Nem todas as relações acabam bem - nunca acabaram e nunca acabarão. Os videojogos exploram incontáveis vezes os grandes finais dados ao fogo-de-artifício lançado quando tudo fica feliz para sempre. Quem joga, tal como quem vê ou lê, pode ficar temporariamente contente pelas personagens, mas sabe no seu âmago que as suas vidas ou as que os rodeiam tiveram desfeitos bem diferentes, bem mais amargos.

Apartment: A Separated Place é uma obra que não poupa o jogador, dando-lhe tempo para acompanhar a vida de Nick e Madison, um casal de namorados que esteve numa relação durante aproximadamente quatro anos. O arranque começa com o casal a começar a viver em conjunto, mas não demora muito até se perceber que estamos a viver as memórias de um casal que o deixou de o ser; que estamos a viver a intromissão da passagem do tempo no seu meio, afastando-os.

Essencialmente, Nick vai passando o apartamento em revista, encontrando objetos que despoletam uma memória da sua relação. Quando reúne um determinado número de itens, regressa ao cavalete onde pinta - outrora com Madison a seu lado, como num domingo de ócio marcado pelo sol a aquecer o chão da divisão e a sua memória - para que o videojogo exiba uma curta intermissão que nos deixa perceber o que verdadeiramente foi acontecendo.

Quase sempre após estes momentos, Nick caminha fora do seu próprio apartamento, explorando brevemente os lares do vizinhos. São curtas histórias paralelas que ilustram como outras relações foram afetadas, também elas, pela passagem do tempo. Sente-se claramente que a The Elsewhere Company está apostada em nos fazer contemplar como a vida, a simples vida, pode mudar de tons muito rapidamente, puxando-nos o tapete de debaixo dos pés e testando a nossa capacidade de não cair - ou de cair de forma a que nos seja possível levantar.

O apartamento vai-se transfigurando com o passar do tempo. Depois das cenas em que ficamos a conhecer o relacionamento dos dois, as paredes vão-se enchendo com fotografias a assinalar esses momentos. Além disso, os objetos que vão aparecendo para interagirmos vão também ficando espalhados pelas diferentes divisões. O resultado é precisamente o pretendido: deixar um rasto das memórias que fomos experienciando; deixar um trilho sem hipotéticos desvios que podiam ter evitado este fim, mas sim a rota que ambos traçaram até a separação.

Ao longo destas escassas horas, o nosso coração vai-se afundando. Apartment: A Separated Place conta detalhes rente ao osso. “Ela costumava enviar-me mensagens quando ficava a trabalhar até tarde. Não o fez durante os últimos meses” e “ela esteve fora durante uma semana numa viagem de negócios. Não senti falta de Madison enquanto ela esteve ausente” são mensagens que começam a ilustrar uma relação a assumir a sua própria identidade, como se ambos estivessem a alimentar um monstro.

Posteriormente, estes pequenos parágrafos que acompanham os objetos encontrados enaltecem o precipício, não se esquecendo de ilustrar breves momentos de esperança. Uma peça de roupa esquecida no sofá serve para ficarmos a saber que no final tudo servia para os irritar, “até discussões sobre a televisão”. “Preciso que estejas aqui para mim. Preciso que te comportes como um adulto”, diz Madison numa das cenas antes de acrescentar que “eu tenho uma carreira, Nick”. Uma cena, aliás, que termina com aquilo que o jogador já suspeitava: “o apartamento transformou-se num museu”.

O arco narrativo de Apartment: A Separated Place funciona de forma inequívoca porque não quer edificar uma heroína ou um herói, mas também não quer arranjar culpados. A relação falhou porque falhou. Nick e Madison não resultaram porque as personalidades foram desaguar noutros mares. O jogador sofre, atento, sabendo que esta é a vida e que a vida não é um conto de fadas. Mas a verdade é que não precisa de ser. Cada um, tal como os protagonistas, tem memórias de pináculos de alegria partilhados e tem também a dor e a tristeza da separação. Tudo fez, faz e fará parte de viver.

Quando estamos a experienciar as vidas dos vizinhos, a obra aproveita para diversificar a jogabilidade. Há trechos em que se transforma numa caminhada pela floresta ou em side-scrolling. E há até um trecho, provavelmente onde a criatividade fica mais patente, em que escrevemos no teclado do nosso computador o que a personagem está a escrever no jogo. Nesta cena, o destaque é a pressão de estarmos numa relação em que o companheiro nos interrompe constantemente e onde há também uma dose adicional de dilema que nos chega através de mensagens de texto (enviadas por alguém com quem nem devíamos estar a falar).

Lembram-se da cena em side-scrolling em que o texto vai passando a diferentes velocidades pelo ecrã? É um pai que lida com o crescimento da filha que chega aos treze anos e não quer celebrar o aniversário com os pais. E quando pensamos que este crescimento em direção à adolescência é o tema, o jogo surpreende e estilhaça ainda mais o núcleo familiar, levando a jovem a afirmar que “já não somos uma família”. É um vislumbre complicado, mas de inegável importância.

Nestes arcos, contudo, está também um dos momentos mais emocionantes. Depois de uma relação com dezenas de anos, uma idosa perde o seu marido. Olhando para trás, percebemos o impacto que William teve na sua vida e, perto do final, contempla aquilo que será agora que está sozinha, não se esquecendo de traçar paralelismos com o caminho até então. Tem a cadência e a duração - apenas alguns minutos - certas, pois é um soco rápido no estômago, deixando o jogador a pensar na trajetória de uma vida passada ao lado de outra pessoa.

O alcance, a mensagem e a qualidade de escrita presentes em Apartment: A Separated Place são incontestáveis, algo que não pode ser dito, todavia, sobre alguns processos básicos da jogabilidade. Sem nunca ser exigente, em algumas destas variações da jogabilidade torna-se claro o esquema de controlos rombo. Aliás, esta oscilação é também aplicada ao departamento gráfico.

A maioria das vinhetas tem como base um grafismo - mais do que propriamente detalhado - que se presta a afiar a ponta com que a mensagem é entregue. A mudança do apartamento, o vazio das outras casas, a excelente arte com que conta as intermissões, tudo está aprimorado. Contudo, em casos esporádicos, como a modelagem das personagens e também, por exemplo, numa cena em que estamos na floresta, são demonstrados alguns efeitos e texturas menos conseguidas.

E este departamento técnico prima também por ser diverso. Na história da idosa, por exemplo, o esquema de cores muda e o grafismo é preto e branco. Noutro momento em que conduzimos um carro e um barco, o jogo parece ter sido literalmente pintado numa tela, sendo ainda visíveis os detalhes da superfície antes da tinta lhe chegar. Menos variada, mas também eficaz é a sonoplastia. Sobretudo assente em tons calmos, de destacar os trechos com piano e os efeitos que o têm como alicerce.

Apartment: A Separated Place não quer suscitar drama desmesurado. É uma obra que não promete nada a ninguém, incluindo aos seus protagonistas. Pode transparecer ocasionalmente a sensação que devia ser mais polido, contudo, o seu grande trunfo é fazer parar para pensar e, sobretudo, sentir. Nada devia ser tomado como garantido e por muito apertados que possam parecer, alguns nós estão destinados a desamarrar-se. A Separated Place limita-se a quebrar a ilusão além do videojogo até à vida de cada um. E só isso já é bastante.