Filipe Urriça por - Mar 3, 2022

Aspire: Ina’s Tale (Switch) – Análise

Os jogos de plataformas existem há décadas, contudo já tiveram dias melhores. Podem ser aparentemente simples como a excelente obra indie de Edmund McMillen e Tommy Refenes, Super Meat Boy. Ou podem ter algumas camadas de complexidade que vão muito mais além do salto, como o segundo jogo da Playtonic Games, Yooka-Laylee and the Impossible Lair. Não há dúvidas que um jogo de plataformas é bom quando as suas mecânicas estão bem apuradas e afinadas. Algum controlo rombo é o suficiente para deixar cair o jogo por terra em situações com desafios mais exigentes. Aspire: Ina’s Tale quer ser um conto de fadas inspirador com uma protagonista feminina, mas falha essa ambição por ser precisamente frouxo nas mecânicas. As mecânicas, que no seu conjunto constituem a jogabilidade, são o mais importante num videojogo, é o que sustenta todo o interesse que a obra em questão tem – claro salvo algumas exceções.

Aspire: Ina’s Tale não demora muito tempo a explicar-nos as suas mecânicas principais: saltar e correr; não complicará muito mais do que esta dualidade de ações para o movimento. Depois, para resolver uma grande parte dos puzzles, Ina pode empurrar objetos, puxar alavancas, assim como inserir ou remover espíritos de determinados objetos (o que serve essencialmente para despoletar uma ação mecânica, como a abertura de uma porta ou a movimentação de uma plataforma). Contudo, o ênfase deste labor de produção independente está na trama, que teima em querer ser a estrela do jogo e estar de costas voltadas para a jogabilidade, quando poderiam as duas estar de mãos dadas em perfeita harmonia. Isto retira valor ao design dos níveis e das mecânicas associadas ao controlo da personagem. Infelizmente, nem a narrativa é capaz de ser apelativa, o que se salva são mesmo alguns quebra-cabeças bem pensados. Aliás, é raro haver um desafio que seja enfadonho.

No capítulo da jogabilidade, Aspire: Ina’s Tale ainda se vai safando, excepto quando o controlo é rombo. Esta obra tem puzzles bastante competentes e interessantes, mas nada de absolutamente fantástico que eleve a criatividade a um ponto de nos deixar extasiados com o que estamos a fazer – não é um exercício estimulante para a nossa massa cinzenta. Pontualmente, visto que os controlos não são cem porcento precisos, somos assolados por alguma frustração, quando o jogo demora a responder às nossas indicações que fazemos com o analógico ou, mais frequentemente, com o botão do salto.

Este jogo da Wondernaut Studio quer ser primeiro, uma história e só depois um jogo mecanicamente bem estruturado. Foi nesta ambiciosa vontade em apostar todas as fichas na narrativa que Aspire: Ina’s Tale não conseguiu ser mais do que aquilo que podia – um jogo mediano. Ina é a personagem principal do jogo, afinal o título diz-nos claramente que esta é a sua história. Esta rapariga acorda numa torre e de lá quer escapar, pelos seus próprios meios – Ina está longe de ser uma frágil donzela à espera que o seu príncipe encantado a venha salvar. Esta torre é muito peculiar, pois alimentar-se dos sentimentos e sonhos de Ina, transformando-se à medida que avançamos para o desconhecido. A nossa protagonista não é a única pessoa que ficou presa na torre, estão lá vários indivíduos que partilham um passado com o local e, portanto, vamos levantando o véu sobre os mistérios escondidos neste lugar enigmático à medida que devolvemos a memória a quem a perdeu.

Estamos perante um jogo de plataformas que não inova e não faz nada de realmente revigorante em termos mecânicos. Aspire: Ina’s Tale não precisa de ser um exemplo exímio – nenhum jogo precisa de o ser para ser considerado bom – para representar o género em que se insere, mas não teria feito mal nenhum se o fosse. No entanto, o jogo tem a necessidade de ser minimamente divertido ou ser mentalmente estimulante para termos razões para continuar a avançar, sobretudo com o apoio de uma estrutura de mecanismos e sistemas sólidos. E é claramente aí que este título da Wondernaut Studio falha. Há uma certa lentidão nos movimentos de Ina, principalmente quando salta e tem de correr. Por exemplo, em situações onde há quebra-cabeças que envolvem monstros e Ina tem que escapar, o desafio acaba por ser um exercício frustrante porque perdemos quando podíamos ter muito bem ter ultrapassado o puzzle à primeira tentativa.

Um jogo pode ter origens humildes e ser tão bom ou melhor do que qualquer outro que tenha sido produzido com um orçamento exorbitante. Em alguns casos os jogos indie conseguem ser muito melhores do que os grandes nomes que enchem as páginas das publicações dedicadas a este meio. Infelizmente, Aspire: Ina’s Tale fica-se pela tentativa de conseguir roubar a atenção da imprensa especializada. A causa é a jogabilidade, que não tem a capacidade de ser entusiasmante, os puzzles são competentes e quando não o são, acabam por ser frustrantes, porque não temos culpa dos controlos não responderem à velocidade que são supostos para dar o efeito (no ecrã) à nossa ação (no comando). Quando tudo corre bem, sem estes soluços técnicos, Aspire: Ina’s Tale joga-se bem, mesmo que o exercício a resolver seja demasiado simples.

Onde Aspire: Ina’s Tale mostra que tem valor é na direção artística. O jogo é mesmo muito bonito em determinados momentos (temos uma genuína vontade de parar e tirar capturas de ecrã no botão do Joy-Con esquerdo), há uma conjugação de cores em perfeita harmonia com as formas de linhas carregadas, assim como todo o cenário é verdadeiramente inspirador. Há esculturas enormes que afastam propositadamente a câmara para que possamos ver o tamanho reduzido de Ina ao lado de obras tão imponentes, mesmo que estejam em ruínas. A estética é de fantasia medieval que parece ter sido criada para uma audiência mais jovens que ainda lê literatura infanto-juvenil, dado que se consegue imaginar bem esta arte inserida em livros de contos dos irmãos Grimm ou nas obras de Sophia de Mello Breyner Andresen, como O Cavaleiro da Dinamarca.

Em suma, a obra da Wondernaut Studio é um jogo com puzzles decentes, mas que não é mais além disso. A jogabilidade poderia estar bem afinada, mas na maioria dos casos é romba, o que nos provoca frustração. Felizmente, Aspire: Ina’s Tale não é um jogo que permanecerá muito tempo nas nossas sessões, porque em menos de três horas fica concluído. Este título é recomendado para quem gosta de encher os olhos com uma arte interessante para contemplar enquanto resolve alguns desafios com pouco ou nenhum desafio.

veredito

Jogo com uma arte sublime, poderia ser melhor em muitos pontos, principalmente ao nível da jogabilidade. Infelizmente não o é.
6 Arte lindíssima. Puzzles demasiado simples. Jogabilidade frouxa. Controlos rombos.

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Aspire: Ina’s Tale

para Nintendo Switch, PC, Xbox One
Aspire: Ina’s Tale

Jogo de puzzles e plataformas numa torre que se alimenta dos sonhos…

Lançado originalmente:

dezembro, 2021