Como era fácil de antever, a história de Arise não é assim tão simples como o título dá a entender. Na sua essência estamos perante uma aventura abertamente emocional, que não tem pudor em recorrer a muletas já experimentadas para fazer o jogador sentir algo durante o tempo que passa com a proposta da produtora espanhola Piccolo Studio.

Logo nos momentos iniciais ficamos a sentir na pele o tom da aventura. O protagonista, uma figura velha de barba branca, está morto. O jogo começa com a sua cremação, um acontecimento que nos transporta para os funerais viking, com enormes archotes a arder e o corpo do falecido aberto à contemplação e à despedida.

Durante as horas seguintes, Arise: A Simple Story leva-nos pela viagem deste protagonista enquanto revisita momentos marcantes da sua vida. É uma espécie de digressão por aquilo que ele viveu, mas que o jogador fica a conhecer pela primeira vez. O amor, a separação, a tristeza, a alegria, enfim, é o condensar de uma vida em níveis que estão ordenados pelas fases da sua existência: Alegria, Romance, Confronto, Esperança, etc, são dez níveis.

É genuinamente eficaz, algo que se deve também à forma como a Piccolo enquadra os momentos mais marcantes. O passar do tempo nas memórias do protagonista é a depuração de como a vida passa para todos nós, ou seja, é como se fosse a sua última oportunidade para recordar quem ama antes da despedida. Sem grande surpresa, este arranjo faz inevitavelmente com que o jogador comece a lembrar-se das diferentes fases da sua vida até este momento, contemplando o que poderá acontecer até à idade do protagonista.

Na jogabilidade é encontrada uma das componentes mais interessantes - e que inevitavelmente conduz também alguns dos momentos mais frustrantes. Na sua essência, Arise é um jogo de plataformas com puzzles ligeiros. Mais: dir-se-á que vive na junção destes dois géneros, pois como vão perceber os mesmos são indissociáveis. E nessa mesclagem está a mecânica que permite controlar a passagem do tempo.

O protagonista consegue saltar, escalar pontos do cenário devidamente assinalados, e atirar um ganho, balanceando-se entre plataformas e até puxar itens, fazendo-os tombar e abrindo assim novos caminhos. Até aqui, não há nada de verdadeiramente assinalável, porém, o analógico direito não controla a câmara, mas sim o tempo. Para a esquerda e para a direita fazem com que o tempo recue ou avance, o que faz obviamente com que o cenário evolua em tempo real à nossa frente.

Por exemplo, podem ter que manipular o tempo para fazerem uma porção do cenário encher-se de água e assim chegarem a uma nova altura em cima de algo flutuante; podem ter que recuar o tempo para devolver à forma original um precipício caído; podem até ter que temporizar a queda de um trovão para passarem por uma multidão de criaturas negras que desaparecem quando há luz no cenário.

Tudo isto é conjugado com os saltos, o lançamento do gancho, e até a escalada, por exemplo. A câmara não é totalmente fixa, uma vez que é possível ajustá-la ligeiramente usando a direção vertical do analógico direito, contudo, são perspectivas que nem sempre oferecem o melhor ângulo possível. Os comandos não são rombos, todavia, ocasionalmente não têm a precisão necessária - o que aliado aos problemas com a câmara fazem com que alguns trechos irrompam com a tranquilidade e introspecção que Arise quer transmitir.

Para que fique claro, não estamos perante uma obra difícil - seja nas plataformas ou nos puzzles propostos. Sente-se que o foco é o contar de uma história, o que talvez explique a falta de preocupação nesses momentos. Importa destacar que Arise conta ainda com uma mecânica que permite parar o tempo. Assim, têm que o fazer avançar e recuar enquanto procuram o momento para solucionar o enigma, parando-o com o premir de um botão enquanto a personagem faz a sua natural progressão por esta conjugação. Mas não é algo que deixe o jogador assoberbado com a quantidade de processos que têm para dominar.

Se tivermos em consideração que estamos perante um jogo com uma única personagem e onde toda a aventura é pautada pela solidão, a inserção de um modo cooperativo local foi uma surpresa. Na prática, com dois DualShock 4 ligados à PlayStation 4, um jogador controla os movimentos da personagem e o segundo jogador fica responsável pela manipulação do tempo. É simples, claro, mas resulta, uma vez que obriga a que haja um diálogo e uma coordenação entre as duas partes.

É, aliás, uma forma interessantíssima de testemunhar os acontecimentos que vão passando pelo ecrã. Além de quebrar a solidão do próprio jogador, estamos perante um mecanismo que permite partilhar a emoção, comentando-a e, derradeiramente, conversando sobre as tristezas e alegrias das vidas que estão a partilhar a experienciação de Arise: A Simple Story. É também uma maneira de encontrar motivação para explorar a fundo todos os recantos dos cenários enquanto se procura mais um colecionável, que aqui têm a forma de recordações.

Sendo uma obra que não conta com vocalização, esta catadupa de cenas emocionais são contadas pelo que está à nossa frente, como estátuas de pedra que funcionam como retratos congelados no tempo. Funciona, como já foi mencionado, mas seria injustíssimo não mencionar a excelente banda sonora que nos vai acompanhando e exacerbando estas partes. São melodias cirúrgicas, tocando nos momentos certos para instigar a mensagem a passar.

E a outra componente técnica não fica atrás. O mesmo é escrever que o grafismo, mesmo sem ser fotorrealista ou com áreas enormes, consegue apresentar-se em moldes que lhe dão carisma e uma aura própria. O jogo é melancólico e a produtora encontrou talento para que haja uma coerência apesar da diversidade - basicamente, cada um dos níveis edifica cenários com tons e áreas para condizer com o título. Jogam em áreas cheias de luz e outras marcadas pelo sombrio e pelo tempestuoso.

Quando chove e está praticamente noite, os efeitos do fogo e da chuva, por exemplo, são usados com mestria para elaborar um “estado de alma”. Antes, enquanto saltamos entre girassóis, sente-se o oposto - não uma alegria, mas sentimentos mornos. O mesmo pode ser dito quando atravessamos um campo com pétalas a voar ou quando deixamos pegadas na lama ou um rasto na neve fresca. São fragmentos que ajudam a solidificar a estadia na obra como um todo.

Arise: A Simple Story é o jogo de estreia da Piccolo Studio e é uma chegada à indústria que vale a pena prestar atenção. Sim, é verdade que a câmara e os controlos têm alguns estádios menos fluidos, mas não chega para arruinar o que é passado e sentido pelo jogador. E é uma obra publicada pela Techland, responsável por Dead Island e Dying Light, provando que o artesanal e o blockbuster podem afinal andar de mãos dadas.