Quando A Normal Lost Phone chegou ao mercado, foi interessante perceber como as mecânicas funcionavam e levavam à interação com a obra. Encontrávamos o telemóvel de Sam e tínhamos que alinhar numa sucessão de puzzles de dedução e lógica para ganharmos acesso às aplicações originalmente bloqueadas, conhecendo assim o seu passado e a forma como o mesmo foi afetado pelas pessoas à sua volta.
Agora, a Accidental Queens está de regresso com Another Lost Phone: Laura’s Story, uma sequela espiritual que se dispõe a contar uma história nova, ou seja, importa desde já mencionar que não têm que ter terminado o primeiro jogo para compreenderem a segunda obra. Depois de terminado, a sua essência é idêntica, ainda que o tema central seja diferente.
Em Another Lost Phone sente-se a missão da produtora em tentar consciencializar a comunidade para temas sensíveis. Novamente sem revelar a reviravolta final, importa apenas mencionar que ao longo desta jornada a questão principal é a violência doméstica, o abuso, a lenta e perigosa revelação de quem nem todas as pessoas mostram a sua verdadeira face, manipulando de formas inicialmente impensáveis.
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Como o nome deixa antever, desta vez a protagonista é Laura, uma jovem que se vê perante as adversidades de quem dá os primeiros passos na vida adulta. Ao longo do jogo percebemos o seu novo emprego, as amizades, a forma como se relaciona com Ben, o seu namorado, e o processo de mudança de casa, trocando o seu lar por uma morada partilhada com Ben.
O enredo é contado através das aplicações que o telemóvel que encontramos tem. Obviamente, o acesso inicial é extremamente limitado, sendo um dos primeiros passos a ligação do telemóvel à rede Wi-Fi. Enquanto lemos mensagens, emails, enquanto tentamos descobrir as palavras-passe de contas principais e secundárias, vamos também conhecendo melhor estas personagens, as vidas que vão tendo em conjunto.
Com o avançar da trama, contudo, o jogador sente que está a mergulhar profundamente no âmago destas personalidades, especialmente quando os segredos começam a ser revelados. Aplicações que originalmente pareciam inócuas, como PowerJob Messenger, destinada a ligações profissionais, e I-Am-Here, aplicação que serve para partilhar a localização via o sinal de GPS, acabam por escancarar o quão sombrio o jogo pode ser.
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Os puzzles continuam a assentar nos mesmos princípios, ou seja, basta não se escusarem a ler tudo aquilo que o jogo oferece com atenção e têm as informações que necessitam para aceder ao que a dona tentou resguardar. É sempre um exercício de dedução lógica. É uma questão de três ou quatro horas até estarem a desenhar o padrão que está presente na cena final e estão prontos a verem os créditos finais.
Removendo da equação processos da jogabilidade que testam a vossa habilidade, a produtora dedica-se a replicar um interface muito familiar para qualquer um que tenha um dispositivo inteligente. Na prática, é uma forma intuitiva e funcional de apresentar o videojogo, pelo que qualquer um está habilitado a fazer esta viagem emocional sem grandes restrições. Todavia, se apreciam videojogos mais tradicionais e não têm paciência para lerem muito texto, não é aqui que vão encontrar a conversão.
Claro que não demora muito até que a curiosidade para perceber o que aconteceu a Laura tome conta da experiência. Porém, a principal falha do jogo está associada à sua longevidade. Sim, é um jogo que custa 2,99€ no Android e no PC, 3,49€ se comprarem a versão iOS, mas quando o terminei fiquei com a clara sensação que estas personagens só tinham a ganhar com mais tempo na vida do jogador.
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É inegável que o final e os últimos desenvolvimentos que levam até lá têm impacto, mas se as personagens, especialmente o trio principal, tivessem sido alvo de uma caracterização mais aprofundada, então esse final teria ainda um impacto maior. Não falta talento à equipa para desenvolver estas personalidades, faltou-lhe foi tempo.
Posso escrever que não falta talento à produtora porque a escrita é boa. Convivemos com pessoas que escrevem com naturalidade, sem grandes artifícios - por muito que haja mérito num argumento poético, estas pessoas estão, durante a maioria do tempo, a fazer tarefas banais. E quando não estão, a escrita sabe acompanhar as mudanças sem cair em grandes exageros.
E essa escrita tem o cuidado de não transformar Laura numa coitada no final. Há uma escolha para fazer, mas a protagonista não perde a sua identidade, não perde a sua vontade de viver, não perde a coragem, não perde nada. Aliás, o final revela a sua força, aqui usada para não ser derrubada. E, ainda assim, a Accidental Queens não transforma esta mensagem num sermão, mas sim num tour de force.
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Com o departamento gráfico a ser colocado ao serviço do interface, seja com as funcionalidades, com as aplicações, ou com as imagens, aqui ilustradas como desenhos e parte integrante da resolução de certos puzzles, a sonoplastia aposta na banda sonora. Não há vocalização de personagens, portanto, fica a música que se revela um bom complemento. Podia ser mais variada, algo que fica claro se acederem ao leitor no próprio jogo, mas ainda assim as faixas têm qualidade e enquadram-se bem.
Another Lost Phone: Laura’s Story não tem o factor novidade do primeiro título e estas personagens beneficiavam de mais tempo com o jogador, mas ainda assim, quem gosta de histórias importantes, tem aqui uma proposta interessante. Laura deixa o jogador com esperança, depois de o confrontar com o incómodo; Laura pode ser qualquer pessoa que esteja na vida de quem joga. Pode não ser uma obra-prima, mas a indústria precisa de jogos assim e de produtoras como a Accidental Queens. Os videojogos também são isto.

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