Começar a jogar Animal Crossing: New Leaf é partir numa aventura sem fim, uma viagem que demora pela qual recarregam a bateria da vossa Nintendo 3DS à noite e pela qual a abrem de manhã. Provavelmente, a série Animal Crossing tem tantos fãs como inimigos, ou seja, existirão pessoas a ler este texto que há muito marcaram no calendário o dia 14 de junho - dia em que o jogo é lançado na Europa - e outros tantos não comprarão o jogo quando ele sofrer cortes no preço, o que é compreensível.

New Leaf inova sem nunca tocar nas raízes da jogabilidade que foi conquistando seguidores desde a sua estreia nas Nintendo 64 japonesas. A força motriz do jogo continua a ser fazer da chegada do jogador a uma nova vila um acontecimento, um ponto de partida. Este é o único ponto em que a experiência com New Leaf será igual para todos os que o comprarem, pois daqui para a frente é o jogador que serve de alfaiate à sua própria aventura.

Como Tortimer resolveu ir passar umas férias numa ilha com temperaturas mais quentes, pela primeira vez na série o jogador assume logo o cargo de mayor da vila, o que muda drasticamente o que podem fazer durante a vossa estadia. Tal como já afirmei, New Leaf não esqueceu os básicos da série, ou seja, vão passar bastante tempo a falar com os habitantes da aldeia, estabelecendo relações que vão sendo aprofundadas com o passar do tempo, assim como recolher fruta, escavar à procura de fosseis, pescar, apanhar insetos com uma rede, decorar a vossa casa, enfim, é mais fácil se virem New Leaf como umas férias da vossa realidade. Umas férias que evoluem mesmo quando têm a vossa 3DS com a tampa fechada, mas voltaremos a isso mais à frente.

Todas estas atividades parecem inofensivas e cansativas após as primeiras horas de jogo, contudo, isso está bastante distante da realidade. Depois de pensar sobre o meu tempo com New Leaf, comecei a perceber que o motivo de estar constantemente a regressar ao jogo era precisamente a curiosidade. Como estas atividades não são estanques, até porque usam a data e o relógio da vossa portátil para irem evoluindo, houve sempre a necessidade de ver como é que a minha vila estava após não estar presente durante umas horas. New Leaf torna-se rapidamente um ritual diário, sobretudo durante as primeiras horas da manhã, onde imperou a necessidade de ver o que tinha acontecido durante a noite.

Antes de avançar, acho oportuno detalhar algumas das funcionalidades que advêm do uso da hora e dia da vossa consola. Além da inclusão em tempo real das quatro estações do ano, o jogo altera ainda as várias condições climatéricas e celebra o Natal, a passagem de ano, o dia das bruxas, enfim, New Leaf mimica na consola aquilo que está a acontecer na vossa vida. É fácil perceber que isto se traduz numa dinâmica deveras interessante e, sobretudo, ajuda imenso a variar o que têm à vossa espera quando abrem a consola. Além disso, com um ciclo de 365 dias, a Nintendo não quer que o jogo ande muito tempo fora da vossa portátil, uma vez que a experiência em junho será consideravelmente diferente do que vão experimentar em novembro. Além de tudo isto, existe um ciclo dia/noite diário, que obriga as lojas a estarem fechadas depois de uma determinada hora, obrigando os jogadores a fazerem algo que não envolva comercializarem os bens que foram encontrando.

Outro ponto que diferencia o jogo de tudo o que compõe o catálogo da Nintendo 3DS é a paz e harmonia que o jogo transmite. Se os hippies pudessem escolher apenas um jogo para o resto das suas vidas, tenho a certeza que este estaria entre os eleitos. Mas New Leaf não é apenas um reciclar de ideias do seu passado. Aliás, este é um dos jogos que mais novidades transporta consigo. Sermos o mayor da vila dá-nos um poder que não tínhamos quando fomos governados pelo velho Tortimer.

Na prática, isto traduz-se numa personalização do que é vosso e do que pertence aos vossos cidadãos. A personalização da vila ao vosso gosto começa logo nos primeiros minutos de jogo onde têm que escolher um sítio para mandarem erigir a vossa casa - verdade seja dita, começam com um tenda - e passadas algumas horas podem decidir onde fica a esquadra da polícia, por exemplo. Para manter a vossa veia criativa despertada, cada local da vila poderá receber adornos e atrações para que os habitantes continuem felizes e com o jogador nas suas boas graças.

Por falar em habitantes, ser mayor não é tarefa fácil. Não demoram muito a sugerir melhorias à área de jogo, fazendo com que o jogador viva numa canseira para os tentar ver satisfeitos. É verdade que New Leaf arranca devagar, talvez para que os jogadores que o usam para aceder à série pela primeira não se sintam muito perdidos, mas se continuarem a investir o vosso tempo, as opções abrem como um leque, desde os empreendimentos de grande porte até ao sítio onde pretendem colocar a mobília dentro da vossa casa.

