Varada pelas suas vergonhas, a humanidade tem que compreender bem os seus momentos mais injutos e agressivos para evitar a sua repetição. Indiscutivelmente, a escravatura foi um desses períodos que ainda perseguem a sua contemporaneidade e ainda ensombram algumas práticas correntes. Além do que é estudado nas aulas de história, o mundo do entretenimento tem um papel preponderante na ilustração desse quadro geral que tocou praticamente quase todos os cantos do Mundo.

Prova disso é 12 Anos Escravo, o novo filme de Steve McQueen, o realizador britânico que ofereceu a sua visão sobre Solomon Northup, um homem vendido na América no ido ano de 1841. Apesar de já não estar à flor da pele, é um tema que precisa de perícia emocional para ser abordado, pois ainda causa muita irritação à pele da humanidade. Contudo, não é apenas o cinema que tem uma palavra a dizer sobre o assunto. Recentemente, a Ubisoft optou por essa estrada sinuosa e centrou Freedom Cry, DLC de Assassin's Creed IV: Black Flag, na redenção de Adéwalé, personagem que nasceu escravo e que agora tem nas suas mãos a oportunidade de libertar os seus semelhantes em Port-au-Prince, Saint-Domingue.

Freedom Cry decorre quinze anos após os acontecimentos de Black Flag e, provavelmente, vão reconhecer Adéwalé do jogo principal, pois a personagem foi apresentada como contramestre de Edward Kenway. Nos minutos iniciais da expansão perceberão pela batalha naval que o outrora ajudante é agora assassino. Pouco depois naufragam na posse de uma encomenda misteriosa na costa areada de Saint-Domingue. Os argumentistas da produtora francesa não perdem um segundo a demonstrarem quais são as intenções para o protagonista da expansão, seja na libertação do vosso primeiro escravo, seja no encontro praticamente imediato com Bastienne no bordel de Port-au-Prince, Adéwalé está aqui para libertar todos os escravos, fazendo justiça com as suas próprias mãos e começando uma revolução.

Ao longo das quatro a cinco horas que demora a completar o jogo, a narrativa revela-se o seu ponto mais forte. Não tanto pela excelência dos diálogos, mas sim pelo tema em questão, talvez incendiando em cada jogador a centelha de revolta que ainda existe por sabermos que os nossos semelhantes foram tratados de uma maneira irracional, cobarde e, sobretudo, injusta. Seja por que motivo for, o arco narrativo é emocionalmente envolvente e enche-nos de reconforto fazer justiça com as nossas próprias mãos, nem que para isso seja preciso recorrer ao machete, a arma principal de Adéwalé.

Contudo, este borbulhar de empreendimento emocional desagua num sentimento de inconsequência. Estas pessoas trabalharam em sanzalas, campos de cultivo vergados de sol-a-sol, estiveram encarcerados em condições deploráveis, foram abusados física e psicologicamente, passaram um calvário desde os primeiros aos últimos passos que deram neste mundo e, ainda assim, a sua libertação não resulta num desfecho satisfatório e justo.

A culpa não é de Adéwalé, que cumpre com mestria o seu papel de protagonista. Os olhos tristes, o ar soturno e as cicatrizes que lhe riscam o rosto são a prova imediata que o seu passado legitima o seu presente. Os objetivos também versam sobre a temática: além da libertação de cada escravo, seja de jaulas, do trabalho forçado, de sovas ou a interromper a sua venda, enfim, a cada situação resolvida, sentimos que estamos, literalmente, a salvar e mudar vidas, o que é o maior consolo, pois como já foi dito, a oposição que vamos formando com o passar das horas e das missões não é aproveitada convenientemente para o bem maior: dar uma consequência retumbante a este flagelo do século XVIII, em vez de desbloquearmos itens e melhorias como em milhares de outros títulos com uma premissa muito mais genérica e descartável.

Quem já jogou um título da série Assassin's Creed sabe perfeitamente o que esperar do sistema de combate e de exploração, saltando de telhado em telhado, escondendo-se atrás de pontos cuidadosamente colocados no cenário, pouco muda em relação a Black Flag e, conforme já foi mencionado, as armas à disposição de Adéwalé, nomeadamente o machete, asseguram e justificam plenamente uma classificação para maiores de dezoito anos.

As nove missões estão espalhadas por Port-au-Prince e pela selva que o ladeia, portanto não esperem um cenário de estrutura e dimensão ao que provavelmente já exploraram na campanha do jogo principal. Contudo, isto não significa que não haja bastante que fazer. Como é apanágio da série, o jogo pisca um olho ao aumento da sua jogabilidade com várias missões secundárias e tarefas como perseguir e/ou matar suspeitos. Além disso, o tema naval não é apenas explorado na cena que abre o jogo, sendo possível regressar ao mar para novos combates navais.

Convém ainda mencionar que, apesar de ser obrigatório ter uma cópia de Assassin's Creed IV: Black Flag inserida na consola, Freedom Cry funciona autonomamente, ou seja, podem começar a expansão sem ter iniciado o jogo principal, criando um ficheiro de gravação à parte. Porém, como já foi dito, este complemento arranca com uma sequência de batalhas navais, dando posteriormente a opção de afundar a embarcação inimiga ou de subir a bordo para saquear e conquistar o que resta. Obviamente, caso optem pela segunda opção, o sistema de combate de Assassin's Creed marca logo uma presença aguerrida, ou seja, à falta das rotinas de combate que desenvolvem na história principal, provavelmente vão andar um pouco perdidos à procura das indicações que vão timidamente aparecendo no canto superior direito.

A expansão foi testada na PlayStation 4, portanto, o grafismo do jogo é deslumbrante. Texturas, efeitos da chuva, o detalhe de todas as áreas principais e lugares mais recônditos de Port-au-Prince, a vegetação das selvas que o rodeiam, enfim, jogar Freedom Cry na nova consola da Sony é perceber que este nível técnico não é possível na geração anterior de consolas. Se o que vemos é excelente, o que ouvimos não tem o mesmo impacto, todavia, não é de nenhuma maneira genérico.

Tenho que dar crédito à Ubisoft pelo tema abordado. O desfecho não é o mais conseguido, porém, a escravatura foi e continua a ser algo grave, uma vergonha no currículo da humanidade cujas metástases ainda são sentidas hoje em dia. A produtora gaulesa retrata esse período com a mínima seriedade exigida e faz serviço público ao mostrar a alguns jogadores que andam de costas voltadas à história aquilo que os seus antepassados fizeram. O cenário, ainda que contido, é deslumbrante.

A sua chegada quando ainda muitos jogadores estão a acabar de espremer o jogo principal pode ser encarada de duas maneiras: ou ficaram satisfeitos com as dezenas de horas que acabaram de investir, ou querem prolongar essa experiência com mais algumas horas de uma expansão que, como seria de esperar, aposta na continuidade das mecânicas e nunca numa rutura.