Para desagrado de muitos e absoluto deleite de outros, a série Assassin's Creed pertence desde 2009 aquela infame lista de sagas que contam com novos lançamentos todos os anos. A Ubisoft encontrou na série a sua galinha dos ovos de ouro desta geração e não parece ter intenção de parar de a explorar num futuro próximo. Ainda assim, desde o seu anúncio no início deste ano, Assassin's Creed IV: Black Flag parecia de facto ser o jogo que voltaria a representar uma enorme evolução na série, elevando ao máximo o elemento que mais celeuma provocou entre a crítica e jogadores na entrada anterior. Sendo provavelmente a mais ambiciosa iteração da série desde Assassin's Creed II, o sexto título principal da saga consegue corresponder às expectativas e entregar uma experiência que não deixará nenhum fã indiferente.

Como certamente saberão, a série Assassin's Creed possui uma enorme componente de ficção científica associada à exploração de memórias de antepassados através do DNA de um descendente que tem lugar na era moderna. Com o término da história de Desmond Miles no título do ano passado, Black Flag atribui o protagonismo principal ao jogador, um jovem talentoso que é contratado pela Abstergo Entertainment, uma das várias divisões da Abstergo Industries, para usufruir da tecnologia Animus que permite agora a qualquer pessoa explorar as memórias existentes na Amostra 17 de DNA proveniente do Sujeito 17, o nosso anterior protagonista. Uma vez que vários jogadores se queixavam da falta de interesse que tinham nestas secções dos títulos da série, a Ubisoft tornou-as quase totalmente opcional, mas também fez questão de a rechear com vários segredos espalhados pelos escritórios que oferecem mais informações sobre o passado da empresa e até mesmo sobre os acontecimentos anteriores da saga.

Mas como estes eventos ocupam apenas cercam de meia hora de jogo, se seguirem simplesmente os objetivos principais, pode dizer-se que todo o vosso tempo será passado dentro do Animus revivendo as memórias de Edward Kenway, pai de Haytham Kenway e avó de Connor, protagonistas de Assassin's Creed III. Se muitos ficaram desiludidos com Connor e a Revolução Americana, Black Flag prometia captar desde logo a atenção de todos levando-nos até à Idade de Ouro dos Piratas e ao seu território de maior influência, as Caraíbas. Não é preciso muitas horas de jogo para perceber que Edward é uma personagem muito mais interessante que o seu descendente, sem grandes preocupações para além de ganhar dinheiro e sempre com um tom sarcástico e divertido que nos coloca desde logo interessado na sua aventura, um homem que abandonou a mulher em busca de riqueza e poder através do mar e que acaba por se ver envolvido inadvertidamente na luta que já dura há seculos entre Templários e Assassinos.

No geral, a história está longe de ser das mais interessantes, mas é sem sombra de dúvidas a entrada da série que conta com os momentos de maior cariz emocional, muito graças às suas personagens secundárias. Aliás, esse acaba por um dos problemas da sua narrativa, personagens como Black Beard e Charles Vane não têm tanto de atenção como mereciam e seria desejável, ficando a sensação que foram pouco aproveitadas. Para além disso, o facto de a guerra entre as duas sociedades secretas estar relegada para segundo plano e por isso não se verificarem grandes conspirações, como em jogos anteriores, contribui igualmente para que a narrativa perca algum impacto, mesmo que nunca se torne aborrecida.

Um dos maiores trunfos desta saga é a capacidade de recriar eras importantes da história da humanidade de uma forma absolutamente espetacular, realista e digna de tais momentos. E mais uma vez, a Idade de Ouro de Piratas não foge à regra. O mundo das Caraíbas é o maior, mais interessante e mais belo que a série já ofereceu. É impossível não se sentirem completamente extasiados e maravilhados com a quantidade de pequenos objetivos que estão espalhados por todo o mapa, provocando-nos desde logo uma enorme vontade de colocar o avanço na narrativa principal em pausa apenas para poderem explorar todos os cantos do mundo.

As três cidades principais - Havana, Nassau e Kingston - fazem um excelente trabalho em representar a vida do século XVIII naquela área, com uma enorme rivalidade entre Espanha e Inglaterra, as grandes potências da época. Todas elas são interessantes e têm a sua própria identidade, destacando-se desde logo Nassau, a cidade habitada quase na totalidade por piratas e que pode ser descrita como uma autêntica pocilga, na qual a bebida serve de escape para as más condições e doenças que a afetam de forma significativa.

