Os jogos de tabuleiro e de cartas são uma excelente forma de passar um serão com os amigos ou família. Há diversão garantida e conversas paralelas enquanto aguardamos vez para jogar. Infelizmente, a estreia da australiana League of Geeks carece de sociabilização, contudo oferece um jogo de tabuleiro digital bastante competente, com uma arte divinal.

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Como contexto narrativo, a produtora australiana decidiu entregar um argumento simples inspirado na Guerra dos Tronos com animais antropomórficos. O rei adoeceu e sofre de uma enfermidade - denominada de Rot - que lhe agendou o fim dos seus dias. Os vários clãs que habitam Armello souberam desta notícia e preparam-se para avançar na tomada de posse do trono. Seguindo as tradições clássicas temos um rei leão, ursos, lobos, coelhos, ratos, que representam um clã com as suas próprias ambições e estatutos sociais no reino.

Depois de selecionarem uma personagem de um dos quatro clãs mencionados, terão de a equipar com mais alguns itens que lhe aumentarão os seus atributos. Estes atributos são Fight, Health, Wits e Spirit, cada um com a sua função em batalhas e na exploração do jogo. Feito este processo, estão prontos para começar Armello. Ou melhor, depois de se terem aventurado pelo tutorial que vos explica passo a passo todos os seus detalhes para saírem vitoriosos.

Como já devem ter percebido, o objetivo do jogo é alcançarem o trono e substituírem o rei que se torna cada vez mais enfermiço dia após dia. Com o seu destino traçado, os heróis escolhidos para conquistarem o trono têm que reunir algumas condições ao longo do jogo. A mais comum e fácil de atingir é acumular a maior de Prestige. Esta pode ganhar-se de várias formas. Eliminar oponentes, guardas ou Banes (aves monstruosas afetadas pelo Rot), é uma das formas mais habituais.

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Todavia, ainda podem defrontar diretamente o rei em combate e sobreviver a esta batalha garante-vos a vitória, ou eliminá-lo caso tenham um valor de Rot mais elevado do que o rei. Contudo, estas últimas duas hipóteses são extremamente difíceis de atingir, só jogadores com grande experiência no jogo é que conseguirão arriscar tal forma de vencer. Sobreviver em Armello não é fácil, existem inúmeros perigos que podem praticamente anular estas formas de abordar a partida.

O jogo é representado na terra de Armello, dividido por espaços hexagonais, que simbolizam as casas pelas quais podem mover a vossa personagem. Cada uma tem as suas características próprias, temos áreas habitacionais, florestas e calabouços, só para citar algumas. Porém, num tabuleiro dividido por mais três jogadores ou por personagens controlados pela inteligência artificial, por guardas da realeza e Banes é quase impossível conseguir fazer uma partida inteira sem morrer pelos menos um par de vezes. Mas é possível evitar ao máximo com a ajuda de cartas.

Armello também tem um sistema de cartas que altera constantemente a vossa estratégia de jogo. Categorizadas em Items, Tricks e Spells, estas abrem o vosso jogo com mais oportunidades de vencer, ou de complicar a vida aos vossos oponentes. Contudo, com as cartas do baralho Tricks, também podem consagrar alianças com outro jogador, como por exemplo uma carta que quando aplicada enche os vossos bolsos com um incremento de moedas de ouro, enquanto vocês e o herói ao qual colocaram este efeito permanecerem vivos.

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Os itens servem, na maioria das vezes, para vos dar equipamento para estarem mais preparados para o combate e aumentarem as vossas chances de saírem vitoriosos, ou não serem mandados de volta para a casa do vosso clã após terem morrido. As cartas de efeitos mágicos têm tendência a dar um aumento temporário aos vossos atributos, ou por vezes à forma como podem jogar. Uma das que achei mais útil foi uma que me permitia avançar mais uma casa durante dois dias consecutivos.

Um dos maiores problemas de Armello é a sua incapacidade de socializar decentemente, para além do seu sistema de comunicação implementado, que permite usar apenas frases pré-programadas. Jogar sozinho é entediante, enquanto aguardamos pela vez da IA não podemos fazer nada para além de ver as suas jogadas e de pensar numa nova estratégia conforme as jogadas que se vão desenvolvendo.

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Muitas vezes o sistema de demandas, para ganhar Prestige, refugia o jogador para trabalhar de forma solitária até que o rei morra. Mas à medida que o jogo progride, ou seja, o rei vai ficando cada vez mais consumido pela sua doença, também os perigos são maiores e o combate leva-vos mais provavelmente para uma derrota, do que para uma vitória, mas se sobreviverem é possível que não sobrevivam a uma segunda investida dos Banes.

Porém, pessoalmente, a lacuna mais evidente é a ausência de multijogador local. Esta ausência destaca-se sobretudo quando acabamos a nossa vez e temos de esperar por todos os intervenientes para jogarem. Em vez de estar focado no jogo, porque quando chega a minha vez posso rever tudo o que foi feito no registo, fico distraído e faço uma outra tarefa no telemóvel ou retomo alguma conversa no Skype para ocupar este tempo morto. Seria muito agradável poder convidar três amigos para nos divertirmos com Armello e conversar sobre qualquer outro assunto, ou melhor, comentar com tom jocoso as jogadas que estão a ocorrer.

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A arte do jogo foi auxiliada pelos estúdios australianos Screen Australia e Film Victoria Australia e vemos claramente o resultado brilhante que esta colaboração teve. Os desenhos, a animação, a coloração, enfim, todos os detalhes do grafismo de Armello foram sujeitos a um labor cuidado. Até me arrisco a dizer que chega muito perto dos patamares de qualidade de uma película de Walt Disney. As próprias cartas exibem uma pequena animação com desenhos que dão vida às personagens lá representadas. Já a sonoplastia, que tem o mesmo nível de dedicação, não se reflete tanto como os visuais, porque muitas ocasiões da partida, esta está desligada ou em volume muito baixo.

Se gostam de jogos de tabuleiro, têm mais três amigos com o Armello e a possibilidade de ligar-lhes através de uma sala de chat, esta obra australiana é uma proposta boa para ocupar muitas sessões das vossas noites.