmeras vezes sem conta a mesma animação e perdemos o último progresso feito. Também não ajuda muito que a Inteligência Artificial dos soldados da Inquisição não seja 100% consistente, ora apercebendo-se da nossa presença a léguas de distância, ora ficando confusa quando Amicia e/ou Hugo está na sua linha de visão. E por falar em Inteligência Artificial, o jogo permite-nos dar comandos básicos ao irmão (como ficar ou avançar) e nem sempre o de Rune mais novo executa as ordens da forma menos atabalhoada.

Compreendo que Hugo esteja doente e que essa maleita lhe afecte o sangue, algo que o jogo faz questão de demonstrar com as veias a ficarem progressivamente mais pretas; compreendo também que seja uma criança, comportamento tão bem demonstrado pela teimosia e pelas respostas insolentes que vai dando à irmã. Ainda que isso ajude à caracterização, não faz grandes favores à jogabilidade que precisa de ser sempre afiada para evitar repetições escusadas dos últimos trechos jogados.

Mesmo com estas falhas, fica a sensação de uma aventura vivida no limite das forças. Enquanto procuramos uma cura – e uma explicação – para a doença, vamos passando por cenários distintos, como se a luz representasse os trechos em que temos que lidar com a Inquisição, e o sombrio fosse um sinal que os ratos estão por perto. Aliás, voltando aos ratos, nunca deixaram de ser nojentos, mesmo horas e horas depois. A produtora coloca centenas e centenas de criaturas no ecrã ao mesmo tempo, o que nos leva a lidar com um volume impressionante, guiando-o, e ouvindo os barulhos que vão fazendo, que vão incessantemente fazendo.

Ironicamente, mesmo quando se está no auge do desdém – incluindo atrair animais para resolver um puzzle e abrir caminho, sim, acontece ao animal precisamente aquilo que estão a pensar – há uma parte que admira o que foi conseguido tecnicamente pela produtora e o quão isso é usado pelo jogo também como uma distração para dificultar o raciocínio na hora de resolver os puzzles. É tudo extremamente dinâmico, seja na forma como os ratos entram no cenário, como rodopiam quase aos nossos pés, e como desaparecem quando conseguimos que um foco de luz ou uma distração lhes chegue.

Esta violência visual não se fica pelos ratos. A Plague Tale: Innocence é bonito, tanto nas texturas como na direçao artística. Claro que é um jogo contido, ou seja, sabe sempre onde é que o jogador está, mas mesmo assim alguns dos locais – desde os campos à universidade, passando pelas vilas – ficam na nossa memória. Sem grande surpresa, também em muitos destes casos o negrume desta época faz-se sentir, com a produtora a misturar a luz com enquadramentos maquiavélicos: por exemplo, são várias as cenas com corpos espalhados e empilhados –  e nem sempre são corpos humanos.

É um mundo tenebroso, mas com raízes que o tornam credível, ou melhor, que raramente nos fazem encarar estas cenas como um exagero tamanho que se tornam cómicas. Infelizmente, aqui o único aspeto cómico é a vocalização em inglês. É má, bastante má, mesmo tendo em consideração que estamos a jogar em França com personagens locais. A questão é que por diversas vezes parece quase como uma caricatura. Por outro lado, a banda sonora é mais do que capaz de se encaixar na temática geral da obra.

Conforme vamos jogando A Plague Tale: Innocence, vamos também aprendendo a gerir melhor as distâncias, porém, isso não elimina alguns pontos rombos da Inteligência Artificial e alguns soluços nos trechos furtivos. Dito isto, o cômputo geral da viagem é francamente positivo. Fica com o jogador aquilo que vê, a representação dos ratos enquanto vilão formado por milhentas partes e uma relação entre irmãos que vai sobrevivendo a tudo e a todos. E para evitar que isto seja uma travessia em linha recta, não se esqueçam de recolher todos os materiais para melhorarem aquilo que a vossa Amicia consegue fazer.

veredito

A Asobo oferece uma viagem sem grandes contemplações, expondo o jogador a situações macabras. Perde na Inteligência Artificial e em alguns trechos furtivos, mas supera várias barreiras para entregar uma emocionante viagem de dois irmãos.
8 História familiar com emoção e força. As cenas com os ratos são desconcertantes. Grafismo, a forma como ilustra as cenas sombrias. Inteligência Artificial com alguns deslizes.

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para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series

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Lançado originalmente:

14 May 2019