No entanto, aquilo que torna este título verdadeiramente especial são os mais de setenta locais selvagens à espera de serem explorados por toda a área das Caraíbas e o mar onde passaremos horas e horas sem fim, permanentemente a ser distraídos por actividade aleatórias como batalhas navais entre Espanha e Inglaterra. Se as zonas selvagens brilham graças à sua vegetação densa que dá enormes possibilidades para nos movimentarmos furtivamente, o mar capta a nossa atenção pela sua magnitude e imponência. Existe algo de incrivelmente belo em ver uma enorme baleia mergulhar mesmo ao lado do nosso navio ou então simplesmente deslocar-nos à velocidade mais elevada enquanto somos rodeados por água e sem terra à vista no horizonte e ouvimos uma das várias canções náuticas da época cantadas pela nossa tripulação.

Os ciclos de dia e noite e de alterações do clima regressam de novo e têm um efeito ainda mais pronunciado no mar. Podemos ver a nossa visibilidade ser drasticamente reduzida pelo denso nevoeiro ou darmos por nós a entrar mesmo no centro de uma temível tempestade com ondas gigantescas e tornados capazes de destruir rapidamente o Jackdaw, sendo que estes fatores podem facilmente mudar o rumo dos acontecimentos de uma batalha naval com um navio ou um dos vários fortes que asseguram o domínio das nações em determinados locais do mapa que até estava a correr bem antes de a tempestade ter início. Ainda assim, o momento mais belo que experienciei foi em terra quando, depois de uma chuva torrencial, fui presenteado com a visualização de um arco-íris junto a uma queda de água. De salientar ainda que não existem ecrãs de carregamento durante quase todas as transições entre terra e mar, embora estes continuem presentes quando entramos ou saímos das localizações principais, como por exemplo as três cidades.

Depois do enorme sucesso com que as missões navais foram recebidas em Assassin's Creed III, a Ubisoft decidiu elevar este elemento ao seu expoente máximo em Black Flag. Com um mar gigantesco para ser explorado, as Caraíbas e a Idade de Ouro dos Piratas eram a combinação necessário para conseguir isso mesmo. Ao contrário do título anterior, não somos forçados a destruir todos os navios que apareçam no horizonte e podemos até ter de navegar furtivamente por determinadas áreas restritas, oferecendo momentos de jogabilidade absolutamente memoráveis em que tentamos ao máximo fazer passar despercebido um gigantesco navio. No que diz respeito ao combate, a produtora não realizou grandes alterações ao que já era muito bom no jogo passado e manteve tudo bastante simples e eficaz. Cada lado da embarcação está associado a uma determinada arma ou bala e a proteção de ataques alheios está restrita a manter premido um botão. Devido à escala destes combates e a diferença óbvia que representam em relação à jogabilidade habitual da série, as missões navais acabam por ser o elemento que impede a saturação do jogador.

A principal novidade das secções marítimas de Black Flag é a possibilidade de abordar navios quando conseguimos causar danos suficientes para isso, sendo que depois é necessários cumprir alguns objetivos secundários, como matar determinado número de guardas ou destruir a bandeira do navio, antes que fiquemos sem tripulação. Concluída a abordagem, é nos dada a escolha entre reparar o Jackdaw, recrutar tripulação ou adicionar o navio à nossa frota para tornar seguras as rotas marítimas e realizar trocas comerciais. Não deixa de ser um pouco estranho que, sempre que abordamos um navio, mesmo que existam outros nas redondezas com os quais estamos em conflito, estes deixem inexplicavelmente de nos atacar, permitindo que reparemos o nosso navio durante as batalhas.

Quando estamos com os pés bem assentes na terra, não existe como negar que Black Flag é um título da série Assassin's Creed. O combate permanece essencialmente igual aos títulos anteriores com a tática mais utilizada a ser a aposta no contra-ataque, embora exista agora uma maior variedade de inimigos que nos obrigam a tomar a iniciativa. Em suma, os fãs da série não encontrarão qualquer problema ou até mesmo dificuldade neste título. O free-running contínua excelente e fluido, mas também com os mesmos problemas do passado durante segmentos de perseguições, com a personagem a ter uma enorme tendência para se agarrar ao sítio errado no momento errado, algo que parece ser um problema crónico da série.

