As séries de desenhos animados são inequivocamente pontos altos da infância de cada um. Os benjamins contemporâneos ainda não sabem, mas estão neste preciso momento a criar memórias que os atingirão nostalgicamente daqui a dez ou vinte anos. Lembro-me perfeitamente do Bocas e do Mofli, duas séries sobre as quais revolvia o meu dia-a-dia. Também desse tempo é a saga As Misteriosas Cidades de Ouro, uma parceria dos estúdios DiC Entertainment e Studio Pierrot. O primeiro lote de episódios data foi exibido no início da década de oitenta, porém, uma segunda toma regressou no ano passado e está neste momento a ser exibida no canal Panda.

Atenta, a Neko Entertainment resolveu adaptar a série a videojogo e o resultado, As Misteriosas Cidades de Ouro: Caminhos Secretos, já pode ser descarregado da eShop e experimentado na Nintendo Wii U. A história é simples: partir numa aventura à procura da Cidade de Ouro. A tarefa está a cargo de um trio de protagonistas: Esteban, Zia e Tao.

Talvez ciente da audiência alvo, a produtora optou por deixar de fora qualquer resquício de violência, relegando as mecânicas bases da sua jogabilidade no varrimento dos cenários esgueirando-se por entre guardas, resolvendo puzzles e utilizando a habilidade única de cada uma das personagens. Começando pelo elemento de ação furtiva, sempre que um guarda repara na vossa presença, é exibida uma linha segmentada que vai expandido até formar um traço contínuo - é este o tempo que têm para se esconderem fora do ângulo de visão do guarda. Porém, o uso do termo "furtivo" é ser generoso. Na prática, além dos guardas terem uma inteligência artificial reduzida, é possível escondermo-nos num objeto mesmo à sua frente e a situação fica resolvida. Quando forem apanhados, o castigo é tão leve que incita a um cuidado maior. Um minuto depois já estão onde a situação descambou.

Quando não estiverem a jogar às escondidas com a atenção dos vigilantes, estarão a resolver puzzles que, fique já esclarecido, são extremamente fáceis. Quase sempre têm que colocar as personagens em placas de pressão. Coloquem a primeira num determinado ponto e o próximo ponto de pressão é desbloqueado. Quando o trio de protagonistas não for suficiente, perto estará uma pedra ou acessório que serve como elemento complementar. Outra mecânica recorrentemente usada é a conjugação ordenada de alavancas que permitem desbloquear o caminho. Para corroborar a facilidade e fraca inspiração dos puzzles, ocasionalmente terão que ativar plataformas seguindo uma determinada ordem, porém, a solução está invariavelmente à frente dos vossos olhos.

A mecânica mais interessante é a conjugação constante da habilidade que cada uma personagem tem. Começando por Esteban, o rapaz órfão é capaz de chamar a si o poder do Sol e canalizá-lo para o seu medalhão. O resultado prático é a ativação de alguns mecanismos que ajudam à progressão no nível. Tao consegue ler textos ancestrais que detalham a resolução de alguns puzzles. Além disso, Kokapeti, o seu papagaio, é capaz de roubar chaves aos guardas, bastando para isso estar relativamente perto do alvo. Finalmente, Zia consegue esgueirar-se por pequenas aberturas no cenário do jogo, sendo assim capaz de chegar a lugares inacessíveis ao resto do elenco.

Depois de saberem o que cada um é capaz de fazer, é fácil perceber que os níveis foram desenhados sempre com essas habilidades em mente, resultando numa fórmula que depressa se desgasta, sobretudo devido à falta de ideias para melhor aproveitar a conjugação do trio. Depois dos primeiros níveis, já conseguimos antever o que Caminhos Secretos vai oferecer a seguir. Existem dois esquemas de controlos diferentes: podem optar por trocar de personagens tocando no ecrã ou recorrendo aos botões ZL e ZR que estão nas costas do vosso GamePad.

Para tornar o processo mais interessante, a Neko incluiu várias medidas de avaliação. Rapidez, número de vezes que foram apanhados pelos guardas e o número de pergaminhos que conseguiram recolher, sendo que estes estão espalhados pelo cenário de jogo e distribuídos pelas várias personagens, ou seja, Esteban pode chegar um ponto do cenário com dez pergaminhos, porém, se a sua cor indicar que apenas Zia os pode apanhar, terão que alterar de personagem e descobrir um caminho para guiar a personagem válida até eles, o que, em abono da verdade, é geralmente extremamente fácil. Um último ponto de avaliação dá conta se apanharam ou não um cofre que está escondido em cada nível. Normalmente isto faz com que saiam do caminho principal para o tentarem descobrir. Infelizmente, o prémio não compensa o vosso trabalho, oferecendo ilustrações que podem ser apreciadas mais tarde.

Tecnicamente, nada é impressionante. Ainda que alguns cenários apresentem alguma atenção dada aos detalhes, falta-lhe carisma, momentos memoráveis e uma maior variedade. O ponto mais forte são as cenas de vídeo que recorrem a desenhos animados para explicar o que se está a passar em níveis. Não colocando em causa a sua qualidade, a edição dos vídeos deixa algo a desejar, sobretudo devido aos cortes abruptos. A Nintendo Portugal assina mais uma localização do texto para o nosso idioma, o que é de salutar, sobretudo porque o público-alvo de Caminhos Secretos poderá ainda não dominar o inglês.

As Misteriosas Cidades de Ouro: Caminhos Secretos é um jogo que poderá entreter os mais novos que estão agora a descobrir a série, todavia, os espetadores originais terão agora uma idade que exige mais complexidade. Os puzzles, a exploração dos cenários e os mecanismos que permitem avançar deixam a desejar e não espevitarão a motivação a quem já tiver deixado a escola primária para trás. A troca das personagens e subsequente aproveitamento das suas habilidades únicas é a mecânica que apresenta algum desafio, porém, nunca chega a ser suficiente para fazer o jogador parar, respirar e usar a câmara do jogo para perceber onde está e o que tem a fazer.