Acima de tudo, Across the Grooves, a nova obra da produtora francesa Nova-box, transmite o amor e carinho a quem o joga pela cena musical independente, pela nostalgia do vinil e pela paixão pelo poder da música para nos transportar para locais completamente diferentes daqueles em que nos encontramos. Mais do que uma experiência musical, é uma aventura guiada pela sua musicalidade, algo que lhe confere um certo charme.

Infelizmente, charme e personalidade não são suficientes para construir uma obra de alta qualidade e este título acaba por não ter o foco necessário para retirar o máximo proveito dos seus elementos. Afinal de contas, estamos perante uma novela gráfica interativa, com bifurcações e desfechos distintos consoantes as nossas decisões ao longo da aventura, que não consegue cativar o suficiente para motivar novas passagens pela história e dessa forma descobrir o que poderia ter sido diferente.

Isto explica-se pela forma como a sua narrativa é estruturada, com uma protagonista em constante movimentação por diferentes cidades europeias e a saltar entre realidades, há pouco tempo para construir relações com as personagens que conhecemos, personagens essas que se revelam interessantes durante o tempo de antena a que têm direito. Contudo, o jogo opta por minimizar essas relações ao focar-se no elemento sobrenatural da sua história.

Alice é a protagonista deste enredo que gira em redor de um misterioso disco de vinil com poderes especiais. Proveniente do seu antigo namorado, Ulysse, com o qual não tem contacto desde o fim da relação há três anos, e entregue sem qualquer explicação, Alice rapidamente descobre os efeitos poderosos que ouvir o disco podem ter. Com a capacidade para a transportar para uma memória do passado e alterá-la, a protagonista recorda a noite da separação com Ulysse, curiosamente o mesmo dia em que conheceu o seu atual namorado.

Depois da viagem pela memória, Alice regressa para uma realidade que não é a sua, uma realidade ligeiramente alterada onde o seu atual namorado foi removido da sua vida e é agora apenas um estranho. Com vista a tentar recuperar a sua realidade, a protagonista parte numa viagem em busca de se reencontrar com Ulysse, descobrir mais informações sobre o disco e perceber o porquê de o ter recebido. Uma vez que o seu antigo namorado era dono de uma loja de música, é através da passagem por diferentes lojas de música espalhadas por várias cidades - Bordéus, Paris e Londres, por exemplo - que Alice persegue o rasto deixado por Ulysse.

Esse é o fio condutor da aventura, isto é, todos aqueles com os quais a protagonista interage são verdadeiros apaixonados pela música, arte que ocupa não só uma grande parte da sua vida, mas também faz parte das suas identidades. É uma pena, por isso, que a história não aproveite melhor as personagens que tem à disposição, já que o saltar entre realidades que acontece sempre que Alice ouve o disco elimina ou altera estas relações e cria quase uma espécie de reset à vida da protagonista.

Na verdade, é também por aqui que se explica a incapacidade da obra para criar uma campanha capaz de motivar novas passagens pela sua história. Logo na abertura, a obra faz questão de referir que as nossas opções de diálogo moldam a personalidade de Alice, mas em momento algum se torna claro de que forma é que o estamos a fazer e muito menos que influência é que isso tem para o desfecho com que somos presenteados. A maioria dos eventos da história acontecem independentemente das nossas decisões, pelo que, mesmo não sendo um arco narrativo longo, há muito conteúdo que se repete.

Não ajuda, como é óbvio, que o elemento sobrenatural que guia a história não seja particularmente interessante ou original, o que torna o facto do arco narrativo abandonar o foco na construção destas relações em favor da investigação ao culto omnipresente que controla o mundo a partir das sombras com o poder do disco ainda mais lamentável. Teria sido muito mais inteligente e proveitoso explorar melhor a relação de Alice e Ulysse, perceber a importância deste na vida da protagonista do que propriamente descobrir as origens e capacidades do disco.

Com o misterioso vinil no centro das atenções, um dos elementos fulcrais da obra são os segmentos musicais que retratam a experiência de ouvir a música contida no seu interior. Aplaude-se o esforço de produzir música original cujas letras, estilo e género se alteram consoante as decisões que tomarem enquanto as escutam, ainda assim, nem sempre todos estes coalescem em algo prazeroso de se ouvir. As letras são mais faladas do que cantadas, algo que tem resultados mistos consoante o género em que estiverem inseridas. Dito isto, são momentos que ajudam a cimentar a identidade própria de Across the Grooves.

Sem surpresas, a música que serve de fundo à aventura faz um trabalho muito bom a ajustar-se ao tom das cenas e aos locais que visitamos, transportando-nos para espaços distintos através da banda sonora. O estilo visual é também apelativo, recorrendo a imagens estáticas com visuais desenhados à mão de traços fortes e um efeito aguarela que dão um colorido interessante à obra. Assemelha-se bastante a uma banda desenhada, estética que se adequa à experiência.

Across the Grooves é assim um título que não aproveita todo o seu potencial, focando a sua história nos elementos mais desinteressantes e anulando com as suas decisões narrativas as personagens que lhe poderiam dar o brilho necessário para suportar o peso da aventura. A utilização da música ao longo da obra é interessante e o estilo visual é aprimorado, contudo, numa obra cuja única mecânica é a tomada de decisões para guiar a história, o arco narrativo fica aquém.