Como seria de esperar num jogo situado na era dominada pela pirataria, tudo gira à volta de dinheiro, existindo contractos de assassinato e contractos navais para aumentar a nossa conta bancária, bem como cofres e tesouros espalhados pelo mundo e materiais para vender. Este dinheiro poderá ser gasto para melhorar o Jackdaw, juntamente com materiais específicos que vão sendo adquiridos ao abordar navios inimigos e de caixas de mercadorias que se encontram perdidas no mar e ilhas selvagens. Se para melhorar o navio estamos dependentes de dinheiro, para melhorar Edward estamos dependentes da nossa habilidade para a caça de animais terrestres e aquáticos. Arpoar baleias e tubarões é um minijogo interessante, mas, tendo em conta a controvérsia que gerou, acaba por ser desnecessário.

Em termos de variedade de missões, Assassin's Creed IV: Black Flag oferece momentos de diversão e sequências únicas na série que nos levarão a quase todos os cantos do mundo, por terra e mar, existindo um equilíbrio bastante saudável entre estes dois elementos. Ainda assim, as típicas missões de seguir personagens durante um determinado tempo para obter informações continuam a ser utilizadas em exagero, embora seja notório um esforço para as tornar mais curtas e com pontos de controlo muito mais generosos do que acontecia anteriormente.

O mar das Caraíbas é um mundo aberto sem igual com uma enormidade de coisas para fazer e, apesar de estar disponível para ser explorado desde uma fase precoce do jogo, a nossa progressão por ele é limitada de uma forma muito inteligente, uma vez que o mapa se encontra dividido em várias áreas protegidas por fortes e navios de dificuldade crescente contra os quais não teremos qualquer tipo de hipótese em confronto direto no início da aventura. Mais de trinta horas de jogo não foram suficientes para obter uma sincronização superior a 70%, com o meu mapa a continuar ainda recheado de colecionáveis à espera de serem recolhidos e que darão pano para mangas aos que gostam de concluir os títulos na sua totalidade. Cofres de ouro, mapas de tesouro com coordenadas para o tesouro propriamente dito, canções de bordo, artefactos dos Maia, e fragmento do Animus são alguns exemplos dos itens que se encontram espalhados pelas cidades e ilhas selvagens de Black Flag.

Como vem sendo habitual desde o lançamento de Brotherhood, a entrada deste ano da saga conta também com uma componente multijogador para acompanhar a gigantesca campanha a solo. Apesar de continuar a apresentar um conceito único e incrivelmente divertido, com os jogadores a tentarem ao máximo fazer-se passar por personagens não controladas para apanhar desprevenidos os seus alvos, o multijogador está longe de ser o elemento pelo qual qualquer jogador comprará o título. Ainda assim, destaque para o modo Matilha que estimula o trabalho de equipa entre quatro jogadores durante uma determinada missão com objetivos constantemente a ser alterados.

Graficamente, Black Flag é bastante semelhante à entrada anterior da série - refiro-me como é óbvio à versão PlayStation 3 a que tive acesso -, mas é muito mais apelativo, muito graças aos cenários verdejantes e ao mar imponente. A ausência de edifícios gigantescos continua a ser um pouco desapontante, mas compreensível tendo em conta a base histórica que a Ubisoft aplica na saga. As vozes que dão vida às personagens são excelentes, como é habitual, e conseguem torna-las ainda mais memoráveis, seja a voz rouca de Vane, o sotaque galês de Edward ou a voz poderosa de Black Beard. As canções náuticas e a banda sonora são também de grande qualidade, recriando a época de uma forma subtil, mas eficaz.

Em suma, Assassin's Creed IV: Black Flag é um título obrigatório para todos os que seguem a série desde a sua génese e sem dúvida o melhor que nos foi proporcionado desde que a saga se tornou anual. Os problemas crónicos continuam presentes e o facto de a história se afastar um pouco da guerra entre Templários e Assassinos prejudicam uma experiência que, graças às novidades implementadas com o foco nos elementos navais, acaba por oferecer uma jogabilidade diversificada e várias horas de conteúdo com tudo aquilo que tornou a série um dos marcos desta geração. A única decisão que há para fazer é se vão jogar o título na atual geração ou se vão esperar pela vossa próxima consola.