Será muito difícil esquecer o estilo gráfico de art of rally, obra tão apostada em encher as retinas com algo interessante que até o nome é estilizado apenas em letras minúsculas. Resultado do talento da funselektor, produtora que já tinha entregado Absolute Drift, estamos perante uma abordagem à condução que coloca o músculo na contemplação e numa quasi-meditação em alguns traçados.

As horas acumulam-se no modo carreira enquanto descobrimos o que cada uma das categorias consegue fazer pela jogabilidade. Dividido por grupos, este modo permite desbloquear novos bólides - estão incluídas mais de cinco dezenas - e pinturas, alguns dos quais verdadeiras surpresas. Uma vez que começamos a nossa estadia no grupo 2 a olhar para o que podemos desbloquear, art of rally não precisa de muito tempo para nos aguçar a curiosidade.

Não há grandes truques para a progressão no modo principal, sendo uma agradável e equilibrada passagem pela história do desporto motorizado. Por exemplo, o grupo 2 inclui provas entre 1967 e 1971, enquanto o grupo b já nos permite pilotar bólides inseridos em competições que decorreram até 1986. Cheguem ao último grupo e já estarão sentados ao volante de veículos que marcaram os anos noventa, com art of rally a levar-nos até 1996.

Esta seleção tem naturalmente um impacto na jogabilidade. Não apenas as melhorias na potência, mas também na manobrabilidade. A forma como as curvas são negociadas são distintas, tal como é a forma, por exemplo, como um carro “aterra” na pista depois de um salto - algo que não demorarão muito a perceber, ser crucial. O mínimo deslize na forma como apontam a frente do veículo antes de levantarem voo é quase um atestado para lutarem com os controlos depois de Sir Isaac Newton mostrar novamente que estava certo.

Apesar de a obra nos avisar que cada temporada tem rallies que são gerados aleatoriamente, o cômputo geral do que os traçados oferecem é francamente positivo. Como os carros se comportam de forma diferente, há quase sempre o sentimento que estamos a ser testados, processo que está alicerçado na diversão contemplativa. Ensaiar uma curva com um veículo pequeno é genuinamente diferente de fazer o mesmo com um carro com uma distância maior entre eixos.

Independemente do piso em que estamos a correr, nota-se o esforço da produtora em dotar as pistas com sequências pensadas para que o jogador retire satisfação da condução enquanto mostra o que vale. Nestes momentos, sejam curvas encadeadas, viragens que tocam os noventa graus, ou no deslizar das quatro rodas enquanto controlamos a traseira com a aceleração, art of rally consegue brilhar com intensidade, com bastante intensidade.

Há, contudo, alguns problemas. Como não temos as instruções do co-piloto, por diversas vezes somos apanhados de surpresa. É certo que estes momentos podem ser encarados como parte das mecânicas, sendo também verdade que temos um determinado número de recomeços e o processo de repor o carro na pista, ainda que tal seja acompanhado de uma penalização no tempo. Mas não deixa de ser momentaneamente frustrante porque são situações que andam de mão dada com a seguinte constatação.

Apesar de nas viragens mais cegas, como quando conduzimos nas ruas das vilas que entram e saem do nosso campo de visão num piscar de olhos, o jogo permitir ver através dos edifícios para sabermos onde a estrada continua - algo também presente, por exemplo, quando a vegetação é densa -, a funselektor não conseguiu resistir à tentação de colocar algumas “armadilhas” nos traçados, algumas das quais ingratas.

Por diversas vezes, depois de um salto há pedras escondidas, fazendo o carro ressaltar ou ficar preso, quase sempre sofrendo dano se tiverem essa opção ativada. Mesmo nas curvas mais corriqueiras, há árvores estrategicamente colocadas para que a traseira do bólide rodopie. Não tenho qualquer problema na disposição de obstáculos que testam a habilidade, como mecos nas retas que destroem o carro se sairmos um centímetro fora da pista, ou itens que improvisam chicanes, não, o problema está quando esses contratempos são colocados deliberadamente para tentar arruinar a prestação.

Como seria de esperar, nem todas as lutas pelo melhor tempo possível são iguais. Algumas pistas levam-nos a pilotar em terra batida, enquanto outras decorrem sobre asfalto. Há corridas durante o dia e outras a acelerar pelo breu da noite. Há sol, chuva e neve também. E art of rally chega mesmo a combinar vários factores, testando ainda mais a habilidade e a concentração do jogador.

Correr na Finlândia, portanto, é muito diferente de competir na Alemanha, na Sardenha ou no Japão. Por exemplo, a chuva acrescenta a natural dificuldade do piso escorregadio, o que obriga automaticamente a uma adaptação por parte do jogador. A neve volta a modificar a jogabilidade, tornando-a ainda mais exigente. São condições, todavia, que adensam a satisfação de uma curva dominada num deslizar pela trajetória ideal.

Além do modo carreira, há contrarrelógios, rallies que podem ser personalizados pelo jogador transformado em alfaiate de parâmetros, estando também incluídos um modo de exploração livre (onde podemos correr com os carros desbloqueados e tentar encontrar colecionáveis) e ainda uma componente com eventos online. Sobre a integração do online, há desafios diários e semanais, o que poderá ser uma forma de prolongar a longevidade da obra a médio-prazo, dependendo da adesão da comunidade.

É, porém, o estilo gráfico que está na essência de art of rally. Optando por formas poligonais, Dune Casu ergue um jogo com um enorme carisma sustentado pela escolha de cores. Sejam as cerejeiras em flor no Japão, os tanques parados junto à estrada na Alemanha ou as praias na Sardenha, a competição faz-se com uma envolvência permanente e inquestionável. Isto permite que o transporte para o virtual seja uma viagem inspirada.

Pode parecer que o grafismo é rudimentar, mas é precisamente o oposto: é uma carta de amor às provas de rally pretéritas, uma estadia numa máquina do tempo que brilha na modelagem dos diferentes carros e nos cenários pelos quais vamos passando enquanto galgamos quilómetros. E o detalhe está lá, seja nas marcas deixadas pelos pneus quando deslizamos ou os discos dos travões que cortam a noite incandescentes. Tudo enquanto assistimos à acção escolhendo de várias câmaras top-down.

Os membros do público estão entre outros dos detalhes que servem para mostrar o cuidado do criador. Também com formas retas, adicionam algo à essência da obra. Têm a Inteligência Artificial de uma pedra a cair por uma encosta abaixo, sim, colocando-se várias vezes à frente do carro em vez de se desviarem, mas acrescentam cor e espectáculo ao pano de fundo composto por vistas memoráveis.

No que à sonoplastia diz respeito, os temas da banda sonora assentam bem no embalamento para as nossas prestações. Outro ponto a reter é que os efeitos sonoros são assinaláveis: o som dos motores, por exemplo, ou então o apontamento que é as pinças dos travões a tocarem no metal enquanto tentamos abrandar o carro. Podem parecer pontos micro, mas quando os somamos todos ficamos com uma ideia da importância inegável que têm.

art of rally chega hoje, dia 23 de setembro, ao mercado, ficando disponível em diversas lojas digitais no PC. São mais de cinquenta carros para competirem em mais de sessenta etapas, tudo envolvido num departamento técnico que não tem medo de arriscar e de oferecer algo do coração para os olhos. Tem alguns momentos capazes de fazer o sangue ferver, mas olhando para trás as memórias são predominantemente positivas, uma mesclagem desafio e de contemplação.