Pedro Martins por - Dec 15, 2015

Among the Sleep Análise

O terror projetado por Among the Sleep não porque porque não basta um videojogo ser um pastiche deambulante por palcos escuros para o jogador sentir os calcanhares, o medo de estender a mão. As suas imagens começam por prometer calafrios e atemorizações com o distorcer da realidade, mas o avançar das mecânicas narrativas instala a sensação de um aquém que nunca a ser contrariado pela norueguesa Krillbite.

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Os jogadores adeptos deste género têm uma sede perene de susto, da vontade de ficar atónito com uma tensão que vai toldando a forma como se sentam na cadeira à espera da válvula de escape, a indescritível pancada seca que faz estremecer, sorrir. A premissa da obra poderia alimentar praticamente tudo isso caso tivesse sido administrada com mão mais treinada.

A narrativa arranca com a mãe a preparar um bolo de aniversário na cozinha. Jogamos como um infante que celebrar o segundo aniversário. Batem à porta. É alguém a entregar uma prenda. Subimos ao segundo piso da habitação ao colo da figura maternal. Ficamos sós com a nossa infantilidade que nos permite brincar com cubos alfabetizados, bolas. Exploramos o quarto enquanto aprendemos os controlos básicos: gatinhar, andar de forma titubeante, interagir com os objetos e com o cenário que nos rodeia.

Pouco depois conhecemos Teddy, um urso de peluche falante que será o nosso companheiro quase até ao final da aventura – anda connosco e se o abraçarmos serve como um ponto de iluminação, um farol bastante útil no breu da maioria das cenas, ou seja, não demora muito a percebermos a importância que tem transversalmente à obra, algo que é sublinhado na sua cena final.

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Somos pertença de um lar em tons alegres escolhidos de uma paleta que nos parece fazer crer que chegamos a meio de um dia corriqueiro e solarengo onde uma mãe não faz mais que celebrar o aniversário do seu filho. A cozinha, o quarto da criança a fazer lembrar Toy Story. Isto tem um propósito: ser disruptivo com o cenário que nos é apresentado quando acordamos a meio da noite e somos confrontados com os temores de uma habitação aparentemente vazia, com o silêncio e a desolação de estarmos entregues a nós próprios.

Inicialmente exploramos a casa, contudo não demora muito a Among the Sleep para retemperar a realidade e enviar-nos para uma cenografia alternativa onde temos que trabalhar um quarteto de memórias – cada uma tem no seu cerne um objeto (caixa de música, elefante de peluche, etc.) que temos que recolher e usar posteriormente para fazer avançar a narrativa.

Podemos ainda aceder ao inventário e consultar os objetos que temos em nosso poder em determinado momento, todavia a sua quantidade nunca chegar a atingir um contador que nos faça questionar sobre o que temos de usar a seguir. E então continuamos a gatinhar ou a caminhar pelos cenários que não oferecem liberdade suficiente para nos chegarmos a perder, resolvendo enigmas que não desafiam a massa cinzenta, abrindo gavetas para chegar aos locais mais elevados, arrastando objetos para destrancarmos portas.

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Em termos de desenvolvimento narrativo, o ponto inicial e o ponto final são os dois marcos mais significativos. O início porque o mistério é apresentado de uma forma que afia a curiosidade e a sequência final porque nos permite ter uma ideia mais clara daquela figura maternal, dos fantasmas que a atormentam, assim como ficamos a conhecer a sombra da figura paternal do protagonista, traçando ao de leve os motivos da sua ausência – e de quem afinal entrega a prenda no início do jogo.

Ainda assim não ganhará prémios e não é preciso termos um Pulitzer em carteira para adivinharmos o desfecho ou ficarmos relativamente perto, mas são pilares mais entusiasmantes do que o miolo da obra, algo que nunca abandona o estatuto de desenxabido e de nunca conseguir um ponto de interrogação suficiente grande e brilhante para deixar o jogador desassossegado à procura de respostas, ou seja, vai-se passando Among the Sleep.

E as manifestações de terror não são muito mais eficazes. Inicialmente, seguramos o DualShock 3 nas mãos à espera de o fazer estremecer e é verdade que isso é conseguido na primeira e na segunda vez que somos apanhados pelas criaturas fantásticas que nos perseguem. Porém é um procedimento que nunca se renova, pelo que a animação de quando somos apanhados e a tensão do grafismo abrasante que indica a sua proximidade torna-se pouco mais que um mero procedimento.

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Assim, a estação mais conseguida de Among the Sleep é o seu departamento gráfico. Não que as texturas e os efeitos da versão PlayStation 4 sejam muito diferentes das versões originais, nem que escape a quebras ocasionais e notórias na framerate, mas a cenografia faz um trabalho minimamente inspirado na representação de uma realidade difusa.

O olhar de uma criança de dois anos é uma tela em branco que pode ser aproveitada para uma avassaladora deturpação do que tomamos por garantido, algo que é explorado declaradamente pela produtora nórdica. Mas em vez de ser assustador e de colocar o jogador em alerta máximo com o deslumbramento de dobrar uma esquina, a aposta recai em fornecer um desconforto que, porém, raramente chega a fervor.

Esta versão para a consola caseira da Sony inclui o capítulo adicional que acrescenta quase trinta minutos ao tempo da aventura principal, levando o jogador por um prólogo que nada faz para tentar sanar os problemas destacados ao longo deste texto. Ficam com a experiência completa, mas não pensem numa redenção, sendo preferível começar com as expetativas apontadas para a continuidade “gelada”.

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Há vários de jogos de terror mais eficazes. Séries como Siren ou Project Zero conseguem mais, tal como Outlast, por exemplo, o ou recente Until Dawn, se não quiserem sair da PlayStation 4. Aliás, os videojogos conseguem ter os seus ícones do género, bastando para tal recordar Silent Hill, tal como tem os seus clássicos relativamente modernos: Condemned. Among the Sleep tem algumas ideias interessantes, mas a Krillbite não teve a mestria para as transformar numa recomendável experiência jogável.

veredito

Among the Sleep raramente chega a executar o que prometia, não conseguindo abrasar as emoções do jogador.
4 Ocasionalmente, a atmosfera. Alguns soluços técnicos na PS4. Terror domado. Fica geralmente aquém do que poderia ter sido.

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Among the Sleep

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One

Amnesia through the eyes of a two-year-old child.

Lançado originalmente:

08 December 2015