Este desenvolvimento faz com que o tempo roubado haja como uma verdadeira bola de neve. Quanto mais fazem, quanto mais têm para fazer, quanto mais tempo dedicam ao jogo, mais tempo o jogo vos faz gastar. Quando o fardo de terem que encontrar objetos para trocarem pelo dinheiro - a moeda de troca em New Leaf tem o nome de Bells - indispensável à expansão e personalização da vossa área de jogo, basta pararem o que estão e olharem à vossa volta para tudo o que já conseguiram fazer com uma terra que estava praticamente despida quando vocês saíram do comboio e a visitaram pela primeira vez. Apesar de ser tudo digital, é impossível não se sentirem orgulhosos com tudo o que foram construindo no decorrer das últimas horas, dias, semanas ou meses. A aldeia está refeita, tem vida própria e os habitantes estão felizes - e foi tudo graças a vocês.

Mas nem sempre vão estar com os pés assentes na terra. New Leaf permite aos jogadores tirarem partido da água que banha a vossa vila - sim, além de usarem a cana de pesca em longas sessões de pesca. Se tiverem o equipamento adequado é possível nadar e fazer mergulho, o que ajuda a diversificar a jogabilidade. Outras novidades mais materiais incluem novas personagens, novos tipos de fruta e novos edifícios, como por exemplo o Club LOL, um novo café ou o Nook's Homes, uma loja onde podem comprar itens para redecorar a vossa casa.

Além de tudo isto que foi descrito, New Leaf tem algumas curiosidades interessantes, como por exemplo um museu vazio à espera das vossas doações. É certo que podem vender os fósseis, peixes e insetos por bom dinheiro, mas quando a vossa carteira digital estiver cheia de Bells, podem sempre vestir o papel de bom samaritano e doar os vossos achados ao museu e serem curadores digitais sempre que alguém o visitar. É o mais próximo que estarão de ter uma placa com o vosso nome em Serralves ou no Museu Berardo, portanto, não é um cenário a desconsiderar.

Ok, eu confesso: além da realização pessoal, existe outro motivo pelo qual devem cuidar e ter uma vila o mais apresentável possível. Através da estação de comboios - e depois de terem tirado uma fotografia para serem identificados - é possível visitar vilas que pertencem a outros jogadores e realizar o mesmo tipo de tarefas que fazem a solo, ou seja, podem apanhar fruta, pescar, interagir com os residentes. Enquanto localmente poderão visitar qualquer jogador com uma cópia do jogo que esteja ao vosso alcance, através do online só o poderão fazer nas vilas dos jogadores que estiverem na vossa lista de amigos. É ainda possível criarem um Town Pass Card - TPC - com algumas informações sobre o desempenho do jogador que será partilhado via StreetPass.

Se tiverem 1000 Bells no vosso bolso e já tiverem pago o empréstimo da vossa primeira habitação, poderão visitar uma ilha fora do cenário principal do jogo. Intitulada Tortimer Island, o seu acesso é feito de barco, mais especificamente pelo barco de Kapp'n que vos cantará uma serenata durante a viagem. Depois de lá chegarem, poderão desfrutar de um resort paradisíaco onde a diversão é apoiada no multijogador com suporte até quatro jogadores que se podem juntar a vocês localmente ou pela internet. O grande destaque vai para as competições que têm ao vosso dispor e que incluem pesca, mergulho, apanha de insetos, rebentamento de balões, entre outros. No final são avaliados com uma classificação que varia entre o bronze e o ouro.

Tecnicamente, New Leaf não precisa de muito tempo a demonstrar o seu charme gráfico. Independentemente do local onde estiverem, a atenção dada aos detalhes é incrível e os cenários propriamente ditos também estão muito bem enquadrados dentro do tema e o efeito 3D, ainda que tenha resultados mais bem conseguidos em algumas zonas do jogo, de uma maneira geral não destoa. A banda sonora ajuda a dar o mote com as melodias a convidarem ao relaxamento e à harmonia. Um dos pontos menos conseguido tecnicamente são os tempos de carregamento entre algumas áreas que visitamos frequentemente, por exemplo, sempre que passamos a linha do comboio para nos deslocarmos à parte superior da vila somos brindados com um ecrã de carregamento, o que começa a irritar depois da décima deslocação.

Animal Crossing: New Leaf mantém intactos os mandamentos que ditaram o sucesso da série tanto no Japão como nos mercados ocidentais e introduz algumas novidades interessantes. Provavelmente não será suficiente para converter os jogadores que nunca gostaram da série, contudo, para os que há muito acompanham a série criada por Katsuya Eguchi, é uma pérola que vos fará trocar longas horas da vossa vida real pela vossa vida digital.