A Short Hike tem um nome apropriado, dada a curta duração da obra de Adam Robinson-Yu. Porém, o ser curto não significa, automaticamente, que o jogo é mau. Aliás, arrisco dizer que a melhor característica de A Short Hike é precisamente a sua longevidade. Não é preciso um jogo com dez, vinte ou cinquenta horas de jogabilidade para se considerar merecedor da nossa atenção. Quantidade não é, nem nunca será, sinónimo de qualidade.

A Short Hike não é um jogo fátuo; Claire é uma ave antropomórfica e a nossa protagonista que foi visitar a sua tia para fugir à rotina diária da sua vida monótona. Claire, quando chega ao pequeno arquipélago onde mora a sua tia, tem um importante telefonema para atender, mas só há sinal de rede para o seu telemóvel no cume de Hawk Peak. Por isso, a nossa heroína tem como objetivo principal subir até topo daquela montanha.

Podemos resumir A Short Hike numa das máximas mais conhecidas das histórias de aventura: "o que importa não é o destino, mas sim a jornada". Pode-se muito bem chegar ao cume do nosso objetivo numa hora, mas é o que é realmente agradável é não pensarmos que temos um objetivo e perdermo-nos nas pequenas ilhas enquanto vamos conhecendo o curioso elenco de personagens. 

Esta aventura indie não vos colocará nenhuma pressão ou stress, há mecânicas de plataformas bem implementadas e alguns minijogos quanto ao exercício de escalagem. Os controlos estão muito bem definidos, sobretudo para planar no ar depois de se atirar de um sítio mais elevado, acabando por tornar a experiência bastante agradável para aquilo que oferece. Durante o caminho até Hawk Peak vão poder colecionar penas douradas, que aumentam a vossa resistência para aguentarem um voo a planar por mais tempo e para subir as encostas da montanha. 

Estas penas não vos são dadas de mão beijada, como é óbvio, têm de completar algumas tarefas para personagens que estão em Hawk Peak, ou participar em corridas. Há uma corrida bastante interessante onde têm de saber os caminhos para um farol de cor e salteado: começa a corrida e estão livres de irem por onde quiserem, desde que cheguem ao farol primeiro que o vosso adversário. Por isso, quanto mais penas tiverem, mais fácil será ultrapassar estes pequenos desafios. 

Mais uma vez, atingir o pico não é a parte importante da jornada de Claire, mas sim interagir com as personagens e explorar a ilha; é isto que faz que esta experiência seja tão maravilhosa. Ainda antes de ter terminado a história principal descobri que é possível pescar à la Animal Crossing, onde se podem apanhar quinze espécies diferentes de peixe que nadam no extenso mar, assim como nos muitos lagos e rios que o jogo tem para oferecer.

A ilha está cheia de segredos, pequenas coisas engraçadas para descobrir, o que lhe dá uma enorme personalidade própria. Há mapas de tesouro que, se conseguirem decifrar os enigmas para os encontrar, podem descobrir curiosidades ainda mais peculiares. Há um jogo similar a voleibol muito bem feito, onde poderão passar mais tempo do que desejariam de tão bom que é. O melhor, é que em nenhum momento desta jornada introspetiva sentimos estar a fazer um trajeto de A para B.

O jogo de Robinson-Yu é deslumbrante e digo-o sem margem para dúvidas; é dos jogos mais bonitos que já joguei naquele tipo de estilo artístico. Pode-se alterar o excelente pixel art a partir do menu, por isso se não gostarem do aspecto volumoso e em bloco, pode suavizar as linhas dos desenhos para uma aparência mais nítida, mas retira um bocado do encanto e charme que A Short Hike tem. Seja como for, a vista isométrica das pequenas cabanas de madeira, dos pinheiros verdes, das águas em cascata - é um autêntico deleite para apreciar.

Os jogos pedem-nos muito hoje em dia, e mesmo jogos que parecem ser relaxantes, como Stardew Valley e Animal Crossing, precisam da nossa infinita atenção, especialmente para manter essas ervas daninhas longe dos nossos jardins. Por vezes, o que precisamos é de um verdadeiro escapismo, um jogo sem consequências, um jogo que não nos pede nada em troca mas que oferece tanto.