Nestes dias já é muito claro para quem é que os jogos da SCS Software são. Depois de o fenómeno que Euro Truck Simulator 2 ainda é, a produtora continuou a sentar jogadores no lugar de condutores de camiões em American Truck Simulator. Recentemente, esses jogadores tiveram oportunidade de começar a explorar um novo Estado, Washington.

Quem nunca percebeu ou quem sempre detestou estes jogos, obviamente não será com o novo DLC que converterá os seus gostos. Todavia, quem já tinha acumulado dezenas de horas a transportar mercadorias pela América do Norte, tem aqui a compreensão do que deve ser um DLC, uma prolongação do emaranhado de estradas com novas cidades, novas paisagens e novas características como uma barragem e um ferry.

A base continua a ser a mesma, ou seja, usam a vossa empresa para aceitar trabalhos e entregar diferentes tipos de carga, tendo os cuidados para respeitar as regras de trânsito e não danificar o camião e/ou a carga durante o processo. Nada disso muda obviamente em American Truck Simulator: Washington, tal como não muda a forma como gerem os funcionários que trabalham para a vossa empresa nem o prazer que se retira quando se chega ao destino.

Contudo, pessoalmente os jogos da SCS Software sempre foram uma forma de precisamente não pensar nesse destino, ou seja, não olhar compulsivamente para os quilómetros que ainda faltam. Ficam comigo os pormenores da viagem, o preenchimento a amarelo quando estou numa zona nunca antes viajada do mapa, uma nova cidade, stand ou agência de recrutamento desbloqueadas.

Esta representação de Washington conta com dezasseis cidades novas, incluindo Seattle, Tacoma e Port Angeles, esta última no meu caderno de apontamentos porque é onde está o ferry. Depois de ter visitado as cidades todas, percorrendo o novo Estado entre viagens com milhares de quilómetros para perceber como é que era feito o seu enquadramento com os restantes Estados já disponíveis, sente-se sobretudo que a produtora está neste momento a operar uma máquina bem oleada.

Por exemplo, Washington é conhecido pelas suas densas florestas, ou seja, quem tiver as expansões todas pode conduzir entre este verde e passado algumas horas estar no meio de uma paisagem desértica - isto efectivamente dá um sentido de viagem percorrida ao que os mais cépticos podem ver apenas como transportar paletes de um lado para o outro.

Mas voltando de mais perto ao novo conteúdo, nos mais de quatro mil quilómetros de estradas adicionados, os destaques são as auto-estradas que se vão elevando e cortando pelos bosques, curvas que deixam antever viadutos metros e metros acima do chão. O DLC consegue colocar à frente do jogador a experiência da produtora, sendo um prazer descobrir o que está para chegar.

E o que está para chegar é ocasionalmente uma barragem (Grand Coulee) e o vertiginoso declive, ou chegar ao Lago Roosevelt - no meu caso, com o sol a pôr-se atrás das copas das árvores e a reflectir a luz na estrutura metálica da ponte que faz o passo abrandar para apreciar tudo o que nos rodeia.

É um DLC que se destaca então pela ondulação do cenário que apresenta, entre os picos (há o Monte Santa Helena e o Monte Rainier, por exemplo) que pedem melhorias no vosso camião e os vales, as pontes que os ligam, passando pelo entusiasmo de chegar ao ferry em Everett - Port Angeles. É diversificado o suficiente para nos deixar perdidos, não na navegação, mas sim absortos. E isso é um grande elogio que se pode fazer a um videojogo.

Nem tudo é perfeito, com Washington a apresentar alguns dos problemas que já tinha experienciado nas minhas viagens por Euro e American Simulator anteriormente. Não só a Inteligência Artificial dos outros condutores tem momentos de estupidez pura, como há vias-rápidas que vão ter diretamente a vilas com semáforos, por exemplo. Compreendo que o jogo tenha que arranjar formas de testar quem está a prestar atenção, mas estes momentos transmitem acima de tudo a sensação de serem golpes baixos à espera de nos estragar uma viagem que poderá já ter centenas de quilómetros.

Washington conta também com idas obrigatórias às balanças e com acidentes que obstruem a via completamente, com o jogo a sugerir uma consulta do GPS para encontrar uma rota alternativa. As balanças, ainda que transmitam a sensação de realismo, acabam por não oferecer nada de verdadeiramente novo à viagem e os acidentes, muitas vezes são colocados em pontos estratégicos para gerar trânsito e assim testarem a nossa destreza.

Outro dos pontos que testa a nossa habilidade, paciência e aprendizagem é o quão o odómetro pode enganar. O DLC apresenta alguns trechos de curvas e contracurvas que mesmo respeitando todas as regras, podem rapidamente tornar-se muito complicadas de negociar. Compreendo que seja um “aviso” aos jogadores que andam sempre no limite da mecânica do camião, mas pode ser demasiado penalizador mesmo para quem encara tudo isto como aquilo que é: um simulador.

Obviamente que não é - nem devia ser - uma experiência diferente das bases já lançadas, mas consegue diversificar o suficiente para não ser apenas mais do mesmo para quem já tem inúmeras horas acumuladas. O ciclo de lançamentos coloca Washington na mira dos jogadores que já estavam cansados do mapa original (e expansões pretéritas), reacendendo o meu encanto por esta sensação de aceitar um trabalho o mais longo possível e partir, simplesmente partir pela noite e pela chuva adentro.

Tecnicamente, mais do que o betão cerrado de Seattle ou de Tacoma, Washington brilha mais alto nas zonas rurais. Com auscultadores, uma viagem de noite pode ser encantatória: o breu rasgado por um trovão ou pelos máximos que confirma que continuamos no meio do nada, entregues a uma solidão estranhamente reconfortante e despoletadora de pensamentos longos e distantes.

Na Península Olympic, um parque nacional entre Port Angeles e Aberdeen, com o Lago Crescent do lado direito, entre rochas e a vegetação, à distância dá para ver a outra margem. É esta atmosfera que quase nos faz esquecer que transportamos algo, é esta atmosfera e o Role Playing permitido que elevam American Truck Simulator e, consequentemente, o DLC além do que está escrito em qualquer descrição do jogo.

Tudo isto e o excelente teatro (escoltamento policial, direito a ignorar semáforos, luzes de marcha, estradas cortadas para a nossa passagem, etc) dos transportes especiais. Sabe bem regressar a American Truck Simulator e julgo que quem gostou da obra até aqui, esgotando as estradas de Arizona, Novo México e Oregon, vai passar um bom bocado a descobrir estes novos milhares de quilómetros.