Para o bem e para o mal, Assassin’s Creed já não é a mesma série que arrebatou os jogadores em 2007 e mostrou o verdadeiro poderio das consolas de então para oferecer vastos, detalhados e vivos mundos abertos que simplesmente não eram exequíveis no passado. Desde esses tempos até à atualidade, os mundos abertos tornaram-se de tal forma ubíquos que a Ubisoft se viu forçada a virar atenção para outros elementos dos múltiplos lançamentos da saga para assegurar a sua relevância e se manter competitiva face ao que se melhor se vai fazendo no género.

Independentemente dos meus sentimentos atuais para com uma das propriedades intelectuais com maior significado na minha vida de jogador - sobre os quais podem ler aqui -, não há como negar a evidência de que Assassin’s Creed Origins foi precisamente a lufada de ar fresco que esta precisava para voltar a cimentar a sua popularidade e o seu estatuto como um dos colossos da indústria. Apenas um ano depois, Odyssey explora ainda mais a fundo as possibilidades oferecidas pela reformulação das mecânicas basilares da experiência de jogo.

Mais do que um tradicional título de ação e aventura, género no qual deu os primeiros e decisivos passos para o sucesso, Assassin’s Creed é agora indiscutivelmente um Role Playing Game, apresentando todos os condimentos que seriam de esperar de uma obra assente nos canones deste tipo de experiência. Com um título bastante adequado, Odyssey é um jogo gigantesco, um jogo que se torna não raras vezes avassalador na quantidade de conteúdo que coloca à disposição, um jogo que pede largas dezenas de horas ao jogador para retirar o máximo proveito do mesmo.

Ainda mais recheado do que o seu antecessor, a nova entrada da série tenta ao máximo justificar o investimento daqueles que decidem embarcar nesta aventura por terras disputadas por Atenas e por Esparta. É um esforço que merece, sem dúvida alguma, ser enaltecido e aplaudido, mas existem momentos em que o título parece não saber quando parar, em que fica evidente que há pouco mais a motivar a exploração minuciosa dos seus cenários do que a vontade difícil de ignorar por alguns de completar o jogo na sua totalidade.

Embora exista uma saudável diversidade de atividades para realizar, sejam fortes para invadir, acampamentos de bandidos para saquear, túmulos e estruturas subaquáticas para explorar, animais para caçar, entre outras, existe um denominador comum a todas elas que faz com que estas se comecem a tornar bastante semelhantes entre si após inúmeras horas de jogo: o loot. Loot é o elemento fulcral da atual experiência Assassin’s Creed. Todas estas atividades não brilham pelos locais que nos permitem conhecer, mas sim pelo ciclo de jogabilidade aprimorado e recompensador da obra e, acima de tudo, pelo objetivo final, isto é, a obtenção de novo e possivelmente melhor equipamento.

Esta é a principal dicotomia da fórmula atual de Assassin’s Creed. Se, por um lado, a procura e obtenção permanente de loot dá ao jogador um motivo para continuar a deslocar-se a todos os pontos de interrogação que vão surgindo no mapa, por outro lado, o foco desmesurado nessa obsessão faz com o lindíssimo e detalhado mundo histórico à nossa disposição se transforme tantas vezes num glorificado pano de fundo para aquilo que o jogo apresenta como verdadeiramente importante, isto é, as caixas de tesouro que habitam nesses espaços.

Dito isto, e mesmo que o título se esqueça tantas vezes de o destacar da melhor forma, o mundo de Odyssey é efetivamente uma construção impressionante e mais uma demonstração da capacidade dos estúdio da Ubisoft para recriar versões digitais incrivelmente detalhadas de períodos históricos. Transportando-nos para o auge da guerra entre Atenas e Esparta, há imponentes construções para ver, cidades repletas de vida e que realçam a disparidade entre as classes para conhecer, modos de vida e personalidades com os quais podemos contactar e muito mais.

Ao controlo de um descendente do lendário Leonidas - Kassandra ou Alexios, dependendo da vossa preferência - que viu uma tragédia familiar separá-lo dos seus entes queridos e acabar por dar à costa em terras controladas por Atenas, o jogador não escolherá lados nesta longa guerra, mas sim em favor de quem estiver disposto a pagar. Sim, em Assassin’s Creed Odyssey controlamos um Misthios, um mercenário sempre disponível para ajudar quem lhe colocar Drachmae no bolso, independentemente da sua fação ou da civilização a que pertence.

Também por aí se explica a muito bem-vinda introdução das opções de diálogo e consequente tomada de decisões que moldam o nosso protagonista, a sua bússola moral e a sua relação com o mundo que o rodeia. Não, não foi só para vos dar a oportunidade de seduzir ou se deixarem seduzir pelos encantos daqueles que conhecem durante a aventura - opções de romance são agora parte da experiência - que as opções foram introduzidas. Afinal de contas, existem decisões aparentemente inócuas que acabam por ter consequências significativas, embora estas sejam mais frequentes em linhas narrativas secundárias.

