Tal como muitas das obras independentes lançadas nos últimos anos, Armikrog passou do papel para a realidade com a ajuda da plataforma de financiamento público, o Kickstarter, que tem sido responsável por angariar fundos para projetos de enormes dimensões e muito desejadas que de outra forma dificilmente veriam a luz do dia. Entre os exemplos estão o regresso de Tim Schafer às aventuras point & click com Broken Age, a sequela espiritual da série Castlevania produzida por Koji Igarashi que dá pelo nome de Bloodstained, o regresso dos antigos membros da Rare aos títulos de plataforma 3D com Yooka-Laylee e, claro está, Shemnue III.

Armikrogps4.png

Como é óbvio, o título sobre o qual esta análise se versará está muito longe da dimensão mediática daqueles mencionados no parágrafo anterior, mas isso não significa que não pudesse ser mais um bom exemplo do quão positivas plataformas como o Kickstarter podem ser para esta indústria. Com quase 1 milhão de dólares angariados durante o período de financiamento, esperavam-se boas coisas do projeto da Pencil Test Studios, infelizmente, como certamente já terão percebido pela nota que acompanha este texto, o resultado final é uma clara desilusão.

Armikrog segue a história de Tommynaut, um astronauta e explorador espacial que se faz acompanhar pelo seu fiel canídeo Beak-Beak que após se despenharem no planeta Spiro 5 dão por si presos na fortaleza que dá nome ao jogo. Alternando entre estas duas personagens, o jogador desvendará os acontecimentos que tiveram lugar em Armikrog ao mesmo tempo que procura um meio para escapar do planeta em que se encontram. Apesar de a narrativa principal só se tornar verdadeiramente percetível bem perto do final da aventura, a verdade é que esta nunca consegue cativar ou captar a atenção do jogador.

Armikrog 2ps4.png

De uma forma geral, o título tenta recriar a magia de alguns dos desenhos animados da nossa infância, seja através do estilo visual, do trabalho de vozes e até mesmo do humor claramente mais virado para um público mais jovem, contudo, nenhum destes elementos consegue elevar a experiência oferecida ao ponto de tornar a obra mais apelativa para um leque mais diversificado de jogadores. A narrativa não convence, as personagens não são memoráveis e o mundo não é particularmente interessante, acabando o jogo por sofrer claramente devido a estes elementos.

Se a história deixa a desejar, a jogabilidade é um fracasso ainda maior, estando recheada de problemas que adicionam frustração ao aborrecimento proporcionado pela narrativa. Sendo na sua essência uma aventura point & click recheada de puzzles, Armikrog é incapaz de proporcionar momentos interessantes, optando por oferecer puzzles desinteressantes e resoluções demasiado complexas ou então que se arrastam por demasiado tempo. Existe um puzzle que envolve o choro de um bebé que é especialmente irritante, principalmente porque o único método de resolução é o processo de tentativa e erro.

Armikrog 3ps4.png

Como se a repetição do mesmo género de puzzles frustrantes, desinspirados e demorados não fosse suficiente, a adaptação do título lançado originalmente para o PC ao DualShock 4 está longe de ser a melhor e acaba por dificultar em muito a resolução de alguns quebra-cabeças. Falta de precisão e inconsistência são os principais problemas e, embora a obra tenha uma curta duração, são suficientes para criar inúmeros momentos de genuína frustração e capazes de destruir qualquer tipo de diversão que estejam a ter com o título.

Sem grandes surpresas, o estilo visual stop-motion com construções de plasticina é claramente o elemento mais interessante da experiência, mas mesmo aí nem tudo corre tão bem como seria desejável. Se é inegável que este grafismo confere à obra uma identidade única e bastante apelativa, também não deixa ser igualmente verdade que as cinemáticas sofrem com uma resolução fraca e com movimentos pouco naturais que dão uma sensação de algum amadorismo.

Armikrog 4ps4.png

Em suma, Armikrog é uma aventura point & click demasiado fraca para ser merecedora da vossa atenção e nem mesmo o seu estilo visual interessante é capaz de elevar a experiência para um estatuto acima da mediocridade. Controlos pouco otimizados para consolas, puzzles desinteressantes e frustrantes, narrativa, mundo e personagens pouco memoráveis são apenas alguns dos principais problemas de uma obra que deveria ter sido muito mais para justificar o valor angariado no Kickstarter.