Na verdade, a existência de vários fios narrativos na obra, alguns dos quais totalmente opcionais, ajudam a suportar uma narrativa de vingança e reunião familiar cujo ritmo é claramente afetado pela quantidade de conteúdo com que o jogador é bombardeado a todo e qualquer momento. Ainda assim, mesmo com problemas de ritmo, a narrativa de Assassin’s Creed Odyssey faz o suficiente para entregar uma aventura interessante e com alguns momentos bastante apreciáveis. Contudo, são os protagonistas que mais brilham e cativam ao longo da aventura, aspeto que é fortalecido pelas já mencionadas opções de diálogo.

As ligações à batalha que já dura há séculos entre Templários e Assassins são ténues na melhor das hipóteses, com o título a focar-se mais nos Isu, a civilização avançada e entretanto extinta que criou a humanidade na mitologia da série e à qual pertencem Juno e Minerva, dois nomes com os quais os fãs da série estarão certamente familiarizados. Mesmo assim, a estrutura tripartida desta odisseia - a narrativa focada na família do/a protagonista, a caça ao culto que vai controlando o mundo nas sombras e a exploração de construções dos Isu - permite que o jogador possa ir dividindo atenções sem se cansar de qualquer uma delas.

Na jogabilidade há igualmente algumas novidades em relação a Origins que ajudam a solidificar este novo estilo de Assassin’s Creed. O escudo que Bayek utilizava para bloquear ataques inimigos não encontra equivalente em Odyssey, com o combate a apresentar um foco superior no esquivar de ataques no timing certo, algo que quando conseguido abranda o tempo por alguns segundos, e no parry que vos permite criar aberturas na defesa de inimigos munidos de escudos. Essencialmente, isto significa que abordar inimigos mais poderosos em grande número está mais desafiante do que nunca.

Adicionalmente, o novo título conta também com um sistema de Bounties que coloca um preço na vossa cabeça e vai colocando outros mercenários na vossa perseguição à medida que vão realizando ações questionáveis ou ilegais. Para se livrarem destes mercenários podem optar por enfrentá-los diretamente, o que pode não ser aconselhável dependendo da diferença de poder entre o protagonista e o oponente em questão, matar o responsável pela bounty ou simplesmente pagá-la. Embora tenha optado quase sempre por pagá-las, existe incentivo para enfrentar este mercenários, uma vez que derrotá-los fará com que ascendam na hierarquia de mercenários que coabitam as várias regiões do mapa.

Finalmente, regista-se também a introdução de Batalhas de Conquista que fazem colidir exércitos de espartanos e os de Atenas em gigantescos e caóticos confrontos. Após o enfraquecimento da fação dominante pelas vossas ações, a possibilidade iniciarem a Batalha de Conquista será disponibilizada, sendo que podem nesse optar por defender a fação que domina a região ou lutar lado-a-lado com aqueles que pretendem inverter o poder. São atividades opcionais, mas as recompensas poderão ser motivação suficiente para participarem nelas.

De resto, Odyssey permanece um melhoramento da fórmula de Origins. Os inimigos acompanham agora a subida de nível da vossa personagem, bem como o nível das missões, o que significa que já não é possível chegarem a um ponto em que se tornam praticamente intocáveis frente aos inimigos das regiões iniciais. Para além disso, a árvore da habilidades inclui também ataques especiais que podem ser utilizados para desferir danos significativos seja no combate corpo-a-corpo ou com recurso ao arco e flecha.

Referir também a distinção que a obra faz entre o Modo Exploração e o Modo Guiado. Ainda antes de arrancarem a aventura, o jogo pergunta-vos qual dos dois modos preferem. O primeiro coloca, como o nome indica, o foco na exploração, ou seja, sempre que recebem uma missão, as personagens não vos dão uma localização exata do local onde está o objetivo, mas sim uma área geral que devem explorar, com recurso à águia Ikaros. Por sua vez, o Modo Guiado oferece a experiência tradicional que coloca imediatamente o marcado no mapa do local para onde devem ir para prosseguir a missão. Como é óbvio, recomenda-se o primeiro para aqueles que pretendem uma experiência mais pausada e com tempo para nada mais do que a exploração.

No departamento técnico, Assassin’s Creed Odyssey é, como já foi referido, uma obra bastante impressionante. Mesmo com alguns soluços - ecrãs de carregamento durante a exploração do mundo aberto, inteligência artificial pouco consistente, alguns pop-ups à distância -, o mundo do título é um regalo para os olhos, capaz de proporcionar belos horizontes que convidam ao uso e abuso do modo fotografia. A diversidade de ambientes e a capacidade do jogo para dar a cada localização uma identidade própria é de salutar e faz com que esta se mantenha sempre esteticamente cativante. Já a banda sonora permanece fiel ao tom épico dos arranjos orquestrais a que a série sempre nos habituou.

Assassin’s Creed Odyssey é efetivamente um colosso. Uma epopeia gigantesca que parece ter sempre algo mais para manter o jogador preso ao seu belo e detalhado mundo. A obsessão pelo loot retira alguma atenção que devia ser direcionada para a excelente reconstrução da Grécia Antiga por parte da editora gaulesa, no entanto, graças a um ciclo de jogabilidade recompensador e a uma narrativa preserva o nosso interesse, com especial destaque para a excelente Kassandra, o título acaba por se afirmar como um retumbante sucesso.